Bad Habits
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Bad Habits - Ed Sheeran (2021)
TL;DR: Por trás do brilho disco e do refrão grudento, "Bad Habits" é uma confissão sobre vícios, escolhas autodestrutivas e aquela sensação de que o que te faz mal também te faz se sentir vivo — embalada por Ed Sheeran num figurino de vampiro neon que ninguém esperava.
A surpresa logo de cara
Quando se fala em Ed Sheeran, a imagem que vem à cabeça da maioria é a de um ruivo discreto, de camiseta simples, sentado num banquinho com um violão e um loop pedal, cantando baladas que fazem casais se beijarem em casamentos. "Thinking Out Loud", "Perfect", "Photograph" — o homem construiu um império de músicas românticas e acústicas. Então, em junho de 2021, ele apareceu com a pele pálida, dentes pontiagudos, maquiagem extravagante e um terno cor-de-rosa berrante, dançando no meio da madrugada como se fosse um personagem saído de um filme de terror estilizado.
Esse choque visual não era gratuito. "Bad Habits" marca o momento em que Sheeran decidiu romper com a própria fórmula. Em vez do violão melancólico, ele entregou uma batida dance-pop pulsante, com aquele groove de quatro batidas por compasso que parece feito sob medida para a pista de dança. A grande ironia é que a música fala justamente sobre coisas que destroem a gente por dentro — e ele resolveu transformar essa autodestruição numa festa eletrônica irresistível. É essa contradição entre tema sombrio e som eufórico que faz a faixa funcionar tão bem.
O homem por trás da máscara de vampiro
Para entender "Bad Habits", vale lembrar onde Ed Sheeran estava na vida quando a escreveu. Depois do sucesso estratosférico do álbum "÷" (Divide) e da turnê que se tornou uma das mais lucrativas da história da música, Sheeran simplesmente sumiu por um tempo. Ele se casou com Cherry Seaborn, sua amiga de infância, teve a primeira filha e viveu um período de relativa reclusão. Foi um recuo deliberado de alguém que tinha conquistado tudo e precisava respirar.
"Bad Habits" foi o single que anunciou seu retorno, abrindo caminho para o álbum "=" (Equals), lançado mais tarde em 2021. A faixa foi composta em parceria com Johnny McDaid, do Snow Patrol, e produzida por Fred again.., um nome que viria a se tornar gigantesco na cena da música eletrônica nos anos seguintes. Essa escolha de produtor não foi por acaso: Sheeran queria deliberadamente soar diferente, mais noturno, mais club.
Conta-se que parte da inspiração veio de uma reflexão honesta sobre os próprios excessos. Sheeran já falou abertamente em entrevistas sobre como, durante os anos mais loucos da fama, desenvolveu hábitos pouco saudáveis — exageros com bebida, comida e uma rotina caótica de festas que se estendiam até o amanhecer. A música, embora não seja uma autobiografia literal, carrega essa textura de quem conhece de perto o ciclo de fazer algo que se sabe que faz mal, mas que num primeiro momento parece bom demais para resistir.
E aqui vai um gancho que talvez surpreenda o público brasileiro: Ed Sheeran tem uma relação genuína e calorosa com o Brasil. Em suas passagens por aqui, ele se mostrou encantado com a energia do público, que canta cada palavra em uníssono mesmo em inglês. Há registros de shows lotados em São Paulo e no Rock in Rio onde a plateia transformou suas baladas íntimas em coros estádio afora. Para muitos fãs brasileiros de pop e rock internacional, Sheeran ocupa aquele lugar raro de artista que mistura sensibilidade de compositor com a escala de um fenômeno global — e "Bad Habits" foi a faixa que provou que ele também sabia fazer todo mundo dançar.
Decifrando o que a letra realmente diz
À primeira vista, dá para confundir "Bad Habits" com mais uma música de balada noturna sobre sair para a night. Mas o coração da letra é bem mais escuro e psicológico do que parece. O narrador descreve uma dinâmica viciante: aquelas coisas que ele faz tarde da noite, quando o sol já se foi, sempre acabam levando ele para o mesmo lugar de arrependimento. Ele reconhece o padrão. Sabe exatamente como a história termina. E mesmo assim volta a repeti-la.
O genial da composição está em como ela captura a ambivalência do vício de qualquer tipo. Não importa se a interpretação é sobre álcool, drogas, uma relação tóxica, sexo, ou qualquer comportamento compulsivo — a estrutura emocional é universal. O narrador admite que esses maus hábitos o fazem se sentir bem no calor do momento, que existe um prazer real, uma fuga, uma euforia. O problema é que essa sensação é sempre seguida pela queda, pela manhã seguinte, pela percepção de que ele cedeu de novo a algo que sabia que o estava corroendo.
Sheeran não julga o personagem de cima, com moralismo. Ele canta de dentro da experiência, com a voz de alguém que entende a sedução do ciclo. A noite aparece como uma cúmplice: é quando o sol se põe que os impulsos ganham força e a razão perde a batalha. Há uma honestidade desarmante nessa abordagem — em vez de pregar sobre os perigos do vício, a música simplesmente mostra o quão sedutor ele é, e por que é tão difícil escapar. É essa recusa em dar lições fáceis que torna a faixa adulta e verdadeira, escondida sob a embalagem de hino de festa.
O figurino de vampiro do clipe, dirigido por Dave Meyers, amarra tudo isso de forma brilhante. O vampiro é a metáfora perfeita: uma criatura da noite, presa a um apetite que nunca se sacia, condenada a repetir o mesmo ciclo eternamente, incapaz de ver a própria luz do dia. Sheeran, como esse vampiro neon perambulando por uma cidade vazia de madrugada, vira a personificação visual do tema. O glamour e o horror coexistem — exatamente como nos maus hábitos da vida real.
Contexto cultural e o legado da faixa
"Bad Habits" chegou num momento curioso da cultura pop. O mundo ainda saía aos poucos da fase mais pesada da pandemia, e havia uma fome coletiva por música que fizesse o corpo se mexer de novo, por pistas de dança que tinham ficado fechadas por tempo demais. A faixa surfou nessa onda de revival do dance-pop e da estética disco que dominou os charts naquele período, lado a lado com nomes como Dua Lipa e The Weeknd, que também flertavam com batidas retrô-futuristas.
Comercialmente, foi um colosso. A música passou semanas no topo das paradas britânicas, tornando-se um dos singles de maior sucesso da carreira de Sheeran no Reino Unido, e se espalhou pelo mundo inteiro, dominando o Spotify e plataformas de streaming. Mas talvez o impacto mais interessante tenha sido o reposicionamento artístico que ela representou. Provou que Sheeran não estava preso à imagem do cantor de violão romântico — ele podia ser pop arena, podia ser noturno, podia ser teatral.
A faixa também ganhou uma vida própria nas redes sociais. O groove e a estética vampiresca renderam incontáveis vídeos, danças e remixes. Houve até uma versão lançada em parceria com a banda de metal alemã Bring Me the Horizon, mostrando o quanto a estrutura da música era maleável e aberta a leituras radicalmente diferentes — do pop limpinho ao peso do metal. Essa versatilidade reforçou que, por baixo da produção dance, "Bad Habits" tem uma espinha melódica e emocional sólida o bastante para sobreviver a qualquer roupagem.
Por que ela ainda ressoa hoje
Anos depois do lançamento, "Bad Habits" continua tocando em rádios, festas e fones de ouvido pelo mundo — e a razão vai além do refrão chiclete. A música acerta numa verdade humana atemporal: todos nós temos nossos próprios maus hábitos. Pode ser a rolagem infinita no celular de madrugada, a procrastinação, os relacionamentos que sabemos que não fazem bem, os exageros de fim de semana, qualquer coisa que prometemos parar de fazer e voltamos a repetir. Sheeran deu trilha sonora a essa fraqueza universal, e fez isso sem nos fazer sentir culpados — apenas reconhecidos.
Há também algo profundamente catártico em dançar uma música sobre autodestruição. É como se a faixa nos desse permissão para celebrar nossas imperfeições por três minutos e meio, transformando a vergonha em euforia coletiva. Num mundo cada vez mais obcecado por produtividade, autocuidado e otimização pessoal, há um alívio honesto em uma música que simplesmente admite: às vezes a gente faz o que faz mal porque, naquele instante, é exatamente o que o corpo quer.
Para o ouvinte brasileiro que ama rock e pop internacional, "Bad Habits" representa aquele tipo raro de pop que é ao mesmo tempo descartável o suficiente para a balada e profundo o suficiente para uma escuta atenta de fones de ouvido. É a prova de que Ed Sheeran, longe de ser apenas o cantor de casamento que muitos imaginavam, é um compositor camaleônico capaz de embrulhar verdades incômodas em pacotes irresistíveis. E essa, talvez, seja a maior das suas virtudes.
Como mergulhar mais fundo
🎧 Mergulhe no som
- Ed Sheeran Equals album — O álbum "=" inteiro mostra o Sheeran mais maduro e variado, do dance-pop de "Bad Habits" às baladas sobre paternidade e perda. Ouvir a faixa no contexto do disco revela o quanto ela é uma ponte entre o velho e o novo Ed.
- Ed Sheeran vinyl record — A produção noturna e cheia de camadas de Fred again.. ganha uma textura especial no vinil. Vale sentir o groove pulsando num bom toca-discos numa madrugada qualquer.
- Fred Again music — Conhecer o trabalho do produtor por trás da faixa ajuda a entender de onde vem aquela batida hipnótica. Fred again.. virou um dos nomes mais importantes da eletrônica contemporânea.
📚 Acompanhe a história
- Ed Sheeran biography book — A trajetória de Sheeran, do garoto ruivo que tocava em pubs ingleses ao fenômeno de estádios, dá contexto para a reinvenção radical que "Bad Habits" representou. Uma leitura reveladora sobre disciplina e reinvenção.
- music songwriting craft book — Para quem quer entender como uma música consegue esconder um tema sombrio sob um refrão eufórico, livros sobre composição revelam os truques estruturais por trás dessa mágica. Sheeran é um estudo de caso clássico.
- pop music history book — Entender o revival do dance-pop dos anos 2020 ajuda a situar "Bad Habits" no panorama maior. A faixa conversa diretamente com toda uma onda de estética retrô-futurista.
🌍 Visite os lugares
- London travel guide — Sheeran é profundamente inglês, e a Londres noturna e melancólica do clipe ecoa as cidades onde ele construiu sua carreira. Um guia da capital britânica ajuda a sentir o clima de onde tudo nasceu.
- England countryside travel guide — Suffolk, a região rural onde Sheeran cresceu e mora, é parte essencial da sua identidade. Conhecer a Inglaterra fora das grandes cidades revela o contraste com a vida de astro global.
- Rock in Rio guide Brazil — Os shows de Sheeran no Brasil entraram para a memória dos fãs. Explorar o universo dos grandes festivais brasileiros mostra por que o público daqui canta cada palavra dele com tanta paixão.
🎸 Viva você mesmo
- acoustic guitar beginner — Sheeran é, no fundo, um homem e seu violão. Aprender o instrumento que sustenta toda a sua obra é a forma mais direta de entrar no mundo dele, mesmo nas faixas mais dançantes.
- guitar loop pedal — O famoso loop pedal é a arma secreta de Sheeran nos shows, transformando um cara sozinho no palco numa banda inteira. Experimentar a ferramenta revela o quanto há de engenhosidade por trás da simplicidade.
- home karaoke microphone — Poucas músicas pedem tanto para serem cantadas no volume máximo quanto "Bad Habits". Um bom microfone de karaokê transforma a sala de casa na pista de dança da madrugada.
🤖 Pergunte mais:
- Por que Ed Sheeran decidiu se vestir de vampiro no clipe de "Bad Habits"?
- Como a parceria com o produtor Fred again.. mudou o som de Ed Sheeran?
- Quais outras músicas pop escondem temas sombrios sob batidas dançantes como "Bad Habits"?