SONGFABLE · 1983

It's Like That

RUN-DMC · 1983 · HOLLIS, QUEENS, NOVA YORK, USA

TL;DR: Longe de ser uma festa, "It's Like That" é um retrato seco e realista da vida dura de gente comum nos Estados Unidos do começo dos anos 80 — desemprego, guerra, desigualdade — cantado com a lógica fria de quem aceita que a vida é assim mesmo e ainda assim segue em frente.
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Um single de estreia que soava como nada antes

Imagine ligar o rádio em 1983 e, no meio de um mar de sintetizadores brilhantes, baterias eletrônicas fofas e refrões grudentos de pop dançante, ouvir de repente um baque seco, quase brutal: uma caixa de bateria martelando como um soco, dois rapazes gritando frases curtas em cima, e absolutamente nenhum enfeite. Nenhum baixo funky escorregadio, nenhuma linha de teclado açucarada. Era isso. Era "It's Like That", o single de estreia de três jovens do Queens, em Nova York, e ele parecia mais uma denúncia do que uma música.

A grande surpresa dessa faixa é que ela não veio para animar ninguém. Enquanto o rap de festa dos anos 70 e do começo dos 80 falava de se divertir, de dançar a noite toda e de esbanjar estilo, Run-DMC chegou dizendo, na prática, que a vida é dura, injusta e cheia de coisas que não temos como controlar — e que a única resposta possível é encarar de frente. O refrão, que dá título à faixa, funciona como um encolher de ombros filosófico: as coisas são como são, e a vida continua. É quase estoicismo de esquina.

Três garotos de Hollis, Queens, e o som que eles inventaram

Run-DMC nasceu em Hollis, um bairro de classe trabalhadora no distrito do Queens, em Nova York. O grupo era formado por Joseph "Run" Simmons, Darryl "DMC" McDaniels e Jason "Jam Master Jay" Mizell. Run e DMC eram amigos de infância, garotos que curtiam rimar por diversão, e Jam Master Jay era o DJ que amarrava tudo com uma presença de palco magnética. Um detalhe importante nos bastidores: o irmão mais velho de Joseph, Russell Simmons, já estava mergulhado no mundo da música e viria a se tornar um dos empresários mais poderosos do hip-hop, cofundando a lendária gravadora Def Jam. Foi essa combinação de talento cru e faro comercial de família que ajudou o grupo a furar a bolha.

O que eles fizeram com "It's Like That" e com o lado B, "Sucker M.C.'s", foi tão radical que os historiadores costumam marcar ali o início de uma nova era: o chamado "new school" do hip-hop. Eles jogaram fora os figurinos brilhantes e as roupas de palco espalhafatosas dos pioneiros e apareceram vestidos exatamente como os garotos da rua — jaquetas de couro pretas, calças jeans, chapéus-coco (os "godfather hats") e, principalmente, tênis Adidas Superstar sem cadarço. Era a rua subindo ao palco sem pedir licença.

Aqui vale uma ponte para o público brasileiro que ama rock e pop internacional: se você acompanhou a explosão do rap nacional nos anos 90 e 2000 — dos Racionais MC's a tantos grupos que transformaram a periferia de São Paulo, do Rio e de outras capitais em matéria-prima poética — vale saber que a atitude que Run-DMC estabeleceu é parte da fundação de tudo isso. A ideia de que o rap podia ser um jornalismo cru da desigualdade, uma crônica sem maquiagem da vida de quem tem pouco, começou a ganhar força mundial justamente com faixas como esta. Quando o hip-hop desembarcou no Brasil, ele já carregava esse DNA de denúncia social que Run-DMC ajudou a codificar.

O que a letra realmente diz (sem citar uma linha)

O coração de "It's Like That" é uma lista de problemas do mundo real, apresentados quase como manchetes de jornal recitadas em ritmo. A música fala de dinheiro que some, de contas que não param de chegar, do custo de vida que aperta cada vez mais. Fala de pessoas que estudam, se esforçam e mesmo assim não conseguem trabalho, e de como a falta de perspectiva pode empurrar os jovens para caminhos perigosos. Menciona a guerra, a fome, a doença e a desigualdade que separa quem tem muito de quem não tem quase nada.

Mas o gênio da faixa está em como ela equilibra esse peso. A cada dificuldade apresentada, o refrão responde com aquela sentença de resignação madura — as coisas são assim, e a vida segue. À primeira vista pode soar como desistência, como conformismo. Só que, ouvindo com atenção, percebe-se que não é bem isso. É mais uma recusa a se afogar no desespero. A mensagem embutida é quase de autoajuda das ruas: reclamar não muda a realidade, então é melhor manter a cabeça erguida, continuar tentando, buscar melhorar de vida em vez de culpar o mundo. Há inclusive um trecho da narrativa que aconselha o ouvinte a não deixar que os outros o rebaixem, a acreditar no próprio valor e a seguir em frente apesar de tudo.

É uma dialética interessante: a música descreve um mundo cruel com um realismo quase documental, mas se recusa a ser derrotista. Ela reconhece a injustiça sem pedir pena e sem prometer utopia. Essa honestidade dura, sem falso otimismo nem vitimização, é exatamente o que fez tanta gente se identificar. Não era um sermão nem um choro — era um espelho.

O contexto cultural: o momento em que o rap virou gente grande

Para entender o impacto, é preciso lembrar como estava o cenário. No começo dos anos 80, muita gente ainda tratava o hip-hop como uma moda passageira, coisa de festa de bairro que logo iria desaparecer. As gravações da época costumavam usar bandas ao vivo imitando o groove do disco e do funk. "It's Like That" quebrou esse molde ao apostar numa batida eletrônica minimalista, dura e agressiva, feita sob medida para as vozes e não o contrário. Reportou-se que a produção enxuta foi uma escolha estética deliberada, e não falta de recursos: eles queriam que a mensagem batesse como um martelo.

O grupo também mudou a maneira de rimar. Run e DMC trocavam frases, terminavam as linhas um do outro, gritavam em uníssono para dar ênfase. Essa técnica de vozes que se completam virou marca registrada e influenciou gerações inteiras de MCs. E o visual, como já foi dito, transformou o Adidas Superstar num símbolo cultural — anos depois, o grupo faria história ao fechar um contrato milionário de patrocínio com a marca alemã, algo inédito para artistas de hip-hop e um marco na relação entre música e mercado.

Curiosamente, a própria "It's Like That" teve uma segunda vida espetacular. Em 1997, o DJ e produtor Jason Nevins fez um remix house da faixa que estourou nas pistas do mundo inteiro, chegando ao topo das paradas em vários países da Europa e vendendo milhões de cópias. Muita gente que dançou aquele remix nas boates dos anos 90 nem imaginava que estava ouvindo, na base, um manifesto social gravado quinze anos antes por três garotos do Queens. Essa jornada — de denúncia crua a hino de balada global — diz muito sobre a força e a flexibilidade da faixa original.

Por que ainda ressoa hoje

Passadas mais de quatro décadas, o desconforto é que "It's Like That" continua atual demais. Os problemas que a música lista — desemprego, custo de vida nas alturas, desigualdade escancarada, guerras que não terminam, jovens sem perspectiva — não são exatamente relíquias históricas. Qualquer ouvinte, em qualquer país, pode ligar essas manchetes à realidade que vê ao redor. Essa é a maldição e a grandeza da faixa: ela envelheceu bem justamente porque o mundo não resolveu nada do que ela apontava.

Para o público brasileiro, há uma ressonância especial. A ideia de manter a dignidade e a esperança mesmo quando a estrutura toda parece jogar contra você é um tema que atravessa boa parte da música popular do país, do samba de raiz ao rap nacional. Aquela mistura de lucidez sobre a injustiça e recusa em se entregar ao desânimo é uma atitude profundamente reconhecível para quem cresceu ouvindo artistas que transformaram dificuldade em arte.

E há também a lição estética. "It's Like That" prova que menos pode ser muito mais. Numa era de produções cada vez mais recheadas e sofisticadas, voltar a essa batida seca, a essas vozes cruas, a essa recusa ao enfeite, é um lembrete poderoso de que a verdade às vezes soa melhor quando não tem para onde se esconder. A faixa não pede que você concorde com o fatalismo do refrão — ela pede que você olhe o mundo de frente e decida o que vai fazer a respeito. E isso, convenhamos, nunca sai de moda.


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