SONGFABLE · 2018

SAD!

XXXTENTACION · 2018

TL;DR: Debaixo de uma batida que parece quase alegre, "SAD!" é o retrato de alguém preso num amor que dói tanto que fica difícil distinguir entre não querer perder a pessoa e não conseguir mais viver de verdade. Poucos meses depois de lançá-la, o artista foi assassinado aos 20 anos — e a música então disparou para o topo das paradas americanas, transformando uma canção sobre dor em um assombroso adeus.
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A música mais dançante sobre não aguentar mais

Existe um truque cruel no coração de "SAD!". A melodia é leve, quase saltitante, o tipo de batida que faz o pé bater no chão sem que você perceba. Mas se você prestar atenção ao que está sendo cantado, descobre que a faixa fala de sofrimento emocional puro — de dependência afetiva, de vazio, de uma pessoa que não sabe mais se sente falta do amor ou apenas medo de ficar sozinha consigo mesma. Esse contraste entre o som e o assunto é justamente o que torna a música tão viciante e tão desconcertante.

XXXTentacion tinha um dom raro para embrulhar dor em algo que grudava no ouvido. "SAD!" dura pouco mais de dois minutos e meio, é curtíssima para os padrões do rádio, e mesmo assim consegue plantar na cabeça de quem ouve uma sensação que fica dias reverberando. Antes de qualquer análise, é isso que precisa ficar claro: essa não é uma música triste que soa triste. É uma música triste disfarçada de festa — e esse disfarce é a mensagem inteira. Muita gente carrega a própria dor exatamente assim, sorrindo por fora enquanto desmorona por dentro.

Quem era XXXTentacion, e o abismo de onde a música nasceu

XXXTentacion era o nome artístico de Jahseh Dwayne Ricardo Onfroy, um jovem nascido em 1998 na Flórida, na região de Plantation, perto de Fort Lauderdale. Sua vida foi curta e turbulenta desde o começo: cresceu com a avó, entrou e saiu de reformatórios juvenis, brigava, se metia em confusão, e ao mesmo tempo descobria na música um jeito de canalizar um turbilhão interno que parecia grande demais para caber nele. Aos vinte anos já era, ao mesmo tempo, um dos artistas mais ouvidos e um dos mais controversos de sua geração — sobre ele pesavam acusações graves de violência, que fazem parte de qualquer conversa honesta sobre seu legado e que não devem ser varridas para debaixo do tapete.

Musicalmente, porém, ele fazia algo que quase ninguém tentava. Misturava rap, rock, emo, trap e até melodias suaves de voz limpa dentro de um mesmo disco, às vezes dentro de uma mesma faixa. Fazia parte de uma leva de artistas da chamada geração SoundCloud, jovens que subiam suas músicas de graça na internet, gravadas muitas vezes no quarto, e que construíram carreiras gigantescas longe das gravadoras tradicionais. "SAD!" apareceu no álbum "?", lançado em março de 2018, um trabalho que oscilava entre a fúria e a fragilidade, entre gritos distorcidos e sussurros quase infantis.

Para o público brasileiro, há uma conexão que vale registrar. XXXTentacion teve, e ainda tem, uma legião de fãs no Brasil desproporcional ao tempo que ele viveu. Nas plataformas de streaming e no YouTube, os números brasileiros de reprodução de suas músicas estão entre os mais altos do mundo, e é comum encontrar comentários em português embaixo de cada vídeo, anos depois de sua morte. A juventude brasileira, que sempre teve uma relação intensa com o rock, o emo e a música que fala abertamente de saúde mental, adotou esse artista como se fosse um dos seus. Quem cresceu ouvindo bandas de rock internacional e depois mergulhou na cena emo-trap encontra em "SAD!" exatamente aquela mesma honestidade crua sobre a dor que sempre atraiu o ouvinte daqui.

O que a letra realmente diz: o amor que vira dependência

Sem reproduzir nenhum verso, dá para descrever com precisão o nó emocional que a música desenrola. O eu que canta está preso a alguém. Não é um amor tranquilo nem um romance de conto de fadas — é uma ligação que machuca, que mistura desejo e desespero. A pessoa que canta admite que não consegue viver com aquele amor e, ao mesmo tempo, não consegue imaginar existir sem ele. Essa é a armadilha central da faixa: a impossibilidade de ficar e a impossibilidade de partir, as duas prensando o peito ao mesmo tempo.

Há na letra uma confusão deliberada entre a saudade da pessoa amada e algo bem mais sombrio — a sensação de que perder esse amor equivale a deixar de existir. O tédio de estar sozinho se transforma numa dor física, quase insuportável. O que torna a música tão perturbadora é que ela nunca oferece uma saída. Não há lição, não há superação, não há aquele momento em que a pessoa finalmente se liberta e segue em frente. A faixa fica presa dentro do próprio sofrimento, girando em círculo, exatamente como acontece com quem está de fato afundado numa dependência afetiva.

Vale reforçar essa leitura com cuidado: muita gente ouve "SAD!" e a interpreta apenas como uma canção sobre um término. Mas quem escuta com atenção percebe camadas de algo mais grave — a dificuldade de encontrar sentido, o cansaço de existir, o vazio que continua mesmo quando a outra pessoa está por perto. XXXTentacion tinha o hábito de falar abertamente sobre depressão em suas músicas, e "SAD!" pertence a essa linhagem de faixas que usam a linguagem de um romance para descrever, na verdade, a batalha de alguém consigo mesmo. É aí que mora o poder dela: cada ouvinte projeta ali a sua própria versão de dor, seja um amor perdido, seja uma tristeza sem nome.

O adeus que ninguém queria: quando a vida imitou a arte

Aqui a história dá uma guinada que quase parece roteiro trágico. Em 18 de junho de 2018, poucos meses depois do lançamento de "SAD!", XXXTentacion foi baleado e morto num assalto na Flórida, ainda com vinte anos. A notícia correu o mundo em minutos e transformou instantaneamente cada faixa daquele álbum numa espécie de testamento.

O que aconteceu em seguida foi impressionante. "SAD!", que já era um sucesso, disparou de vez após a morte do artista e alcançou o primeiro lugar da Billboard Hot 100, a principal parada dos Estados Unidos. Uma música curtíssima, feita por um jovem da cena SoundCloud, sobre dependência afetiva e vontade de desaparecer, virou o número um do país — e a virou justamente porque o mundo processava, em tempo real, a perda de quem a havia criado. O videoclipe oficial, lançado depois de sua morte, encenava algo arrepiante: o próprio artista comparecendo ao seu próprio funeral e encarando uma versão de si mesmo dentro do caixão. A imagem, que reportadamente já estava sendo planejada antes de sua morte, ganhou um peso quase insuportável diante do que de fato aconteceu.

É difícil separar hoje a música do seu contexto. "SAD!" deixou de ser só uma canção sobre um amor doentio e passou a carregar o luto de milhões de fãs, muitos deles adolescentes que enxergavam naquele artista alguém que entendia a própria angústia. No Brasil, essa comoção foi enorme; homenagens em português inundaram as redes, e a data de sua morte ainda é lembrada todos os anos por quem se identificou com sua obra.

Por que a música ainda ressoa tão forte

Anos depois, "SAD!" continua a acumular reproduções bilionárias, e não é só por causa da tragédia que cerca o artista. A música sobrevive porque toca num nervo que não envelhece: a experiência de estar dividido entre precisar de alguém e ser destruído por essa mesma necessidade. Qualquer pessoa que já tenha vivido um relacionamento do qual não conseguia sair, mesmo sabendo que fazia mal, reconhece na hora o sentimento descrito ali.

Há também uma razão geracional. "SAD!" faz parte de um momento em que a música popular passou a falar de saúde mental de peito aberto, sem eufemismos. Depressão, ansiedade, solidão — temas que antes eram sussurrados passaram a ocupar refrões que tocam em fone de ouvido no trajeto para a escola ou para o trabalho. Para o público brasileiro, que convive com campanhas como o Setembro Amarelo e com uma juventude cada vez mais disposta a falar abertamente sobre sofrimento psíquico, essa franqueza soa familiar e necessária. A música dá nome a um sentimento que muita gente tem, mas não consegue explicar.

E há, por fim, a força do contraste sonoro que abre esta história. "SAD!" é dançante, e é justamente por isso que ela machuca de um jeito tão particular. Ela mostra como a dor humana muitas vezes se esconde atrás de uma fachada animada, como alguém pode estar cantando alto e sorrindo enquanto desmorona por dentro. Essa verdade não tem prazo de validade. Enquanto existirem pessoas carregando tristezas invisíveis atrás de um sorriso, uma faixa como essa vai continuar encontrando ouvidos que a entendem sem precisar de explicação.

Se você ou alguém que você conhece estiver passando por um momento assim, no Brasil o CVV — Centro de Valorização da Vida — atende de graça pelo telefone 188, além de chat e e-mail, a qualquer hora do dia ou da noite. Uma música pode dar nome à dor; conversar com alguém pode ajudar a atravessá-la.


Como mergulhar mais fundo

🎧 Mergulhe no som

Comece pelo álbum "?", de 2018, onde "SAD!" convive com faixas que vão do grito à ternura. Ouvindo o disco inteiro, dá para entender como o artista transitava entre gêneros dentro de um mesmo projeto, algo raro na música daquela época.

📚 Siga a história

Para entender a vida curta e complicada por trás da música, vale mergulhar em biografias e reportagens sobre a geração SoundCloud e sobre a ascensão desses artistas nascidos na internet. É uma leitura que ajuda a enxergar o contexto sem apagar as sombras da história.

🌍 Visite os lugares

A história de XXXTentacion está enraizada no sul da Flórida, na região de Fort Lauderdale, com seu clima, suas praias e a cena musical de subúrbio que o formou. Explorar esse cenário ajuda a entender de onde veio sua sonoridade.

🎸 Experimente você mesmo

"SAD!" tem uma estrutura simples o suficiente para inspirar quem quer começar a fazer música em casa, como o próprio artista fazia. Um violão, um teclado ou um microfone básico já bastam para colocar os próprios sentimentos em melodia.


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