SONGFABLE · 2010

S&M

RIHANNA · 2010

TL;DR: Por baixo do batidão dance e do refrão escandaloso, "S&M" não é só sobre fetiche — é a declaração de uma estrela de 22 anos sobre dor, controle e prazer, transformando a relação tóxica entre a fama, a imprensa e ela mesma em uma pista de dança onde ela manda.
Listen elsewhere

We couldn't link a Spotify track for this story. Try searching the title on song.link to find it on your preferred service.

A verdade que ninguém te contou sobre essa música

Quando "S&M" estourou nas rádios e nas pistas em 2010, a leitura mais óbvia era a mais picante: uma popstar cantando abertamente sobre sadomasoquismo, sobre gostar de chicotes, correntes e do limite tênue entre dor e prazer. E sim, está tudo ali, sem subtexto nenhum. Mas a chave que muita gente passou batido é que a música, vista de outro ângulo, é uma alegoria sobre a relação da própria Rihanna com a fama e com a imprensa que a perseguia naquele período.

A leitura é da própria artista. Reza a lenda que Rihanna explicou, na época, que a faixa também falava sobre como a mídia a tratava — como ela amava e odiava ao mesmo tempo a atenção brutal dos tabloides, a forma como a imprensa "batia" nela e ela, de algum jeito perverso, ainda assim prosperava com isso. Em outras palavras: o sadomasoquismo da letra tem uma camada metafórica sobre estar presa num ciclo em que a dor pública vira combustível. Isso transforma uma música aparentemente bobinha e provocativa em algo bem mais afiado — uma jovem mulher dizendo, no auge da tempestade, que ela ia tomar conta da narrativa, nem que fosse pela porta dos fundos do escândalo.

Quem era a Rihanna de 2010, e por que essa música teve que existir

Para entender "S&M", você precisa lembrar onde Rihanna estava em 2010. Robyn Rihanna Fenty, nascida em Barbados em 1988, já era uma estrela global, mas tinha acabado de atravessar o período mais doloroso e exposto da sua vida. Em fevereiro de 2009, ela havia sido agredida fisicamente pelo então namorado Chris Brown, num caso que virou manchete no mundo inteiro. De um dia para o outro, a moça do hit "Umbrella" passou a ser a vítima de um caso de violência doméstica dissecado por cada tabloide do planeta. A foto policial dela vazou. Comentaristas opinavam sobre o corpo dela, sobre as escolhas dela, sobre se ela "tinha provocado" — uma das fases mais cruéis da máquina midiática.

O disco que veio na sequência, Rated R (2009), foi sombrio, raivoso, blindado. Já o álbum seguinte, Loud (2010), foi a virada de chave: cores fortes, cabelo vermelho-fogo, energia de festa, recuperação do prazer. E "S&M" é o coração provocador desse renascimento. A faixa foi escrita por Ester Dean e produzida pela dupla sueca Stargate, os mesmos arquitetos de vários hinos de Rihanna, junto com Sandy Vee. O resultado é um europop-dance pulsante, daqueles feitos para detonar em clube — e foi exatamente isso que aconteceu. A música alcançou o topo da Billboard Hot 100 nos Estados Unidos, virando mais um número 1 da artista.

Aqui vai o gancho para você, fã brasileiro de pop e rock internacional: 2010 e 2011 foram justamente os anos em que Rihanna se consolidou como presença gigantesca no Brasil. Em 2011, ela faria sua primeira passagem marcante por aqui, e a era Loud — com "S&M", "Only Girl (In the World)" e "What's My Name?" — foi a trilha sonora de incontáveis baladas brasileiras, daquelas pistas que misturavam pop internacional com a galera que também curtia o rock e a estética mais ousada. "S&M" tocava em festa universitária, em rádio pop, em playlist de pré-balada. Era impossível escapar daquele refrão grudento. Para muita gente da geração que cresceu nos anos 2010, essa música é parte do DNA sonoro da época.

O que a letra realmente diz (sem citar uma linha sequer)

A genialidade comercial de "S&M" está em embrulhar uma ideia transgressora numa embalagem de pura euforia pop. A narradora declara, sem rodeios, que sente atração pelo desconforto, que o que dói também dá prazer, e que ela não tem nenhuma vergonha disso. Ela brinca com a ideia de que o que a sociedade considera "errado" ou "demais" é justamente o que faz ela se sentir bem. Há uma celebração explícita de instrumentos e cenas associados ao universo BDSM — chicotes, correntes, a estética da submissão e do domínio — mas tudo tratado com leveza, quase como uma piada cúmplice entre ela e quem ouve.

Só que, por baixo dessa provocação, mora a tal segunda camada. Quando a narradora canta sobre adorar ser machucada, sobre o quanto a punição a excita, dá para ler como a relação dela com a exposição pública. Ela reconhece que conversa demais virou alvo de fofoca, que viraram assunto coisas que deveriam ser privadas, e que esse falatório constante a cerca por todos os lados. A confissão central é desconcertante: em vez de fugir da dor da fama, ela admite que de algum modo se alimenta dela, que aprendeu a transformar o sofrimento da superexposição em força e prazer. É uma postura de quem decidiu não ser vítima passiva — se vão me bater (metaforicamente, com manchetes), então eu vou gostar disso nos meus termos e dançar em cima.

Há ainda um terceiro nível, mais sutil: o de empoderamento sexual feminino. Em 2010, uma mulher negra, jovem, vinda do Caribe, afirmando o próprio desejo de forma tão direta e sem pedir desculpas era, em si, um gesto político. A narradora não está sendo objetificada por outra pessoa; ela é o sujeito que deseja, que escolhe, que dita as regras do prazer. Esse deslocamento de poder é o que dá à faixa uma espinha dorsal mais forte do que o refrão de festa deixa transparecer.

Polêmica, clipe banido e o lugar de "S&M" na cultura

Como tudo que é provocador, a música veio com guerra. O título sozinho já causava: a sigla "S&M" remete diretamente a "sadism and masochism" (sadismo e masoquismo). Em vários mercados, as rádios tocaram a faixa com um título alternativo, mais palatável, para driblar a censura e o desconforto dos anunciantes. Foi uma daquelas situações clássicas em que a indústria quer o hit, mas tem medo do nome dele.

O clipe, dirigido por Melina Matsoukas, jogou ainda mais lenha na fogueira. Visualmente exagerado, cheio de plástico, jornalistas amordaçados, cores berrantes e cenas de bondage estilizadas, o vídeo era uma sátira escancarada à relação tóxica entre a imprensa e as celebridades. Repórteres apareciam como cães na coleira, manchetes maldosas eram literalizadas — Rihanna estava devolvendo o golpe, transformando a perseguição da mídia em espetáculo controlado por ela. O clipe foi banido ou restrito em vários países e plataformas pela carga sexual, o que, claro, só aumentou a curiosidade e o alcance. Para piorar (ou melhorar, do ponto de vista do buzz), a fotógrafa David LaChapelle reportadamente processou a produção alegando que o vídeo copiava elementos do estilo visual dele — uma disputa que, dizem, acabou em acordo.

No fim das contas, "S&M" cravou seu lugar como um marco da era em que Rihanna deixou de ser apenas uma cantora de hits e virou uma provocadora cultural deliberada, alguém que usava o choque como ferramenta artística e estratégica. A faixa ganhou ainda mais fôlego com um remix estrelado por ninguém menos que Britney Spears, num encontro de duas titãs do pop que selou o status de evento da música.

Por que essa música ainda funciona hoje

Mais de uma década depois, "S&M" continua tocando em pista, em playlist nostálgica, em retrospectiva dos anos 2010 — e não é só por inércia. A produção da Stargate envelheceu surpreendentemente bem: aquele europop dançante, com sintetizadores grandes e batida implacável, é exatamente o tipo de som que voltou à moda com a onda recente de nostalgia pelo pop daquela década. Quando a faixa entra numa festa, a pista reage na hora, independentemente da idade de quem está dançando.

Mas a relevância mais profunda está na mensagem. A discussão sobre a relação predatória entre fama, redes sociais e saúde mental nunca esteve tão viva. Hoje, com documentários reabrindo casos de como a mídia tratou mulheres jovens nos anos 2000 e 2010 — pense em todo o reexame público em torno de figuras que foram trituradas pelos tabloides —, a camada metafórica de "S&M" soa quase profética. Rihanna estava, no calor do momento, fazendo uma crítica que só ganhou consenso anos depois. Ela transformou a própria dor de estar sob o microscópio numa arma de palco, e isso, em retrospecto, parece um ato de soberania impressionante para uma mulher de 22 anos.

E tem a questão do desejo sem pedido de desculpas, que continua sendo uma fronteira viva. A naturalidade com que a faixa fala de prazer feminino, de gostos considerados tabu, de quem manda na própria sexualidade, ainda soa libertadora. Para o público brasileiro, que sempre teve uma relação intensa com o corpo, a festa e a celebração da sensualidade, "S&M" se encaixa quase como uma luva — uma música estrangeira que conversa com uma certa alegria carnal muito nossa. É escandalosa, sim, mas é também profundamente divertida, e essa combinação raramente sai de moda.


Como mergulhar mais fundo

🎧 Mergulhe no som

📚 Acompanhe a história

🌍 Visite os lugares

🎸 Viva a experiência


🎵 Ouça esta música

🤖 Pergunte mais:

Tags
10s