SONGFABLE · 1997

On & On

ERYKAH BADU · 1997

TL;DR: Sob a aparência de uma canção de amor macia e enfumaçada, "On & On" é na verdade um manifesto espiritual codificado: um sermão sobre ciclos cósmicos, numerologia afro-americana e a exaustão de uma mulher que já entendeu o jogo e resolveu contá-lo cantando baixinho.
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O disfarce perfeito

A canção soa como um carinho. Bateria arrastada em levada de shuffle, um Rhodes que parece derreter, um baixo que anda com preguiça deliciosa e uma voz que sai pela lateral do compasso, sempre um átimo atrasada, como quem não tem pressa de chegar. Em 1997, isso bastava para tocar em qualquer rádio de música negra do mundo e para virar trilha de sábado à tarde em milhões de casas, do Texas ao Rio de Janeiro.

O detalhe que quase ninguém percebeu na época é que a letra não fala de romance. Fala de cosmologia.

A primeira frase da música apresenta um nascimento debaixo d'água, acompanhado de uma quantia miúda em dólares e moedas de dez centavos. Parece surrealismo poético, e é. Mas a leitura mais aceita entre fãs e críticos é que aqueles números não são decorativos: somados do jeito certo, eles apontam para os 360 graus do círculo completo, uma imagem central na cosmologia da Nação dos Cinco Por Cento, ramificação da Nação do Islã que moldou boa parte do vocabulário do hip-hop nova-iorquino dos anos 1980 e 1990. Erykah Badu abriu seu primeiro single de carreira com uma equação espiritual disfarçada de verso de amor, e a maior parte do planeta cantou junto sem fazer ideia.

Esse é o truque de mágica de "On & On". A música é doce por fora e densa por dentro. Ela convida você a balançar a cabeça e, se prestar atenção, te entrega uma aula.

Antes do turbante: quem era Erica Wright

Ela nasceu Erica Abi Wright, em Dallas, Texas, em 1971. Cresceu no sul da cidade, região historicamente negra e historicamente negligenciada pelo dinheiro público, e foi estudar na Booker T. Washington High School for the Performing and Visual Arts, a escola de artes que já formou gente demais para uma cidade só. Depois foi para a Grambling State University, na Louisiana, estudar teatro, e largou o curso no começo dos anos 1990 para se dedicar à música em tempo integral.

Os anos seguintes foram os anos de sobrevivência que quase todo artista tem e quase nenhum gosta de detalhar: trabalhos de bico, aulas de dança e teatro para crianças em centros culturais de Dallas, shows em qualquer lugar que tivesse microfone. Foi nesse período que ela mudou o próprio nome. "Erykah" veio de uma reformulação da grafia com carga simbólica, ligada à ideia de "kah" como o eu interior no vocabulário kemético que circulava nos meios de consciência negra da época. "Badu" era, segundo ela mesma contou em entrevistas ao longo dos anos, uma sílaba que ela usava no scat, no improviso vocal jazzístico, e que também existe como nome de família na África Ocidental. O nome artístico, portanto, já era uma declaração: uma parte espírito, uma parte jazz.

Com o primo Robert "Free" Bradford, gravou uma fita demo caseira. O material chegou a Kedar Massenburg, executivo que estava montando sua própria gravadora, e a coisa engrenou depois que ela abriu um show para D'Angelo no Texas e deixou a plateia quieta. Massenburg a contratou. Uma primeira aparição em dueto com D'Angelo numa trilha de filme, em 1996, funcionou como aperitivo. Em fevereiro de 1997 saiu Baduizm, o álbum de estreia, com "On & On" como cartão de visita.

A canção é creditada a Erykah Badu e JaBorn Jamal. Boa parte do brilho técnico do disco passou pelas mãos de Bob Power, o engenheiro e produtor que já havia dado forma ao som do A Tribe Called Quest e de D'Angelo, e que sabia como fazer instrumentos acústicos e programação de bateria conviverem sem que um engolisse o outro. É por isso que Baduizm soa simultaneamente antigo e novíssimo: tem a poeira de um disco de jazz dos anos 1960 e a coluna vertebral rítmica do hip-hop.

Aqui vale uma nota que interessa a quem escuta rock e pop internacional. 1997 foi um ano barulhento: OK Computer do Radiohead, a explosão global do Spice Girls, "MMMBop" tocando em todo lugar, o Oasis ainda gigante, o Puff Daddy dominando as paradas americanas com samples de estádio. Dentro desse caos, uma mulher de Dallas com um turbante enorme, cantando sobre numerologia por cima de um shuffle de jazz, chegou ao topo das paradas de R&B americanas e ao décimo segundo lugar da Billboard Hot 100. O álbum estreou em segundo lugar na parada geral americana e passou dos três milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos. Não era uma vitória de nicho. Era uma vitória contra o clima da época.

O que a letra realmente diz

Descrita sem citar uma linha sequer, a canção funciona assim.

O eu que canta se apresenta como alguém de origem sobrenatural, marcada por números e por água. É um começo que joga a narradora fora do tempo comum: ela não nasceu num hospital, nasceu num símbolo. A partir daí, ela alterna entre três registros que se costuram sem aviso.

O primeiro é o cansaço. Há uma exaustão física e emocional muito concreta ali: alguém que se sustenta sozinha, que carrega peso demais, que reconhece a própria fome e a própria irritação e não faz cerimônia para dizer isso em voz alta. É uma das coisas mais radicais da música, e passa despercebida porque o arranjo é gentil demais para soar como reclamação.

O segundo é o desdém amoroso. Existe um interlocutor masculino na canção, e ele não sai bem. Ela o mede, o acha insuficiente, e comunica isso com uma elegância cortante, sem gritar, sem chorar, sem pedir explicação. Não é uma canção de coração partido. É uma canção de conta fechada.

O terceiro é o cosmos. E é o que amarra tudo. O refrão insiste que o mundo segue girando, e o segue girando não é resignação: é estrutura. Se tudo é ciclo, o homem insuficiente é episódio, o cansaço é fase, a dor é passagem. A narradora não está triste porque o mundo gira. Ela está de pé exatamente porque o mundo gira. É a diferença entre "tudo passa" dito como consolo mole e "tudo passa" dito como lei física por alguém que já conferiu a conta.

Junte as três camadas e você tem o motivo de a canção ter envelhecido tão bem. Ela é sobre autossuficiência antes de autossuficiência virar slogan de campanha publicitária. E é sobre espiritualidade sem igreja, sem dogma vendido, sem promessa de recompensa. O nome do álbum, Baduizm, era literalmente isso: a filosofia dela, batizada com o próprio sobrenome inventado.

Neo-soul, turbantes e o que o Brasil ouviu

O termo "neo-soul" costuma ser creditado a Kedar Massenburg, o mesmo executivo que a contratou, como rótulo de marketing para vender aquela nova geração que misturava soul dos anos 1970, jazz e hip-hop. Badu detestava a etiqueta, como quase todo artista detesta a etiqueta que o vende. Mas o rótulo pegou, e "On & On" virou a certidão de nascimento do gênero.

Em fevereiro de 1998 ela levou o Grammy de melhor performance vocal feminina de R&B por "On & On", e Baduizm levou o de melhor álbum de R&B. O clipe, dirigido por Paul Hunter, é uma citação visual explícita a A Cor Púrpura: cenário rural do sul dos Estados Unidos, tanque de roupa, luz de fim de tarde, e a própria Badu como uma mulher negra do campo cuja vida interior é infinitamente maior do que o mundo permite que ela demonstre. Havia também imagens de água, ecoando o verso de abertura. A comparação com Billie Holiday veio imediata e insistente, e ela passou anos empurrando essa comparação para longe, com razão: o timbre lembrava, o projeto não.

E o turbante virou ícone. Aquele volume enorme de tecido enrolado na cabeça funcionava como bandeira estética e espiritual ao mesmo tempo, e é aqui que a história encosta no Brasil de um jeito que não é forçado.

Quem cresceu vendo baiana de acarajé no Pelourinho, ou já entrou num terreiro, reconhece o gesto na hora. O pano amarrado na cabeça, o ojá, a torção do tecido, tudo isso pertence à mesma memória atlântica que atravessou o oceano e se dividiu entre Salvador, Havana, Nova Orleans e o sul dos Estados Unidos. Quando Badu apareceu na MTV em 1997 com aquele turbante, boa parte do público brasileiro não estava vendo uma novidade americana. Estava vendo algo familiar voltando com sotaque estrangeiro. Anos depois, o debate brasileiro sobre uso e apropriação do turbante mostraria como esse símbolo continua carregado por aqui, o que só reforça o ponto: não era acessório de moda, era declaração de linhagem.

Tem mais. A imagem de nascer debaixo d'água, para ouvido brasileiro, soa quase automaticamente como território de Iemanjá e de Oxum. Badu não estava cantando sobre orixás, estava operando com um vocabulário simbólico bem diferente. Mas o fato de duas tradições afro-diaspóricas separadas por cinco mil quilômetros usarem a água como porta de entrada para o mundo espiritual não é coincidência, é herança comum.

Musicalmente, o Brasil também estava pronto para ela. A cultura dos bailes black do Rio e de São Paulo, com décadas de acúmulo, já tinha formado um público que sabia distinguir levadas de soul melhor do que muita crítica especializada. Perto do fim dos anos 1990, uma nova geração brasileira estava reciclando soul e jazz com liberdade parecida, gente como Ed Motta, Max de Castro e Wilson Simoninha. E, mais adiante, quase toda a cena de R&B e soul brasileira contemporânea, de Luedji Luna a Xênia França, de Liniker a Tássia Reis, cresceu com Baduizm como referência declarada. Badu não é uma influência estrangeira distante na música brasileira. É praticamente parente próxima.

Por que continua girando

Quase trinta anos depois, "On & On" continua sendo tocada em playlists de "música para relaxar", o que é uma ironia adorável, porque a música não relaxa em momento nenhum. Ela apenas se recusa a levantar a voz.

Parte da longevidade está na produção. O disco foi feito para não datar: instrumentos reais, pouca camada, muito espaço vazio entre os sons. Enquanto quase tudo que estourou em 1997 hoje soa carimbado com a data de validade da tecnologia da época, Baduizm poderia ter sido gravado ontem por um coletivo de Londres ou de São Paulo. O silêncio no arranjo é o que o mantém jovem.

A outra parte é o conteúdo. A canção antecipou, com décadas de vantagem, um jeito de falar sobre esgotamento que hoje é conversa cotidiana. Uma mulher dizendo que está cansada, que se sustenta sozinha, que não vai fingir simpatia por alguém que não merece, e que encontra sossego não na resolução dos problemas mas na aceitação de que tudo é ciclo. Isso hoje seria uma thread inteira nas redes sociais. Em 1997 era um single de estreia com refrão de três palavras.

E há o gesto artístico maior, que continua ensinando: Badu não simplificou nada para entrar na rádio. Ela colocou numerologia esotérica, cansaço existencial e desprezo amoroso no mesmo pacote, embrulhou num groove irresistível e deixou o público decidir quanto queria escavar. Quem quisesse dançar, dançava. Quem quisesse ler nas entrelinhas, encontrava uma cosmologia inteira ali dentro.

O mundo, como a música insiste, segue girando. A canção também.


Como mergulhar mais fundo

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