Drew Barrymore
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O gancho: um nome emprestado para carregar uma vergonha
A primeira coisa que quase todo mundo erra sobre "Drew Barrymore" é achar que é uma homenagem, um retrato ou uma fofoca sobre a atriz. Não é nada disso. Drew Barrymore, aqui, é um espelho. SZA pega o nome de uma mulher que o mundo conheceu primeiro como criança-prodígio, depois como adolescente descontrolada nas capas de tabloide, depois como a garota estranha das comédias românticas, e usa esse nome como sinônimo de um sentimento muito específico: o de ser querida apesar de você mesma.
A faixa inteira funciona como um monólogo interno em voz alta. Alguém está numa relação, sentindo que ocupa espaço demais e ao mesmo tempo espaço de menos, se comparando com quem veio antes, se desculpando pela própria bagunça, pelo próprio corpo, pelas próprias inseguranças, e tentando descobrir se o afeto que recebe é amor ou apenas tolerância. Ela não pergunta "você me ama?". Ela pergunta algo bem mais cruel e mais honesto: "eu sou boa o suficiente para você ficar?".
O que transformou isso num dos momentos mais citados do R&B da década foi a decisão de não maquiar nada. SZA canta desafinando de propósito em alguns pontos, deixando a respiração entrar, soando exatamente como alguém falando sozinho no banheiro de uma festa. A produção é preguiçosa no melhor sentido: guitarra suja, bateria que arrasta, um clima de garagem gravado às três da manhã. É R&B com textura de rock indie, e é justamente por isso que a música atravessou públicos que normalmente não se encontram.
Nova Jersey, o disco que quase não existiu e um HD confiscado
Solána Imani Rowe nasceu em 1989 e cresceu em Maplewood, Nova Jersey, numa família muçulmana. Ela usava hijab na escola, foi alvo de bullying depois do 11 de setembro, e passou a adolescência sendo a garota que não se encaixava em nenhum grupo. Estudou biologia marinha por um tempo, trabalhou em loja de roupa, em bar de sushi, e só começou a gravar por acidente, mais ou menos aos vinte e poucos anos, sem nenhuma formação musical formal. O nome artístico vem do Alfabeto Supremo, o sistema de letras da Nação dos Cinco Por Cento: S de Soberana ou Salvadora, Z de zigue-zague-zigue, A de Allah.
Ela virou a primeira mulher assinada pela Top Dawg Entertainment, a gravadora que já abrigava Kendrick Lamar, ScHoolboy Q, Jay Rock e Ab-Soul. Foi uma posição estranha: a única cantora numa casa de rappers, cercada por gente que já era gigante. Os EPs iniciais — See.SZA.Run, S, Z — construíram um culto pequeno e barulhento, mas o álbum de estreia oficial demorou uma eternidade.
E quase não saiu. Em 2016, SZA declarou publicamente que estava desistindo de lançar música, dizendo que tinha sido editada contra a própria vontade. Consta que ela gravou centenas de versões das mesmas canções, incapaz de considerar qualquer uma terminada. A história que circula desde então é que Terrence "Punch" Henderson, presidente da TDE, simplesmente tomou o HD das mãos dela e fechou o disco por conta própria, porque senão Ctrl nunca teria data de lançamento. Ela mesma já brincou em entrevistas que odiava metade das versões que foram parar no álbum.
Ctrl saiu em 9 de junho de 2017 e virou uma das estreias mais celebradas da década. A capa mostra uma pilha de monitores CRT velhos num estacionamento, imagem que resume a tese do disco: controle é uma ilusão, e a gente acumula tralha tentando conseguir um pouco dele. Entre as faixas há gravações reais de recados de voz da avó e da mãe de SZA, comentando sobre medo, amor-próprio e a diferença entre ter controle e fingir que tem.
Aqui vale um gancho para quem cresceu no Brasil: Drew Barrymore não é uma referência distante por aqui. Ela é uma personagem íntima da televisão brasileira. Foi a menininha de E.T. — O Extraterrestre, exibido incontáveis vezes dublado na Sessão da Tarde. Foi O Primeiro Beijo, As Panteras, Como Se Fosse a Primeira Vez. Ou seja: para o público brasileiro, o nome no título carrega exatamente o peso que SZA queria — a mulher desajeitada, expressiva demais, que a gente acompanhou crescer na tela e que sempre pareceu um pouco fora de lugar, mesmo sendo estrela. É uma escolha de título que funciona igualmente bem em São Paulo e em Los Angeles.
O que a letra realmente está dizendo
Descrever "Drew Barrymore" sem citar um verso sequer é fácil, porque a canção é menos uma história e mais um estado emocional sustentado do começo ao fim.
O cenário implícito é doméstico e humilhante em sua banalidade: ela está na casa dele, ou ele está na dela, e existe outra pessoa pairando na conversa — uma ex, uma paralela, uma comparação silenciosa. Em vez de exigir explicação, a narradora faz o movimento oposto, que é o que dá à música seu poder desconfortável: ela começa a se desculpar. Desculpas por não estar arrumada. Desculpas por não ser o tipo de mulher que ele apresentaria aos amigos. Desculpas por beber demais, por ficar carente, por ser a versão mais bagunçada de si mesma justamente na frente de quem ela queria impressionar.
A camada mais afiada é o pedido de desculpas pelo corpo. A narradora antecipa a rejeição física antes que ela aconteça, se depreciando primeiro para que a dor chegue amortecida. É uma estratégia de defesa que qualquer pessoa com autoestima frágil reconhece na hora. Ao mesmo tempo, corre uma pergunta prática por baixo de tudo: se ela é tão descartável assim, por que ele continua ali? A resposta que ela não quer ouvir é que talvez ele fique por conveniência, e não por escolha.
E então vem a virada, quase escondida. No meio de tanta autodepreciação, aparece uma reivindicação de espaço. Ela quer ser vista. Quer que aquilo signifique alguma coisa. Quer companhia, não apenas presença. É esse duplo movimento — se encolher e ao mesmo tempo pedir para existir — que faz a canção soar verdadeira em vez de patética. Ninguém sente só uma coisa de cada vez.
O apelido "Drew Barrymore" entra como uma etiqueta que a narradora cola em si mesma. SZA já explicou, em entrevistas na época do lançamento, que a associação vinha das personagens que a atriz costumava interpretar: a garota esquisita, meio destruída, meio doce, aquela por quem o protagonista se apaixona depois de perceber que ela não é o desastre que aparentava ser. É a arquetípica "garota do fundo da sala" que a comédia romântica adora resgatar no terceiro ato. A canção pergunta, sem sarcasmo, se esse resgate acontece na vida real.
O clipe, o corpo e o susto do encontro final
O videoclipe, dirigido por Dave Meyers, é parte essencial da lenda da música. SZA aparece caminhando por Nova York vestindo essencialmente roupa íntima e um casaco, atravessando ruas e metrôs enquanto olhares recaem sobre ela, arrastando um saco de lixo em algumas cenas, sentada sozinha em outras. É a exposição literal do que a letra diz: estar nua na frente do mundo e ser julgada por isso.
Há referências visuais espalhadas ao longo do filme para papéis de Barrymore, e no final acontece o que ninguém esperava: a própria Drew Barrymore aparece, senta ao lado de SZA e simplesmente fica ali. Nenhuma fala grandiosa, nenhum discurso motivacional. Só a presença de quem entendeu a referência e decidiu abraçá-la. Consta que Barrymore ficou genuinamente comovida ao saber que a canção existia. Aquele encontro fecha o círculo do disco inteiro: o rótulo que a narradora usava para se punir volta como companhia.
Legado: o disco que reescreveu o R&B dos anos 2010
Ctrl fez algo raro. Chegou muito alto nas paradas americanas, rendeu a SZA várias indicações ao Grammy na cerimônia de 2018 — incluindo Artista Revelação —, e mesmo sem levar prêmio naquela noite, virou consenso crítico como um dos álbuns definidores da década. Faixas como "Love Galore", com Travis Scott, e "The Weekend" tiveram vida própria nas rádios, mas "Drew Barrymore" foi a que grudou nas legendas de post, nos vídeos de desabafo e nas playlists de madrugada.
Sua influência aparece em uma geração inteira de compositoras que passaram a tratar a insegurança como assunto principal, e não como confissão envergonhada. A honestidade sem verniz de SZA — falar de ciúme, de comparação com outras mulheres, de sexo desconfortável, de amor-próprio inconstante — abriu espaço para artistas como Summer Walker, Doja Cat, Olivia Rodrigo e uma leva de vozes que assumiram que ser confusa e ser interessante não são coisas opostas.
Para o ouvinte brasileiro que gosta de rock e pop internacional, a ponte mais óbvia não é nem com o R&B clássico, mas com a tradição confessional. A canção tem parentesco emocional com o que Fiona Apple fez nos anos 1990, com a franqueza desarmante de Amy Winehouse, com o desconforto elegante de Frank Ocean em Blonde. E, olhando para dentro de casa, dialoga com a longa tradição brasileira de música que trata amor como negociação constante de dignidade — o mesmo território emocional que a MPB e, de outro ângulo, a sofrência sertaneja exploram sem pudor. Muda o sotaque, não muda a ferida.
Por que ainda machuca (e conforta) hoje
Anos depois, quando SZA voltou com SOS e virou um dos maiores nomes do pop mundial, "Drew Barrymore" continuou sendo a faixa que os fãs citam como porta de entrada. O motivo é simples: ela documenta um momento da vida amorosa moderna que só ficou mais comum. Relações não nomeadas. Comparação constante alimentada por telas. A sensação de estar sempre em avaliação, sempre a um deslize de ser substituída.
A música não oferece solução. Não tem verso final que resolve nada, não tem virada triunfal de autoestima. E é exatamente por isso que envelheceu tão bem. Ela apenas registra o pensamento inteiro, incluindo as partes que a gente normalmente esconde, e depois entrega o veredicto para o ouvinte. Quem escuta aos vinte anos se reconhece. Quem escuta aos trinta e cinco reconhece quem já foi.
O detalhe mais bonito talvez seja este: ao dar à própria vergonha o nome de uma estrela de cinema, SZA fez a vergonha virar personagem. E personagem, diferente de defeito, pode ser amado. É uma pequena mágica de composição — pegar a coisa que você mais odeia em si mesmo e colocá-la sob um refletor até que ela pare de parecer monstruosa.
Como mergulhar mais fundo
🎧 Mergulhe no som
- SZA Ctrl álbum — Ouvir "Drew Barrymore" isolada é ver só um cômodo da casa. No contexto de Ctrl, com os recados de voz da avó de SZA costurando as faixas, a canção deixa de ser um desabafo e vira capítulo de um argumento maior sobre controle e sua ausência.
- SZA SOS vinil — O disco de 2022 é a resposta adulta ao de 2017: mesma honestidade, muito mais raiva e humor. Escutar os dois em sequência mostra uma artista que trocou o pedido de desculpas pela conta a pagar.
- Frank Ocean Blonde vinil — O primo direto de Ctrl em espírito: R&B desmontado, guitarras fantasmagóricas, vulnerabilidade tratada como estrutura e não como decoração. Quem gosta da textura suja de "Drew Barrymore" costuma cair de amores aqui.
📚 Siga a história
- Drew Barrymore Little Girl Lost livro — A autobiografia que Barrymore publicou ainda adolescente, contando a fama precoce e o colapso que veio junto. Ler isso depois de ouvir a música explica por que o nome dela funciona tão bem como metáfora de fragilidade exposta.
- Kendrick Lamar biografia livro — Para entender o ecossistema da Top Dawg Entertainment em que SZA foi a única mulher por anos. A pressão criativa daquela casa ajuda a explicar por que Ctrl levou tanto tempo e quase não saiu.
- história do R&B contemporâneo livro — Uma linha do tempo do gênero deixa claro o quanto o disco de 2017 quebrou convenções: nada de refrão perfeito, nada de voz impecável, tudo de intimidade crua.
🌍 Visite os lugares
- guia de viagem Nova York — O clipe atravessa ruas, metrôs e calçadas nova-iorquinas com SZA quase sem roupa em plena luz do dia. Andar por essas mesmas quadras dá outra dimensão ao desconforto que a imagem provoca.
- guia de viagem Nova Jersey — Maplewood, o subúrbio onde SZA cresceu, fica a poucos quilômetros de Manhattan e a uma distância emocional bem maior. É o cenário da adolescência de outsider que alimenta todo o disco.
- guia de viagem Los Angeles — A cidade onde a TDE opera e onde boa parte de Ctrl foi finalizada. Também é a capital simbólica das comédias românticas que deram a Drew Barrymore o arquétipo que a música empresta.
🎸 Viva você mesmo
- violão elétrico iniciante — A base da faixa é enganosamente simples: poucos acordes, muito espaço, tudo dependendo do clima. É material ideal para quem quer aprender que sensação vale mais que velocidade.
- interface de áudio home studio — Boa parte da estética de Ctrl nasce de gravações caseiras com imperfeições preservadas de propósito. Com uma interface simples dá para perseguir aquele mesmo som de quarto às três da manhã.
- caderno de composição letras — O truque de SZA é escrever o pensamento inteiro, inclusive as partes constrangedoras, antes de editar. Um caderno dedicado a rascunhos sem filtro é o começo mais honesto para qualquer letrista.
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A Drew Barrymore de verdade sabia da música e o que ela achou?
Sim, e ela participou do videoclipe dirigido por Dave Meyers, aparecendo ao lado de SZA na cena final. Consta que a atriz recebeu bem a homenagem indireta, entendendo que o nome dela estava sendo usado como símbolo de fragilidade adorável, não como crítica. O gesto de sentar em silêncio junto de SZA fechou o sentido da canção melhor do que qualquer declaração faria. -
Por que Ctrl demorou tanto para ser lançado?
SZA reformulou as faixas obsessivamente por anos e chegou a anunciar publicamente, em 2016, que estava desistindo de lançar o disco. A história mais repetida é que o presidente da Top Dawg Entertainment acabou tomando o HD com as gravações e finalizando o álbum por conta própria, porque a artista nunca consideraria nada pronto. Ela já admitiu em entrevistas que não gostava de várias das versões escolhidas. -
Por que uma música de R&B soa tão parecida com rock indie?
A produção aposta em guitarra crua, bateria arrastada e muito espaço vazio, em vez do polimento típico do R&B comercial da época. SZA também deixa a voz sair imperfeita de propósito, com respiração e afinação instável, o que aproxima o resultado da estética de artistas confessionais como Fiona Apple e Frank Ocean. Foi justamente essa textura suja que atraiu ouvintes de rock que normalmente não chegariam ao gênero.