SONGFABLE · 2022

Gasoline

THE WEEKND · 2022

TL;DR: Sob uma batida de synth-pop sombrio e uma voz grave que quase não parece dele, "Gasoline" é o retrato de um homem viciado na própria autodestruição pedindo que a pessoa que o ama não tente salvá-lo — e imaginando o próprio funeral como se fosse alívio.
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A voz não é dele (ou é a mais verdadeira de todas)

A primeira coisa que quase todo mundo estranha em "Gasoline" é o timbre. Quem aperta o play esperando o falsete aveludado de The Weeknd, aquele agudo sedoso que virou marca registrada em "Blinding Lights" e "Can't Feel My Face", leva um susto: o cantor aparece num barítono grave, arrastado, com uma dicção quase britânica, mais próxima de um vocalista de pós-punk dos anos 80 do que do R&B canadense que o consagrou. Muita gente comparou o resultado a Billy Idol, a Depeche Mode, a toda uma linhagem de cantores de casaco preto e sintetizador gelado.

Não é um truque de estúdio à toa. Abel Tesfaye, o homem por trás do nome artístico, construiu a carreira inteira em cima de personagens: o fantasma anônimo da internet nas primeiras mixtapes, o astro decadente de terno vermelho de After Hours, e agora, neste disco, um homem envelhecido a caminho de algum tipo de fim. Trocar a própria voz é a maneira mais radical de dizer "quem canta aqui não sou exatamente eu, é o sujeito em que eu me transformei quando o sol nasce e a festa não acabou".

E o que esse sujeito diz é brutal. "Gasoline" não é uma música sobre paixão, ciúme ou balada. É sobre alguém que sabe que está se destruindo, que aceita isso com uma calma assustadora, e que dirige suas palavras a uma pessoa que o ama e assiste a tudo de camarote, impotente. A grande virada da faixa é essa: em vez de pedir socorro, o narrador pede permissão para continuar afundando — e já dá instruções sobre o que fazer com o corpo depois.

Um rádio no purgatório: como nasceu Dawn FM

"Gasoline" é a segunda faixa de Dawn FM, lançado em janeiro de 2022, e não dá para entender a música sem entender o disco. O conceito é uma das ideias mais estranhas e mais bonitas do pop recente: o álbum inteiro se passa dentro de uma estação de rádio fictícia, a tal Dawn FM, que toca para as almas presas num engarrafamento eterno dentro de um túnel. A luz no fim do túnel é a morte. O locutor que guia o ouvinte, com aquela voz macia de rádio noturno americano, é ninguém menos que o ator Jim Carrey, vizinho e amigo de Abel, que aceitou emprestar a voz para narrar essa espécie de purgatório sonoro.

Na capa e nas fotos de divulgação, The Weeknd aparece envelhecido por próteses: cabelo branco, pele marcada, um homem que atravessou a noite inteira e chegou do outro lado. Depois da era anterior, em que ele apareceu com o rosto cada vez mais machucado e finalmente refeito por cirurgia grotesca, essa maquiagem de velhice funcionava como capítulo seguinte da mesma história. Do excesso à consequência. Da festa à conta.

Musicalmente, o disco mergulhou de cabeça nos anos 80, mas num veio diferente do que ele havia explorado antes. Se After Hours flertava com o pop cintilante de estádio, Dawn FM puxa para o synth-wave frio, o new wave, o electro-funk. A direção artística contou com Daniel Lopatin, o músico experimental conhecido como Oneohtrix Point Never, que trouxe texturas mais estranhas e cerebrais, e com a dupla sueca Max Martin e Oscar Holter, responsáveis por parte da precisão melódica que faz esses refrões grudarem mesmo quando o assunto é morte.

Para o ouvinte brasileiro, esse encontro tem um sabor particular. O Brasil viveu, nos anos 80, uma era em que sintetizadores gelados e letras existenciais conviveram numa mesma faixa de rádio: era a época em que o rock nacional embalava angústias adolescentes com teclados e baixos secos, e em que bandas inteiras se vestiam de preto para falar de solidão em plena praia ensolarada. Existe aqui uma familiaridade antiga com essa combinação de melancolia e dança, de letra pesada e refrão que se canta em grupo. "Gasoline" cai nesse terreno como se sempre tivesse pertencido a ele.

Vale lembrar também que The Weeknd tem no Brasil uma das bases de fãs mais barulhentas do planeta. Quando a turnê After Hours til Dawn finalmente desembarcou por aqui, em 2023, os estádios de São Paulo e do Rio de Janeiro viraram um coral. E, curiosamente, quem cresceu ouvindo rádio no país tem uma memória concorrente e completamente oposta associada à palavra do título: o hit de reggaeton que dominou as pistas duas décadas antes. A coincidência é só isso, coincidência — mas ajuda a medir a distância entre uma gasolina que é combustível de festa e outra que é combustível de pira funerária.

O que a canção realmente está dizendo

Vamos desmontar a narrativa sem citar uma linha sequer da letra.

A cena começa de madrugada, naquela hora morta em que a noite já passou do ponto e a manhã ainda não chegou. O narrador está acordado outra vez, no mesmo horário de sempre, e essa repetição já diz muito: é rotina, não acidente. Ele reconhece que está intoxicado, fora de si, e que isso não é novidade para ninguém que convive com ele.

Então ele se dirige a alguém. Uma pessoa que o ama, que continua ali, e que é obrigada a assistir ao espetáculo do desmoronamento sem poder interferir. O narrador não pede ajuda. Ele pede que essa pessoa não perca tempo tentando consertá-lo, porque ele não quer ser consertado. Sugere, com uma frieza quase gentil, que ela o deixe apagar e o acorde só quando o pior tiver passado. É a lógica do vício em estado puro: a negociação de quem já desistiu de si mesmo mas ainda quer companhia.

A imagem que dá nome à faixa aparece como um pedido póstumo. Ele imagina o próprio corpo depois do fim, encharcado de combustível e incendiado, e pede que as cinzas sejam guardadas por essa pessoa. Não é uma ameaça, não é um grito. É uma instrução prática, dita com a serenidade de quem já resolveu a questão internamente. Há algo de romântico e de doentio ao mesmo tempo nesse gesto: ele oferece a ela a única forma de posse permanente que consegue conceber, já que em vida ele é incapaz de ser possuído por alguém.

E há uma constatação ainda mais cortante no meio disso tudo: a percepção de que ele talvez seja mais amado morto do que vivo. Que a figura idealizada, o mito, o rapaz eternizado, é mais fácil de amar do que o sujeito real, imprevisível e destrutivo que aparece de madrugada. Qualquer pessoa que já tenha convivido com fama, ou simplesmente com alguém que se coloca em risco de forma crônica, reconhece essa verdade desconfortável.

Por baixo de tudo circula o velho tema do artista: a suspeita de que a dor é o combustível da obra. Se ele parar de queimar, será que ainda faz música que preste? Essa é a armadilha mais antiga e mais perigosa do ofício, e "Gasoline" a coloca na mesa sem oferecer solução.

Um clássico de culto dentro de um álbum-conceito

"Gasoline" nunca foi single de rádio no sentido tradicional, e mesmo assim virou uma das faixas mais amadas do repertório recente do artista. Entre fãs, ela costuma aparecer nas listas de melhores momentos de Dawn FM justamente por ser a mais ousada: é a faixa em que ele arrisca uma persona vocal inteiramente nova e sai ileso.

O disco em si teve um destino curioso. Chegou em janeiro de 2022, um mês normalmente morto no calendário da indústria, com pouquíssimo aviso prévio, e ainda assim gerou uma onda de análises, teorias e vídeos-ensaio. A ideia de um álbum como estação de rádio para almas em trânsito deu ao público algo raro no streaming: um motivo para ouvir na ordem, do começo ao fim, como se fosse um programa. Num ecossistema desenhado para o embaralhamento aleatório e para trechos de quinze segundos em aplicativos, isso foi quase um ato de rebeldia.

A faixa também consolidou uma virada estética que já vinha se desenhando. Depois de After Hours, o pop internacional se encheu de sintetizadores oitentistas, e The Weeknd, que ajudou a abrir essa porta, escolheu não repetir a fórmula fácil. Em vez do brilho solar, ele foi buscar o lado gelado e europeu daquela década: o pós-punk, o darkwave, o eletro-pop de casacos compridos. É uma escolha de artista que prefere ser estranho a ser previsível.

Há ainda o contexto pessoal e político. Naquela altura, ele já havia rompido publicamente com o Grammy depois de After Hours ser ignorado nas indicações, um episódio que virou marco no debate sobre premiações e sucesso popular. Dawn FM chegou como um trabalho que não parecia querer agradar júri nenhum, e "Gasoline" é a prova mais evidente disso: uma música sobre vício, morte e cremação cantada com sotaque emprestado, colocada no início do disco como se fosse um aviso.

Por que ela continua queimando

Alguns anos depois, "Gasoline" ganhou uma segunda vida em fones de ouvido de gente que nem sempre sabe explicar por que volta a ela. Parte do fascínio é sonoro: aquele baixo pulsante e aqueles teclados metálicos criam uma sensação física de estrada noturna, de janela aberta, de cidade passando rápido demais.

Mas a permanência vem da honestidade do assunto. Existe uma quantidade enorme de música pop sobre o começo do amor e relativamente pouca sobre o que acontece quando amar alguém significa assistir a essa pessoa se machucar sem poder impedir. "Gasoline" fala exatamente desse lugar, e fala dos dois lados: de quem se destrói e de quem observa. Quem já teve um amigo, um irmão, um parceiro num ciclo de excessos entende de imediato a impotência descrita ali.

Há também a leitura sobre saúde mental, que a canção trata sem discurso e sem moral da história. Ela não condena o narrador nem o glamouriza. Apenas mostra o pensamento dele por dentro, incluindo a parte que a maioria das músicas evita: a atração pela ideia de sumir. Falar disso em voz alta, num refrão dançante, foi por muito tempo tabu no mainstream. Aqui está, sem eufemismo, tocado como se fosse rádio de madrugada.

E existe, por fim, a leitura mais ampla, quase geracional. Vivemos numa cultura que celebra a queima constante: produtividade sem descanso, vida noturna documentada, personagens públicos que só interessam enquanto estão em chamas. A metáfora do combustível vale para o artista e vale para todos nós, que aprendemos a chamar de energia aquilo que muitas vezes é desgaste. Quando o coro chega e a batida sobe, dançamos junto — e é justamente aí que a canção mais nos pega, porque nos flagra fazendo exatamente o que ela descreve.

Para o fã brasileiro de rock e pop internacional, "Gasoline" oferece um prazer duplo: o reconhecimento imediato daquela paleta oitentista que sempre teve casa aqui, e a surpresa de encontrar um dos maiores nomes do pop atual disposto a abrir mão da própria voz para contar uma verdade difícil. É música para ouvir de madrugada, com o volume um pouco mais alto do que deveria, sabendo que o sol vai nascer de qualquer jeito.


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