SONGFABLE · 2017

Normal Girl

SZA · 2017

TL;DR: Parece um lamento de quem quer virar a "namorada perfeita", mas é o contrário: é uma faixa sobre perceber que a garota normal não existe, que ela é um personagem inventado pela família, pela TV e pelo desejo alheio, e que tentar interpretá-la custa mais caro do que assumir a própria bagunça.
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O gancho: o desejo mais estranho de um disco cheio de desejos estranhos

Ctrl é um álbum sobre querer coisas erradas. Querer o cara que já tem alguém. Querer ser lembrada. Querer sumir. No meio dessa coleção de vontades desconfortáveis, "Normal Girl" é a mais esquisita de todas, porque é a única em que a narradora não pede amor, nem vingança, nem sexo. Ela pede promoção de categoria. Quer deixar de ser a garota com quem se dorme e virar a garota que se apresenta.

É um pedido humilhante, e SZA sabe disso. Ela canta como quem admite em voz baixa uma ambição que acha vergonhosa. A meta declarada é banal ao ponto do absurdo: ser aquela cujo nome o rapaz diz pra mãe sem hesitar, aquela que ganha o convite pro jantar de família, aquela que aparece no retrato pendurado na parede. Nada de fama, nada de dinheiro. Apenas legitimidade doméstica.

E aqui está a virada que quase todo mundo perde na primeira audição: a canção nunca conclui que essa meta valha a pena. Quanto mais a narradora descreve a garota que gostaria de ser, mais fica evidente que ela está descrevendo uma ficção. Uma personagem montada com peças emprestadas de revista, novela e sermão familiar. "Normal Girl" começa como confissão de inadequação e termina como diagnóstico do padrão. Não é ela que está quebrada. É a régua.

Musicalmente, a faixa faz o mesmo truque. A batida é leve, quase alegre, com um balanço de rádio pop que engana o ouvido distraído. Dá pra colocar numa playlist de fim de tarde e nem perceber que a letra é uma pequena tragédia sobre autoestima condicionada. Esse contraste entre embalagem doce e recheio amargo é uma das assinaturas de Ctrl, e talvez o motivo de o disco ter atravessado tantas fronteiras de gosto, incluindo a de quem normalmente só ouve rock e pop internacional.

De Maplewood ao HD que a gravadora tomou

Solána Imani Rowe nasceu em St. Louis, no Missouri, no fim dos anos 1980, e cresceu em Maplewood, Nova Jersey. A configuração familiar dela já era, por definição, o oposto de normal para a vizinhança: pai muçulmano praticante, que trabalhou por anos numa grande emissora de notícias americana, e mãe cristã, executiva de uma companhia telefônica. Ela frequentou escola muçulmana na infância e usava hijab. Depois do 11 de setembro, o assédio na escola aumentou a ponto de ela abandonar o véu, segundo relatos que ela mesma deu em entrevistas.

Guarde essa informação, porque ela reorganiza a música inteira. A pessoa que canta sobre querer ser "a garota normal" é alguém que passou a infância inteira sendo, oficialmente, a garota diferente. Não por escolha estética, mas por religião, por nome, por roupa, por família. Quando ela descreve o desejo de ser apresentável, não está falando só de romance. Está falando de uma vida inteira de tentar caber.

O caminho até a música foi torto. Estudou biologia marinha em Delaware, largou o curso perto do fim, trabalhou em loja de cosméticos e, consta, também atrás de um balcão de bar. Não teve formação musical, não cantava em coral, não sonhava com palco. Começou a gravar quase por acaso, já adulta, e adotou o nome SZA a partir do Alfabeto Supremo, o mesmo sistema de letras que deu nome a RZA e GZA, do Wu-Tang Clan.

Em 2013 virou a primeira mulher assinada pela Top Dawg Entertainment, gravadora conhecida por Kendrick Lamar, ScHoolboy Q, Jay Rock e Ab-Soul. Posição solitária: uma cantora de R&B experimental dentro de uma casa de rappers em ascensão. Os EPs See.SZA.Run, S e Z criaram um culto pequeno e obsessivo, mas o álbum de estreia parecia condenado a nunca sair.

Em 2016 ela chegou a anunciar publicamente que desistia de lançar música. A história que circula desde então é que ela gravou centenas de versões das mesmas canções, incapaz de considerar qualquer uma pronta, e que o presidente da gravadora simplesmente confiscou o HD e fechou o disco por conta própria. Ela já brincou em entrevistas que odiava várias das versões que foram parar no álbum final. Ctrl saiu em 9 de junho de 2017, com produção creditada a um time que inclui nomes como ThankGod4Cody e Carter Lang, e a capa mostra uma pilha de monitores CRT abandonados num estacionamento, resumindo a tese do disco: controle é lixo eletrônico que a gente acumula fingindo que funciona.

Existe um gancho brasileiro aqui que é quase incômodo de tão direto. O conceito central de "Normal Girl" é a "moça de família". Aquela categoria não escrita, mas rigorosamente aplicada, que separa a mulher que se leva ao almoço de domingo daquela que fica na história paralela. No Brasil, esse julgamento tem vocabulário próprio, tem tia que comenta, tem sogra que avalia, tem a pergunta sobre quando vai apresentar em casa. É a mesma engrenagem que SZA descreve em inglês, com sotaque de subúrbio de Nova Jersey, funcionando idêntica em Belo Horizonte, Recife ou na zona leste de São Paulo. A música não precisa de tradução cultural. Ela já chega traduzida.

O que a canção realmente está dizendo

Sem citar um verso sequer, dá pra reconstruir o movimento emocional inteiro, porque "Normal Girl" é construída como uma lista de aspirações que vai se autodestruindo.

A narradora começa enumerando o que seria preciso para virar a namorada apresentável. Ela não descreve virtudes internas: bondade, lealdade, inteligência. Descreve credenciais sociais. Ser a que a mãe dele aprova. Ser a que aparece nas fotos que se guardam. Ser a que ganha as datas comemorativas, o gesto público, o anúncio. Cada item da lista é um selo de validação vindo de fora, nunca de dentro. É essa a denúncia silenciosa da faixa: o ideal de "normalidade" feminina não tem conteúdo próprio, é só um conjunto de aprovações de terceiros.

Depois vem a comparação. A narradora mede a si mesma contra imagens que nunca existiram de verdade: mulheres de propaganda, de televisão, de feed. Ela sabe, em algum nível racional, que está competindo com edição e iluminação. Mas saber não desarma o sentimento. Essa é a parte da música que envelheceu melhor, porque em 2017 ainda dava pra fingir que o problema era das revistas. Hoje o padrão vem em vídeo vertical, com filtro em tempo real, atualizado a cada quinze segundos.

O terceiro movimento é o mais cruel e o mais honesto. Ela reconhece que a versão real de si mesma, a que bebe demais, se apega rápido, some sem explicar, se arrepende no dia seguinte, é incompatível com o cargo que ela quer ocupar. Não é que ela não consiga ser a garota normal. É que ela já é outra pessoa, e sabe disso. A tensão da faixa não é entre querer e não conseguir. É entre querer e não querer ao mesmo tempo, porque virar a garota normal significaria apagar exatamente aquilo que a torna interessante.

E é por isso que a música não termina em conquista nem em derrota. Termina em suspensão. A narradora fica ali, ciente do preço dos dois caminhos, sem escolher. Qualquer pessoa que já tenha se perguntado se deveria se editar para ser amada reconhece esse lugar imediatamente.

Vale notar o que "Normal Girl" não faz: ela não humilha a garota normal. Não existe deboche com a mulher que quer casar, ter jantar de família e retrato na parede. SZA trata esse desejo com respeito melancólico. A crítica não é às mulheres que cabem no molde, é ao fato de existir um molde e de ele ser distribuído como se fosse a única forma disponível de ser amada.

Contexto e legado: o ano em que a vulnerabilidade virou pop

Ctrl chegou num momento específico. O R&B alternativo vinha se reorganizando desde Channel Orange, de Frank Ocean, e ganhava espaço em festivais que antes eram território exclusivo de guitarras. O disco de SZA estreou muito alto nas paradas americanas, rendeu cinco indicações ao Grammy na cerimônia de 2018, incluindo Artista Revelação, e não levou nenhuma estatueta naquela noite. Virou um daqueles casos que a imprensa musical passou anos citando como prova de que a premiação estava atrasada em relação ao próprio público.

A vingança veio pelo tempo. Anos depois, com SOS, SZA passou de artista de culto a uma das maiores figuras do pop mundial, quebrou recordes de permanência em parada e finalmente encheu a prateleira de prêmios. E quando ela veio ao Brasil como uma das atrações principais do Lollapalooza, o público brasileiro já cantava faixas de Ctrl palavra por palavra, incluindo as que nunca tocaram em rádio aberta por aqui.

"Normal Girl" nunca foi single de trabalho, e é justamente esse tipo de faixa que costuma definir a relação de longo prazo entre um disco e seus ouvintes. Ela sobreviveu em playlists de madrugada, em legendas de post, em vídeos de desabafo, e ganhou uma segunda vida quando trechos passaram a circular em redes de vídeo curto, geralmente acompanhados de gente admitindo em texto o que a música admite em melodia.

Para quem chega pelo rock e pelo pop internacional, a linhagem é clara. "Normal Girl" pertence à mesma família emocional de Fiona Apple, Alanis Morissette e Amy Winehouse: mulheres que trataram a própria contradição como material bruto em vez de esconder. A textura de Ctrl, com guitarras sujas, baterias arrastadas e vocais deliberadamente imperfeitos, tem mais parentesco com indie rock do que com o R&B polido de rádio. E dentro do Brasil, a conversa é imediata com o que Xênia França, Liniker, IZA e uma geração inteira de vozes vêm fazendo ao misturar soul, confissão e crítica ao papel que se espera de uma mulher em público.

Por que ainda ressoa hoje

Porque o julgamento não acabou, ele só mudou de plataforma. A pergunta central da música, "eu sou o tipo de pessoa que alguém assume publicamente?", virou uma métrica visível. Aparecer ou não aparecer no perfil de alguém. Ser apresentada ou permanecer não nomeada. A ansiedade que SZA descreveu em 2017 hoje tem interface, notificação e contador.

E porque a canção oferece algo que autoajuda não oferece: permissão para querer a coisa errada. Ela não diz que você deveria se amar do jeito que é e seguir feliz. Ela admite que às vezes a gente quer mesmo ser aprovada, quer mesmo o jantar de domingo, quer mesmo o retrato na parede, e que esse desejo convive com a certeza de que ele custa uma parte da própria identidade. Reconhecer essa contradição sem resolvê-la é um gesto raro na música popular.

O paradoxo final é bonito. SZA construiu uma carreira gigantesca sendo especificamente aquilo que a música lamenta não ser: irregular, inconsistente, desconfortável, incapaz de se editar até virar padrão. Milhões de pessoas se identificaram justamente com a versão que ela achava impresentável. A garota normal, se algum dia existiu, nunca teria escrito essa faixa.


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