SONGFABLE · 2022

Out of Time

THE WEEKND · 2022

TL;DR: Aquela base macia e nostálgica não é uma imitação de anos 1980 americanos: é um sample quase intacto de "Midnight Pretenders", da japonesa Tomoko Aran, gravado em 1983. E a canção não fala de um término comum — dentro do conceito do álbum, é a voz de alguém que já morreu tentando se desculpar, sem saber que o tempo acabou.
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A coisa mais estranha sobre essa música é que ela já existia

Coloque "Out of Time" em fones decentes e preste atenção nos primeiros dez segundos. Aquele teclado elétrico limpo, o baixo que anda com passo de quem não tem pressa, a bateria seca com reverb curto, a atmosfera de motel iluminado por néon às três da manhã — nada daquilo foi criado em 2022. É uma gravação japonesa de 1983 chamada "Midnight Pretenders", da cantora e compositora Tomoko Aran, licenciada e usada quase como veio ao mundo.

Isso já seria curioso. O que torna a escolha genial é o que ela faz com o significado da faixa. "Midnight Pretenders" é uma canção sobre um caso que só existe de madrugada, sobre pessoas fingindo algo que não são enquanto a cidade dorme. The Weeknd pegou esse tecido sonoro — bonito, elegante, ligeiramente melancólico — e colocou dentro dele um homem pedindo desculpas tarde demais. O resultado é uma faixa que soa como conforto e diz o oposto de conforto. Você balança a cabeça sorrindo e, quando percebe a letra, o sorriso não sai mais do rosto direito.

E existe uma camada ainda mais cruel, que só aparece quando se ouve o álbum inteiro. Dawn FM, o disco de 2022 em que a música está, se passa dentro de um purgatório. Não é metáfora vaga: o conceito é literal. Você está preso num túnel, ouvindo uma estação de rádio, e essa estação toca música para almas em trânsito rumo à luz do fim. Ou seja, quando o narrador de "Out of Time" diz que talvez ainda dê tempo de consertar as coisas, ele está errado de uma forma que ele mesmo ainda não entendeu. O título não é dramático. É um diagnóstico.

2022: um artista no auge fingindo estar em paz — e uma ponte com o Japão que passa pelo Brasil

Para entender o clima de Dawn FM, é preciso lembrar do que tinha acontecido nos dois anos anteriores. After Hours (2020) transformou Abel Tesfaye no artista mais onipresente do planeta, com "Blinding Lights" virando uma das faixas mais tocadas da história do streaming. Veio o show do intervalo do Super Bowl em fevereiro de 2021 — aquele com o labirinto de espelhos e os dançarinos de rosto enfaixado — e, no meio disso, a controvérsia do Grammy, quando o álbum não recebeu nenhuma indicação e o artista anunciou publicamente que boicotaria a premiação. Ele estava no topo comercial e furioso com a instituição ao mesmo tempo.

Dawn FM chegou em janeiro de 2022 com pouquíssimo aviso prévio, quase como um gesto de recusa ao próprio circo promocional. Na capa, Abel aparece envelhecido com próteses: cabelo grisalho, pele marcada, olhar cansado. Ele tinha trinta e poucos anos. A produção reuniu nomes que não costumam dividir a mesma sala: Max Martin e Oscar Holter, arquitetos do pop escandinavo mais eficiente do mundo, ao lado de Oneohtrix Point Never (Daniel Lopatin), músico experimental que trabalha com texturas eletrônicas desconfortáveis. Essa mistura explica por que o disco consegue ser radiofônico e sinistro simultaneamente.

Aqui entra a parte que interessa especialmente a quem escuta música no Brasil. O sample de Tomoko Aran vem do chamado city pop japonês, um gênero que floresceu entre o fim dos anos 1970 e meados dos 1980, no auge da bolha econômica do Japão — música urbana, sofisticada, feita para quem dirigia à noite por rodovias iluminadas. E o city pop tem uma dívida enorme, reconhecida por seus próprios criadores, com a música brasileira. Bossa nova, samba-jazz e a harmonia de Tom Jobim e João Gilberto foram matéria-prima direta para arranjadores japoneses daquela geração. Aqueles acordes de sétima e nona que dão ao city pop seu ar de sofisticação relaxada não caíram do céu: atravessaram o Pacífico vindos do Rio de Janeiro, muitas vezes via jazz americano, mas com a assinatura brasileira audível.

Ou seja, quando um canadense de origem etíope faz sucesso mundial em 2022 usando uma gravação japonesa de 1983, existe um DNA brasileiro escondido a duas ou três gerações de distância dentro daquela batida. Não é exagero romântico — é história de circulação musical.

E há mais. O Brasil abriga a maior comunidade de origem japonesa fora do Japão, concentrada sobretudo em São Paulo, e o city pop encontrou por aqui um público entusiasmado bem antes de o resto do Ocidente descobrir o gênero pelos algoritmos do YouTube. Discos de Tatsuro Yamashita, Mariya Takeuchi, Anri e da própria Tomoko Aran circulam em lojas e feiras de vinil brasileiras com preços que assustam. Para muita gente daqui, ouvir "Out of Time" pela primeira vez não foi descoberta: foi reconhecimento imediato, aquele momento de "espera aí, eu conheço isso".

O próprio Abel já demonstrou afeto pelo público brasileiro em mais de uma passagem pelo país, e sua volta ao Brasil para grandes festivais nos anos seguintes ao lançamento do álbum foi tratada como acontecimento. Mas a conexão mais funda não está no palco — está na harmonia. Um país que inventou a palavra saudade estava, digamos, tecnicamente preparado para uma canção sobre chegar atrasado ao próprio arrependimento.

O que a letra realmente está dizendo

A situação narrada é simples e devastadora na sua banalidade. Um homem descobre que a mulher que ele tratou mal seguiu em frente. Ela está com outra pessoa, aparentemente bem, aparentemente feliz. E ele — que durante o relacionamento foi ausente, infiel, evasivo, tudo aquilo que o personagem clássico do The Weeknd sempre foi — resolve exatamente agora dizer o que sente.

O que ele oferece não é uma promessa de mudança. É uma confissão. Ele admite que a perdeu por culpa própria, que sabia o que estava fazendo enquanto fazia, que a viu tentar salvá-lo e não deixou. E, ainda assim, com uma teimosia quase infantil, sugere que talvez ela devesse deixar a nova vida de lado e voltar. É o pedido de alguém que não aprendeu nada, apenas ficou sozinho o suficiente para sentir falta.

O detalhe mais fino da escrita é o jogo entre o que ele diz e o que ele evita dizer. Ele fala em ligar, em aparecer, em ainda haver tempo — mas o refrão insiste na palavra que desmente tudo isso. Cada vez que a melodia sobe num gesto de esperança, o título puxa a frase de volta para o chão. A canção discute consigo mesma do começo ao fim.

Colocada no contexto do álbum, a leitura muda de escala. Se o narrador está morto, ou entre a vida e o que quer que venha depois, então esse arrependimento não tem para onde ir. Não existe telefonema possível. Não existe reconciliação. O que sobra é a revisão obsessiva do próprio comportamento — aquela reprise mental que a gente faz de madrugada, listando tudo o que poderia ter feito diferente com alguém que já não está mais ao alcance. A produção reforça a ideia: a base é serena, quase acolhedora, do jeito que memórias costumam ser. Lembranças raramente têm trilha sonora agressiva. Elas soam macias, e é por isso que doem.

Vale reparar também na relação dessa faixa com o resto da carreira dele. Durante uma década, o personagem construído por Abel foi o do hedonista impassível, o sujeito que descrevia excessos sem pedir desculpas por nenhum deles. "Out of Time" é o mesmo personagem, mas com a conta chegando. A frieza continua ali — ele não chora, não implora com dignidade destruída, mantém o tom controlado. E é justamente esse controle que torna a coisa mais triste: ele está pedindo perdão do mesmo jeito distante com que magoou.

Jim Carrey, o rádio do além e o que a canção virou

O momento mais comentado da faixa não é cantado. Nos últimos quarenta segundos, a música se dissolve e entra uma voz falada, calma, de locutor de rádio noturno. É Jim Carrey. Sim, aquele Jim Carrey, e não como piada: ele interpreta o DJ da estação fictícia que dá nome ao álbum, o guia que conduz as almas ao longo do túnel. Em tom de sedativo, ele acolhe o ouvinte, sugere que se deixe levar, que não resista à travessia.

A escalação faz mais sentido do que parece à primeira vista. Carrey é vizinho e amigo de Abel em Los Angeles, segundo relatos da época, e passou a última década falando publicamente sobre espiritualidade, ego, dissolução da identidade e sua própria relação complicada com a fama. Colocar aquela voz — que uma geração inteira associa a comédia física — num papel de mestre de cerimônias da morte é um golpe de casting brilhante. Cria um desconforto que nenhum ator dramático produziria.

O clipe, lançado meses depois, ampliou o mito. Dirigido pelo coletivo Cliqua, traz Abel numa festa de aparência luxuosa que vai revelando sua natureza sinistra, ao lado da atriz sul-coreana HoYeon Jung, que tinha acabado de se tornar fenômeno global com Round 6. Jim Carrey também aparece. O vídeo terminou de amarrar a estética do álbum: brilho retrô por fora, terror existencial por dentro.

Comercialmente, a faixa se tornou uma das mais duradouras do disco, com desempenho consistente em rádios e plataformas mesmo sem ter sido o carro-chefe inicial. Mas o efeito colateral mais bonito aconteceu do outro lado do mundo: "Midnight Pretenders", de Tomoko Aran, ganhou uma segunda vida. Uma cantora que gravava discos no Japão dos anos 1980, e cuja obra circulava principalmente entre colecionadores, viu suas reproduções explodirem e seus vinis se tornarem objeto de caça. Relatos da época dão conta de que ela recebeu a homenagem com surpresa e simpatia. Poucos samples de mega-hits produziram um resgate tão justo.

Isso também acelerou algo que já vinha acontecendo: o city pop deixou de ser curiosidade de nicho e virou vocabulário pop mainstream. Depois de "Out of Time", ficou difícil ouvir aqueles teclados brilhantes sem reconhecê-los como um gênero com nome, história e catálogo — e não apenas como "aquele som antigo bonitinho".

Por que continua ressoando

Existe uma razão simples e uma razão complicada para essa canção não envelhecer.

A simples é que quase todo mundo já foi as duas pessoas da história. Já foi quem mandou a mensagem que não devia ter mandado, meses depois do fim, movido por uma saudade que não era exatamente amor, e já foi quem recebeu essa mensagem quando finalmente tinha conseguido seguir a vida. A música não escolhe lado. Ela apenas descreve, com precisão incômoda, o funcionamento do arrependimento tardio — que quase nunca chega no momento em que seria útil.

A complicada tem a ver com o conceito do álbum e com o tempo em que vivemos. Dawn FM foi feito e lançado num período em que o mundo inteiro tinha acabado de passar por uma experiência coletiva de mortalidade, isolamento e revisão de prioridades. A ideia de uma sala de espera entre o que foi e o que vem depois, com uma voz amiga no rádio dizendo para relaxar, tocou num nervo muito específico daquele momento. E continua tocando, porque a pergunta central — o que você faria se descobrisse que a chance de consertar já passou? — não tem prazo de validade.

Tem ainda o fator estético, que não é detalhe. Numa era em que boa parte do pop é otimizada para os primeiros quinze segundos de um vídeo curto, "Out of Time" aposta em algo antiquado: paciência. Ela deixa o groove respirar, permite que a voz flutue, e guarda o soco emocional para o final, num monólogo falado que ninguém pode dançar. É uma canção construída para ser ouvida inteira, e isso, hoje, é quase um ato de teimosia.

Talvez seja por isso que ela funcione tão bem como música de dirigir tarde da noite, de metrô voltando para casa, de fone no ônibus lotado depois de um dia longo. Ela oferece exatamente o que o city pop original oferecia em 1983 — beleza urbana, luz artificial, movimento — e coloca dentro disso a pergunta que a gente costuma adiar. É bonita o suficiente para você deixar tocar de novo, e triste o suficiente para você não conseguir dormir depois.


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