SONGFABLE · 2023

Used to Be Young

MILEY CYRUS · 2023

TL;DR: Não é uma canção de arrependimento — é uma carta de anistia. Miley Cyrus lançou "Used to Be Young" exatamente dez anos depois da performance no VMA que virou o escândalo mais comentado da sua vida, transformando a data da condenação pública no dia em que ela se perdoa em voz alta.
Listen elsewhere

We couldn't link a Spotify track for this story. Try searching the title on song.link to find it on your preferred service.

O detalhe que muda tudo: a data não foi coincidência

Existe uma pequena engrenagem escondida dentro dessa música, e quando você a percebe, a canção inteira muda de cor.

"Used to Be Young" foi lançada em 25 de agosto de 2023. Dez anos antes, no dia 25 de agosto de 2013, uma Miley Cyrus de vinte anos subiu ao palco do MTV Video Music Awards com um collant cor de pele, uma espuma de dedo gigante e uma coreografia que, nas 48 horas seguintes, foi dissecada por telejornais, colunistas de moral e mesas de debate do mundo inteiro — inclusive no Brasil, onde o assunto rendeu semanas de programa de fofoca. Foi o dia em que a menina do Disney Channel foi oficialmente declarada "perdida" pela opinião pública.

Escolher esse mesmo dia, uma década depois, para lançar uma balada sobre olhar para a própria juventude sem vergonha, é uma jogada de precisão quase cirúrgica. Não é nostalgia. É um acerto de contas com o calendário. Miley pegou a data em que o mundo decidiu quem ela era e devolveu essa data para si mesma, com outra narrativa colada por cima.

E é por isso que a música dói de um jeito diferente das outras baladas de "olha como eu cresci" que povoam o pop. A maioria delas pede desculpas. Essa aqui, não. Ela reconhece os estragos, reconhece o barulho, reconhece as noites que não voltam — e, mesmo assim, recusa a ideia de que aquilo tudo foi um erro a ser apagado. É uma diferença sutil e enorme.

Bastidores: o ano em que Miley reescreveu tudo

Para entender o peso de "Used to Be Young", vale lembrar como estava 2023 para Miley Cyrus.

Em janeiro daquele ano ela lançou "Flowers", que virou um daqueles fenômenos globais que acontecem uma ou duas vezes por década. A faixa quebrou recordes de streaming, ficou semanas no topo de praticamente todas as paradas relevantes do planeta e rendeu a ela os primeiros prêmios Grammy da carreira, já em 2024. Depois de mais de quinze anos como artista profissional, Miley finalmente tinha aquilo que a indústria chama de "consenso": o público, a crítica e a Academia concordando ao mesmo tempo.

O álbum que abrigava "Flowers", Endless Summer Vacation, saiu em março de 2023 e tinha um clima ensolarado, californiano, de manhã depois de uma noite longa. Mas faltava algo — e esse algo veio em agosto, quando ela lançou "Used to Be Young" como single avulso, acompanhado de um projeto audiovisual apresentado como a continuação do álbum, com regravações acústicas no formato das célebres Backyard Sessions (as sessões de quintal que ela vinha fazendo desde 2012).

A composição é creditada a Miley Cyrus ao lado de Michael Pollack e Gregory Aldae Hein, com produção que envolveu, segundo os créditos divulgados, o time que já vinha trabalhando com ela naquele ciclo — incluindo Mike WiLL Made-It, colaborador dela desde a fase Bangerz, de 2013. Ou seja: o mesmo produtor que ajudou a construir o caos sonoro de 2013 estava lá para ajudar a fazer o inventário dele em 2023. Poucas simetrias no pop são tão bem escolhidas.

O videoclipe é a peça que fecha o argumento. Dirigido por Jacob Bixenman e Brendan Walter, ele é essencialmente um plano único: Miley em close, de camiseta do Mickey Mouse Club — o símbolo mais direto possível da máquina Disney que a criou —, cantando direto para a câmera enquanto ri, chora, se emociona e se recompõe em tempo real. Não há troca de figurino, não há narrativa, não há efeito. É só um rosto adulto encarando a própria adolescência. Relatos da época dão conta de que boa parte da emoção era genuína, gravada em poucas tomadas.

Vale lembrar que 2023 também foi um ano de turbulência familiar pública para os Cyrus, com a separação dos pais dela, Tish e Billy Ray, ainda repercutindo na imprensa. Miley já comentou publicamente que a canção tem uma camada dedicada à mãe e à ideia de que uma geração inteira da família estava, ao mesmo tempo, revendo suas próprias escolhas. Isso raramente aparece nas leituras rápidas da música, mas explica por que ela soa menos como diário de celebridade e mais como conversa de cozinha entre duas gerações.

A conexão brasileira: para quem cresceu no Brasil dos anos 2000, Miley não é apenas uma popstar americana — ela é Hannah Montana dublada em português, passando na TV a cabo depois da escola, com aquela dublagem que uma geração inteira consegue imitar de cor. Foi um dos produtos culturais americanos mais absorvidos pela infância brasileira daquela década. Por isso, quando ela veio ao país já adulta — incluindo a passagem marcante como headliner do Lollapalooza Brasil em 2022, no Autódromo de Interlagos, num show em que o público cantava tanto o repertório rock quanto os hits de Disney — havia algo de reencontro geracional no ar. O brasileiro que estava naquele gramado não estava só vendo um show: estava vendo a própria infância virar adulta junto com ela. "Used to Be Young" fala exatamente com essa pessoa.

O que a letra realmente diz (sem citar uma linha sequer)

A música é construída como um balanço contábil feito por alguém que já não tem medo do resultado.

Na primeira parte, ela assume o papel que os outros escreveram para ela: a garota que aprontava, que bebia demais, que falava o que não devia, que fazia as manchetes que os adultos usavam como exemplo do que não fazer. Só que a assunção vem sem o tom de confissão envergonhada. É mais parecido com alguém lendo em voz alta a própria ficha criminal e comentando, com um meio-sorriso, que sim, foi tudo verdade — e daí?

O movimento central da canção é uma distinção quase filosófica: existe diferença entre ser aquela pessoa e ter sido aquela pessoa. O tempo verbal é o personagem principal aqui. Ao insistir no passado, ela não está rejeitando quem foi; está dando a essa versão um lugar digno na linha do tempo, em vez de tratá-la como uma mancha a ser removida. É o oposto de reescrever a história — é arquivá-la com respeito.

Há também uma camada dirigida a quem julga. Sem apontar dedos, a canção observa que as pessoas que gritavam mais alto sobre os erros dela seguiram com suas vidas, enquanto ela ficou carregando aquelas noites sozinha. O tom não é de vingança, é de constatação cansada. Quem já foi assunto de fofoca alheia — em escala de escola, de trabalho ou de país inteiro — reconhece essa sensação imediatamente.

E existe uma ternura inesperada nas passagens que parecem falar com alguém mais velho, um pai ou uma mãe, alguém que também foi jovem e imprudente e que talvez precise ouvir que aquilo não anula quem se tornou. É aí que a música deixa de ser sobre Miley Cyrus especificamente e passa a funcionar para qualquer pessoa. Todo mundo tem uma versão de si que a família prefere não mencionar no almoço de domingo.

Musicalmente, o arranjo faz questão de não atrapalhar. A base é de balada country-pop, com uma progressão simples e um crescendo contido que nunca explode em virtuosismo. A voz de Miley — rouca, com aquela textura de lixa que virou sua assinatura depois de anos de uso e de uma cirurgia nas cordas vocais em 2019 — carrega o peso emocional praticamente sozinha. É uma escolha de produção inteligente: numa canção sobre não esconder as cicatrizes, a própria voz precisa mostrar as suas.

Contexto cultural: o fim de um ciclo de punição

"Used to Be Young" chegou num momento em que a cultura pop começava a revisar seus próprios julgamentos.

Ao longo dos anos 2010, uma safra inteira de jovens artistas mulheres — especialmente as que vieram de fábricas de estrelas infantis — foi triturada pela imprensa e pela internet por comportamentos que, em homens da mesma idade, seriam descritos como "fase rock and roll". No início dos anos 2020, documentários, retrospectivas e um clima geral de revisão histórica começaram a apontar o quanto disso era desproporcional e, em muitos casos, cruel.

Miley nunca foi a personagem mais frágil dessa história — ela sempre teve uma capacidade quase atlética de encarar o barulho de frente. Mas ela era, sim, um dos casos mais citados. Por isso, a decisão de responder com uma balada e não com um manifesto foi tão eficaz. Ela não pediu retratação de ninguém. Ela simplesmente mostrou o resultado: uma mulher de trinta anos, inteira, capaz de olhar para trás sem se encolher.

Comercialmente, a estratégia funcionou. A canção estreou entre os primeiros lugares da parada americana, alcançando o top 10 da Billboard Hot 100, e teve desempenho forte em vários mercados internacionais — consolidando 2023 como, de longe, o melhor ano comercial da carreira dela. Mas o impacto real foi outro: a música virou trilha de vídeos caseiros em que pessoas comuns comparavam fotos de si mesmas aos dezenove e aos trinta e poucos anos. Nas redes brasileiras, esse formato circulou bastante, muitas vezes com legendas sobre superação de fases difíceis, saída de relacionamentos ruins ou simplesmente sobre o choque de perceber que a faculdade acabou faz uma década.

Também é significativo que a canção tenha vindo emparelhada com as Backyard Sessions, aquele formato caseiro em que Miley regrava clássicos alheios e músicas próprias com banda ao vivo num quintal. É o oposto estético do espetáculo de 2013. A mensagem implícita: o palco não precisa mais ser um campo de batalha.

Por que ela continua acertando em cheio

Existe uma razão prática pela qual "Used to Be Young" não envelheceu nesses anos: a música resolveu um problema emocional que quase todo mundo tem e quase ninguém sabe nomear.

A cultura contemporânea oferece basicamente dois roteiros para lidar com o passado. O primeiro é a negação nostálgica — "aqueles eram os melhores dias da minha vida", que congela a pessoa numa versão antiga de si. O segundo é a autocrítica performática — "eu era horrível, hoje eu evoluí", que é essencialmente uma forma educada de se odiar retroativamente. Os dois são armadilhas.

Essa canção propõe um terceiro caminho, e é isso que a torna útil. Ela sugere que é possível dizer, ao mesmo tempo, que aquilo foi real, que aquilo acabou, e que aquilo não precisa ser desculpado. Uma espécie de paz assinada consigo mesmo, sem cláusulas humilhantes.

Para o público brasileiro, que tem uma relação afetiva particularmente intensa com a ideia de "quem eu era antes" — seja na música sertaneja, no samba de raiz ou no pagode, o balanço entre saudade e seguir em frente é praticamente um gênero nacional —, esse terceiro caminho soa familiar. A diferença é a moldura: aqui vem de uma mulher que teve toda a sua juventude arquivada em alta definição, disponível para consulta pública para sempre. Ela não pode fingir que não aconteceu. Ninguém arquivou a nossa, mas cada vez mais gente vive com o próprio passado indexado em algum servidor.

Talvez seja esse o motivo pelo qual a música continua encontrando ouvintes novos. Estamos todos, em graus diferentes, virando pessoas cujo passado não some. "Used to Be Young" é o manual mais gentil já escrito sobre como conviver com isso.


Como mergulhar mais fundo

🎧 Mergulhe no som

📚 Siga a história

🌍 Visite os lugares

🎸 Experimente você mesmo


🎵 Ouça esta música

🤖 Pergunte mais
Tags
20s