SONGFABLE · 2017

Jocelyn Flores

XXXTENTACION · 2017

TL;DR: "Jocelyn Flores" não é uma música de amor nem uma faixa de rap comum: é uma elegia real, escrita depois que uma amiga próxima de XXXTentacion, uma modelo de dezenove anos, tirou a própria vida num quarto de hotel na Flórida — e, ao chorar por ela, o artista acaba confessando os próprios pensamentos suicidas.
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O gancho: uma pessoa de verdade, uma dor de verdade

A maioria das faixas curtas que viram fenômeno na internet fala de festa, de dinheiro ou de desilusão amorosa. "Jocelyn Flores" faz o oposto absoluto: em pouco menos de dois minutos, ela carrega o peso de uma morte real. Jocelyn Flores existiu. Era uma jovem modelo, aspirante a artista, amiga de XXXTentacion, e, segundo o que se sabe, viajou de Nova York para a Flórida para visitá-lo em maio de 2017. Foi lá, num quarto de hotel, que ela tirou a própria vida aos dezenove anos.

A surpresa cruel dessa música é que o título não é um apelido poético nem um personagem inventado. É o nome de alguém que morreu de fato, e a faixa é o luto de XXXTentacion transformado em som. Mais do que isso: em vez de apenas homenagear a amiga, ele usa a tragédia como um espelho e admite que também pensa em desaparecer, que também carrega o mesmo tipo de escuridão que consumiu Jocelyn. É por isso que a canção soa tão nua — não há pose, não há distância, só uma ferida aberta que ele decide gravar em vez de esconder.

O contexto: um garoto da Flórida, o SoundCloud e uma geração ferida

Jahseh Dwayne Ricardo Onfroy, o nome verdadeiro por trás de XXXTentacion, nasceu em janeiro de 1998 em Plantation, no sul da Flórida, e cresceu na região de Lauderhill e Pompano Beach. A infância dele foi conturbada — separação dos pais, brigas, expulsões de escola, passagens por instituições e até por um centro de detenção juvenil. Foi justamente num desses lugares, segundo relatos, que ele começou a levar a música a sério, cantando e descobrindo que a voz podia ser uma saída. Ele emergiu da cena do SoundCloud, aquele ecossistema caótico do fim dos anos 2010 onde adolescentes gravavam faixas no quarto e viravam ídolos sem nenhuma gravadora por trás.

"Jocelyn Flores" está no álbum de estreia oficial dele, 17, lançado em agosto de 2017. O disco inteiro dura menos de vinte e quatro minutos e é, assumidamente, um trabalho sobre depressão, dor e perda — XXX chegou a avisar, na abertura, que aquilo era um álbum feito para quem sofre, não uma coleção de hits para tocar em festa. A batida da faixa é construída em torno de um sample melancólico de guitarra atribuído ao produtor Potsu, que por sua vez usou a voz fantasmagórica de um artista anônimo conhecido como Shiloh Dynasty — aquele vocal etéreo e triste que ecoa ao fundo e se tornou uma assinatura de toda uma estética de tristeza online.

Para o ouvinte brasileiro que ama rock e pop internacional, há uma ponte mais forte do que parece. XXXTentacion nunca foi um rapper "puro": ele era fanático por rock, citava Kurt Cobain como herói, gravou faixas de metal, punk e emo, e falava abertamente que queria misturar tudo. O sentimento de "Jocelyn Flores" — a melancolia crua, a vulnerabilidade masculina exposta sem filtro, a estética do garoto que sofre e transforma dor em arte — vem em linha reta da tradição emo e grunge que marcou gerações no Brasil, dos shows de emocore dos anos 2000 às tribos de adolescentes que se identificavam com bandas melancólicas. Quem já se emocionou com o peso existencial de Nirvana ou com a angústia confessional de bandas emo vai reconhecer em XXX o mesmo impulso, só que traduzido para a linguagem do trap e da internet.

O significado: um luto que vira confissão

O coração de "Jocelyn Flores" está na forma como ela se recusa a ser apenas uma homenagem educada. XXXTentacion não canta sobre Jocelyn de longe, como quem lê um obituário. Ele começa descrevendo o choque e a impotência de perder alguém para o suicídio, a sensação de que algo se rompeu e não pode ser consertado. Sem reproduzir as palavras exatas dele, o que a letra transmite é a dor de acordar num mundo onde a amiga não existe mais e a culpa silenciosa de quem se pergunta se poderia ter feito algo diferente.

Mas então a música dá o passo que a torna devastadora: em vez de manter a tragédia como algo externo, XXX se coloca dentro dela. Ele confessa que também está exausto, que também pensa em não continuar, que a morte de Jocelyn não é só uma perda a lamentar, mas um espelho apontado para a própria mente. A faixa deixa de ser sobre "ela morreu" e passa a ser sobre "eu entendo por que ela não aguentou, porque eu sinto o mesmo". É essa fusão entre luto e autoconfissão que dá à canção sua força brutal.

Há também um gesto de honestidade quase desconfortável na maneira como ele descreve o cansaço emocional, a sensação de estar sendo puxado para baixo, de não conseguir carregar o próprio peso. XXXTentacion não embeleza nada, não oferece uma lição de superação, não termina com uma mensagem de esperança fácil. Ele simplesmente mostra a dor como ela é — e, ao fazer isso, dá voz a milhões de jovens que nunca souberam como nomear aquilo que sentiam. A música não resolve o sofrimento; ela apenas se recusa a fingir que ele não existe.

Contexto cultural e legado: a trilha sonora de uma geração que aprendeu a falar de dor

"Jocelyn Flores" se tornou um marco por um motivo que vai além da música em si: ela ajudou a normalizar, no mainstream, uma conversa que antes era abafada — a saúde mental dos jovens, especialmente dos garotos, ensinados a esconder tudo. Numa época em que o rap dominante ainda celebrava força, dinheiro e invencibilidade, XXXTentacion apareceu chorando abertamente por uma amiga e admitindo os próprios abismos. Isso reconfigurou o que era permitido dizer numa faixa de sucesso.

A canção virou um dos pilares do chamado emo rap, o gênero que fundiu a melancolia do emo e do grunge com as batidas do trap e a intimidade caseira do SoundCloud. Ao lado de artistas como Lil Peep — que, tragicamente, também morreria jovem —, XXX ajudou a definir uma estética inteira: guitarras tristes, vozes distorcidas pelo autotune, letras sobre ansiedade, vazio e vontade de sumir. Para uma geração que cresceu conectada e solitária ao mesmo tempo, essa mistura soou como a trilha sonora exata do que sentiam por dentro.

É impossível falar do legado sem lembrar do destino do próprio XXXTentacion. Ele foi assassinado a tiros em junho de 2018, aos vinte anos, numa loja no sul da Flórida. Sua figura é complexa e cercada de polêmica — ele respondia a acusações graves de violência doméstica na época da morte, um fato que nunca deve ser apagado ao falar dele. Ainda assim, para milhões de fãs, "Jocelyn Flores" ganhou uma camada quase profética depois de sua morte: o garoto que cantava sobre não aguentar a própria dor teve a vida interrompida cedo demais, tornando a faixa um documento ainda mais pesado sobre juventude, sofrimento e fragilidade.

No Brasil, XXXTentacion construiu uma legião de seguidores enorme, especialmente entre adolescentes e jovens adultos que encontraram nas músicas dele uma linguagem para a própria angústia. Diz-se que o país é um dos maiores mercados de streaming dele fora dos Estados Unidos, e não por acaso: a estética da tristeza compartilhada, do garoto sensível que transforma o sofrimento em arte, dialoga com uma sensibilidade que sempre existiu por aqui, do rock alternativo aos poetas da dor cotidiana.

Por que ainda ressoa hoje

Anos depois do lançamento, "Jocelyn Flores" continua tocando um nervo exposto porque o problema que ela expõe só cresceu. A saúde mental dos jovens virou uma das grandes crises silenciosas do nosso tempo, e a solidão amplificada pelas redes sociais — a sensação de estar cercado de gente e ainda assim profundamente só — é exatamente o território que a faixa habita. Quando XXX descreve o esgotamento de existir, ele fala de algo que muitos ouvintes reconhecem sem precisar de tradução.

Há também um valor real na coragem que a música tem de nomear o inominável. Falar de suicídio ainda é tabu em muitos lugares, inclusive no Brasil, e ouvir um artista jovem dizer em voz alta o que sente — sem heroísmo, sem vergonha — pode ser, para quem está sofrendo, a diferença entre se sentir monstruoso e se sentir compreendido. É por isso que muitos fãs relatam que a faixa não os empurrou para baixo, mas os fez sentir que não estavam sozinhos. A dor dividida pesa menos do que a dor calada.

Vale lembrar, porém, que uma música não substitui ajuda. Se essas palavras ressoam demais com você, procurar apoio é um ato de força, não de fraqueza — no Brasil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende pelo número 188, de graça e em sigilo, vinte e quatro horas por dia. "Jocelyn Flores" nasceu de uma perda que talvez pudesse ter sido evitada, e talvez o modo mais honesto de honrar a memória de Jocelyn seja lembrar que ninguém precisa carregar tudo sozinho.

No fim, o que mantém a faixa viva é sua verdade sem maquiagem. Ela não promete cura, não oferece final feliz e não tenta transformar a tragédia em lição motivacional. Ela apenas coloca a dor à luz do dia, com o nome de uma pessoa real no título, e confia que a honestidade basta. Talvez seja essa recusa a mentir sobre o sofrimento que faça "Jocelyn Flores" continuar, ano após ano, sendo redescoberta por cada novo jovem que precisa saber que alguém já sentiu exatamente aquilo.


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