SONGFABLE · 2020

Levitating

DUA LIPA · 2020

Listen elsewhere

We couldn't link a Spotify track for this story. Try searching the title on song.link to find it on your preferred service.

Levitating - Dua Lipa (2020)

TL;DR: "Levitating" foi a canção que transformou uma pandemia global em pista de dança imaginária. Lançada em março de 2020 como parte do álbum Future Nostalgia, ela ressuscitou o disco dos anos 1970 e o nu-disco dos anos 2000 num momento em que ninguém podia mais dançar junto — e, justamente por isso, virou trilha sonora de uma geração que aprendeu a flutuar dentro de casa. Para o leitor brasileiro, é uma chance de revisitar como a euforia coreografada do disco sempre foi, paradoxalmente, uma resposta política à melancolia coletiva.

O fascínio: por que essa música importa

Existe uma curiosa fenomenologia em torno de "Levitating". A canção foi lançada num momento histórico tão peculiar — o álbum Future Nostalgia chegou ao mundo no dia 27 de março de 2020, exatamente quando a Organização Mundial da Saúde declarava a pandemia global — que a sua euforia disco se tornou uma forma de resistência involuntária. Dua Lipa não planejou ser a santa padroeira do confinamento. Ela queria fazer um álbum sobre dança, glamour e fuga, num retorno consciente à estética dos anos 70 e 80. O destino, porém, transformou esse projeto pop em algo quase terapêutico: enquanto o mundo se fechava, milhões de pessoas dançavam sozinhas em suas cozinhas, ao som de uma britânica de origem albanesa cantando sobre flutuar pelo cosmos com um amante.

A canção, escrita por Dua Lipa em parceria com Clarence Coffee Jr., Sarah Hudson e Stephen Kozmeniuk, opera numa lógica de pastiche refinado. Há ali a batida disco quatro-no-chão herdada de Donna Summer e Chic, há o brilho funk de Prince, há o groove cósmico de Earth, Wind & Fire e, sobretudo, há aquela sensação de leveza coreografada que define o melhor do gênero. Mas a produção é decididamente contemporânea: os sintetizadores têm uma profundidade digital que não existia em 1979, e a voz de Dua Lipa, com sua dicção precisa e ligeiramente fria, traz a melancolia britânica de uma Sade ou de uma Annie Lennox para dentro da festa. É essa fricção entre euforia retrô e distanciamento moderno que faz "Levitating" funcionar.

Background: a engenharia da nostalgia futurista

Dua Lipa nasceu em Londres em 1995, filha de pais kosovares albaneses que haviam fugido da Iugoslávia. Sua família retornou a Pristina quando ela tinha onze anos, mas Dua voltou sozinha à Inglaterra aos quinze, hospedando-se com amigos para perseguir uma carreira musical. Essa trajetória — uma adolescente migrando sozinha entre Bálcãs e capital britânica — explica algo da independência feroz que marca sua persona artística. Seu primeiro álbum homônimo, de 2017, deu-lhe o hit "New Rules" e o status de promessa pop, mas foi Future Nostalgia que a transformou em superestrela.

O conceito do segundo álbum, segundo a própria artista declarou em diversas entrevistas, era criar um som que homenageasse o passado sem ser saudosista. Dua Lipa queria evocar a era em que o pop ainda tinha confiança em si mesmo — quando ABBA, Olivia Newton-John, Blondie e Donna Summer dominavam as rádios com canções que não pediam desculpas pela própria efervescência. A produção ficou a cargo de Ian Kirkpatrick, Stuart Price (lendário pelo trabalho com Madonna em Confessions on a Dance Floor) e Koz, entre outros. O resultado foi um álbum-tese: a tese de que o pop podia voltar a ser sofisticado, dançante e despudoradamente divertido.

"Levitating" ocupa posição central nesse projeto. A canção foi lançada como single oficial em outubro de 2020, mas já circulava entre fãs desde março. Uma versão remixada com DaBaby disparou nas paradas americanas em 2021 e tornou-se a faixa mais executada do ano nos Estados Unidos segundo a Billboard. O TikTok teve papel decisivo: a coreografia se espalhou pela plataforma como ritual coletivo de uma juventude isolada. A canção atravessou 2020, 2021 e 2022 sem perder relevância, algo raríssimo na economia descartável do streaming.

O significado real: o disco como filosofia da fuga

Ler "Levitating" apenas como canção romântica é subestimar sua densidade cultural. A letra opera num registro cósmico — fala de viagens estelares, de flutuação interplanetária, de uma conexão que transcende a gravidade. Sem citar versos diretamente, podemos dizer que o eu lírico convida o amante a abandonar a Terra junto, transformando o desejo em viagem espacial. É uma metáfora antiga (Frank Sinatra já cantava sobre voar até a lua em 1964) mas reciclada com a sintaxe contemporânea do romance digital, em que toda paixão parece exigir hipérbole astronômica.

O que torna o gesto interessante é o contexto histórico em que essa fuga foi proposta. Em 2020, quando o mundo estava literalmente encerrado dentro de paredes, cantar sobre flutuar pelo espaço era um ato de rebeldia imaginativa. O disco, gênero do qual "Levitating" deriva, sempre teve essa função: nasceu nos guetos negros e gays de Nova York nos anos 70 como espaço de fuga da hostilidade urbana, do racismo, da homofobia e da crise econômica. Studio 54, Paradise Garage, The Loft — eram catedrais seculares onde corpos marginalizados podiam, por algumas horas, flutuar. Dua Lipa, deliberadamente ou não, reativou essa função política do disco num momento em que o corpo coletivo precisava novamente flutuar.

Há também uma camada de reflexão sobre o próprio futuro do pop. O título do álbum, Future Nostalgia, condensa um paradoxo que define a sensibilidade dos anos 2020: a sensação de que o futuro já não nos pertence, de que só nos resta reciclar criativamente o passado. O teórico Mark Fisher chamou isso de "hauntologia" — a obsessão cultural com futuros perdidos. "Levitating" é hauntológica no melhor sentido: ela não copia o disco dos anos 70, ela o invoca como fantasma benigno, fazendo-o dançar de novo numa era que já não acredita em utopias coletivas.

Contexto cultural para o leitor brasileiro

Para quem cresceu no Brasil ouvindo Legião Urbana, Cazuza ou os experimentos da Tropicália, "Levitating" pode parecer apenas um pop importado de superfície brilhante. Mas há ressonâncias profundas que merecem ser exploradas.

A ideia de que a canção pop pode ser, simultaneamente, fuga e crítica não é estranha ao cancioneiro brasileiro. Os Mutantes, no final dos anos 60, construíram uma obra inteira nessa fricção: enquanto a ditadura militar fechava o cerco, Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias cantavam sobre panis et circenses e bat macumba com uma alegria deliberadamente excessiva, quase psicótica. A Tropicália, movimento liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968, fez do anacronismo arma estética: misturava bossa nova com rock psicodélico, samba com guitarra elétrica, sertão com Beatles. Essa lógica de devorar o estrangeiro e cuspir algo novo — a antropofagia oswaldiana — é, em certo sentido, o que Dua Lipa faz com o disco americano: ela o engole, digere e devolve como pop britânico cosmopolita.

Cazuza, por sua vez, oferece outra chave de leitura. Sua obra solo nos anos 80, especialmente em álbuns como Ideologia e O Tempo Não Para, transformou a euforia pop em comentário existencial. Cazuza dançava enquanto morria, cantava sobre o Brasil ostentando suas feridas com glamour. A energia de "Levitating" — essa euforia que sabe estar dançando à beira do abismo — tem algo do mesmo paradoxo. Não é coincidência que tanto Cazuza quanto Dua Lipa apostem na repetição rítmica, na frase de impacto, no refrão que parece simples mas carrega densidade.

Legião Urbana, embora mais sóbria, também flertou com essa lógica. Renato Russo construiu canções que pareciam hinos de fuga ("Eduardo e Mônica", "Faroeste Caboclo") mas eram, no fundo, retratos da claustrofobia geracional. A juventude brasileira dos anos 80 dançava à Legião enquanto processava o luto da redemocratização frustrada, assim como a juventude global dos anos 2020 dançou à Dua Lipa enquanto processava o luto do mundo pré-pandemia.

E há, claro, o Rock in Rio, ritual coletivo que desde 1985 funciona como espaço onde o Brasil se permite flutuar. Quando Dua Lipa se apresentou no Rock in Rio em setembro de 2022, no festival que retornava após a pandemia, o público brasileiro entendeu intuitivamente o que a canção pedia: não era simples consumo pop, era exorcismo coletivo. As imagens daquela noite — milhares de pessoas no Parque Olímpico, braços erguidos, cantando juntas sobre voar pelo cosmos — foram a tradução perfeita da função política do disco que Dua Lipa havia reativado.

Vale lembrar também que o Brasil tem uma tradição própria de música dançante cósmica. Tim Maia, em sua fase racional dos anos 70, propunha viagens espirituais embaladas por funk e soul. Marcos Valle, especialmente em Previsão do Tempo (1973), criou um Brasil sintético e onírico que dialoga diretamente com a estética de Future Nostalgia. Banda Black Rio e Azymuth construíram, no jazz-funk brasileiro, paisagens sonoras tão sofisticadas e cosmopolitas quanto qualquer coisa produzida em Londres ou Nova York. Reconhecer essa linhagem é importante porque coloca "Levitating" não como objeto exótico, mas como parte de uma conversa global da qual o Brasil sempre fez parte.

Por que ressoa hoje

Cinco anos após seu lançamento, "Levitating" continua relevante por razões que vão além da nostalgia recente. A canção articula algo essencial sobre a condição contemporânea: a necessidade de inventar formas de levitação num mundo onde a gravidade emocional, política e econômica parece cada vez mais pesada.

Existe uma melancolia subjacente à euforia da canção que só fica mais visível com o tempo. Os anos 2020 foram, até aqui, uma sequência de colapsos parciais — pandemia, guerras, crise climática, polarização política, colapso do contrato social digital. Nesse contexto, a proposta de flutuar com alguém pelo cosmos deixa de ser frivolidade pop e se torna, quase, declaração filosófica. É a constatação de que a única utopia ainda disponível é a utopia íntima, a dois, na pista de dança da cozinha, com o vizinho reclamando do volume.

Há também algo notável na forma como Dua Lipa construiu sua persona desde então. Em vez de capitalizar apenas o sucesso pop, ela criou o podcast e a newsletter Service95, dedicada a curadoria cultural, jornalismo literário e ativismo. É uma artista que entende que a longevidade no pop contemporâneo depende de construir um universo de significados em torno da música — e que esse universo precisa de profundidade. Radical Optimism, seu álbum de 2024, continuou essa investigação sobre como manter esperança numa era de cinismo, e suas escolhas de produtores e referências (Tame Impala, britpop dos anos 90, dance music francesa) sugerem uma artista cada vez mais interessada em arqueologia sonora.

Para o ouvinte brasileiro de 2026, revisitar "Levitating" pode ser um exercício produtivo de memória recente. A canção marca um momento histórico específico — o momento em que o pop globalizado precisou se reinventar para sobreviver ao silêncio das pistas de dança. E ela faz isso voltando ao começo, ao disco original dos anos 70, como quem diz: já estivemos aqui antes, já dançamos no escuro antes, e sobrevivemos. É, no fundo, uma canção sobre a continuidade do prazer mesmo quando o mundo parece pedir o contrário. Caetano Veloso, em entrevistas, já disse que toda grande canção pop é uma forma de resistência alegre. "Levitating" prova o ponto.

Como mergulhar mais fundo

Se a canção abriu apetite, eis algumas portas para explorar a constelação cultural ao seu redor — do disco original aos seus ecos brasileiros.

🎧 Ouça

Future Nostalgia (Dua Lipa) O álbum completo é uma masterclass de pastiche pop. Faixas como "Physical", "Hallucinate" e "Cool" complementam "Levitating" e mostram a coerência conceitual do projeto. → Buscar

Previsão do Tempo (Marcos Valle) Lançado em 1973, é o equivalente brasileiro de uma viagem cósmica sintética. Diálogo direto com a estética futurista-nostálgica que Dua Lipa reativa. → Buscar

📚 Leia

Retromania: Pop Culture's Addiction to Its Own Past (Simon Reynolds) Ensaio fundamental sobre a obsessão contemporânea com a reciclagem cultural. Explica por que Future Nostalgia funcionou tão bem. → Buscar

Tropicália: A Revolução na Música Popular Brasileira (Carlos Calado) Para entender a antropofagia musical que torna Dua Lipa, paradoxalmente, mais legível para o ouvinte brasileiro do que para o americano médio. → Buscar

🌍 Visite

Studio 54 Site (Manhattan, Nova York) O endereço original na 254 West 54th Street hoje abriga um teatro, mas placas históricas e tours guiados pelo legado do disco ainda acontecem. Vale combinar com uma visita ao Stonewall Inn, no Greenwich Village, berço do movimento LGBTQ+ que alimentou culturalmente a cena disco. → Guia de viagem

Parque Olímpico - Cidade do Rock (Rio de Janeiro, Brasil) Onde Dua Lipa se apresentou em 2022 e onde, a cada edição, milhares brasileiros performam o ritual coletivo de flutuar juntos. O Rock in Rio acontece bienalmente em setembro; vale planejar a viagem em torno do festival. → Guia de viagem

🎸 Experimente você mesmo

Sintetizador analógico Roland Juno-DS A camada de sintetizadores funk-disco que define "Levitating" pode ser explorada num teclado acessível como o Juno-DS, que carrega DNA dos clássicos dos anos 80. → Buscar

Songbook Bossa Nova e MPB para piano Antes de tentar reproduzir o disco contemporâneo, vale exercitar os dedos com Marcos Valle, Antonio Carlos Jobim e os clássicos brasileiros que conversam com a mesma sofisticação harmônica. → Buscar


🎵 Listen on all platforms

🤖 Perguntas para continuar a exploração com IA:

  1. Como a estética disco dos anos 70 dialoga com a música brasileira da mesma época, especialmente o trabalho de Tim Maia e Marcos Valle?
  2. Qual o papel do TikTok na ressurreição de gêneros musicais como o nu-disco durante a pandemia, e como isso se compara aos ciclos anteriores de revival pop?
  3. Se a Tropicália foi uma resposta brasileira à ditadura militar nos anos 60, qual seria hoje a equivalente brasileira de Future Nostalgia — um álbum que reciclasse criativamente o passado nacional como resposta às crises contemporâneas?
Tags
20s