Take On Me
We couldn't link a Spotify track for this story. Try searching the title on song.link to find it on your preferred service.
Take On Me - a-ha (1985)
TL;DR: Aquele hino synth-pop dos anos 80 que todo mundo tenta cantar no falsete impossível foi, na verdade, um fracasso comercial duas vezes seguidas antes de virar um dos maiores sucessos da história — e seu segredo não estava na melodia, mas num videoclipe desenhado à mão que levou quatro meses para ficar pronto.
A faixa que ninguém quis ouvir (até quererem demais)
Existe uma ideia errada de que "Take On Me" nasceu pronta, descendo do céu como um presente perfeito do pop. A realidade é bem mais teimosa. A música que hoje acumula bilhões de execuções e que você reconhece nos primeiros três segundos de teclado foi lançada não uma, mas duas vezes, e fracassou retumbantemente nas duas. Os três noruegueses por trás dela quase desistiram. Foi só na terceira tentativa — com um arranjo refeito e, sobretudo, um videoclipe revolucionário — que o mundo finalmente decidiu prestar atenção.
Essa é a primeira surpresa de "Take On Me": ela é menos a história de um talento óbvio e mais a história de uma obstinação quase irracional. Morten Harket, Magne Furuholmen e Paul Waaktaar-Savoy acreditavam tão fundo naquela melodia que se recusaram a deixá-la morrer. E quando você ouve aquele refrão hoje, com o vocal de Harket subindo até a estratosfera, está ouvindo o som de três pessoas que se recusaram a aceitar um "não".
Três noruegueses e um sonho que não cabia em Oslo
Para entender de onde veio "Take On Me", é preciso entender de onde veio o a-ha: da Noruega, um país que, em 1985, simplesmente não exportava estrelas pop globais. A música pop internacional era dominada por britânicos, americanos e, no máximo, suecos (o ABBA havia aberto uma fresta na década anterior). Um trio de Oslo sonhando em conquistar as paradas inglesas e americanas soava, na época, como um plano levemente delirante.
O embrião da canção é ainda mais antigo do que o lançamento de 1985. Reza a lenda que o riff de teclado característico nasceu de uma banda anterior chamada Bridges, formada por Magne e Paul quando eram adolescentes. A melodia ficou guardada por anos, mudou de nome, foi reescrita, e só ganhou sua forma definitiva quando o a-ha se mudou para Londres em busca de um contrato. Eles chegaram à capital britânica praticamente sem dinheiro, dormindo apertados, batendo na porta de gravadoras. A música tinha até um título de trabalho diferente antes de virar "Take On Me".
A primeira versão saiu em 1984 e passou completamente despercebida. A banda e a gravadora, a Warner, não desistiram: regravaram a faixa com o produtor Alan Tarney, deram a ela um som mais brilhante e empurraram de novo. Segundo fracasso. Foi nesse ponto que alguém da gravadora tomou a decisão que mudaria tudo — investir pesado em um videoclipe diferente de qualquer coisa que existia.
O gancho para o ouvinte brasileiro: quem cresceu no Brasil dos anos 80 e 90 viveu a era de ouro dos videoclipes na TV, primeiro através de programas que importavam a MTV americana e depois com a chegada da MTV Brasil em 1990. "Take On Me" foi exatamente o tipo de clipe que fez essa cultura existir — uma obra que transformava a televisão num portal de imaginação. Aquela animação em preto e branco, misturando lápis e atores reais, foi reprisada à exaustão e marcou gerações de brasileiros que aprenderam inglês meio sem querer tentando decifrar o que Morten Harket cantava. A faixa também encontrou casa nas rádios FM brasileiras voltadas ao flashback, onde até hoje divide espaço com clássicos da new wave.
O que a letra realmente diz (sem citar uma linha sequer)
Por baixo de toda a euforia sonora, "Take On Me" guarda uma mensagem surpreendentemente vulnerável e insegura. A letra é, no fundo, um apelo nervoso de alguém pedindo a outra pessoa que arrisque ficar com ele — apesar do medo, apesar da incerteza, apesar de saber que talvez não dê certo.
O eu-lírico admite que não é nenhum especialista em conversa fiada, que as palavras não saem do jeito que ele gostaria. Há uma timidez confessa ali, uma consciência de que ele pode estar dizendo bobagem. Mesmo assim, ele insiste, porque o sentimento é maior que o desconforto. A canção fala sobre dar um passo na direção do outro, sobre o tempo que escapa entre os dedos enquanto hesitamos, sobre a urgência de agarrar uma conexão antes que ela desapareça.
O próprio título carrega essa ambiguidade carinhosa. "Take on me" funciona quase como um convite torto, um "fica comigo", um "aposta em mim", um "me aceita". E há aquele complemento famoso, "I'll be gone" ("eu vou embora"), que injeta uma dose de melancolia: a oferta vem com prazo de validade. É amor com pressa, com medo da perda já embutido na declaração. Essa tensão entre a explosão alegre da música e a fragilidade da letra é parte do que torna a faixa tão grudenta emocionalmente. Você dança com ela e, sem perceber, está dançando com a ansiedade de quem não quer ser deixado para trás.
Curiosamente, o videoclipe traduziu essa ideia de forma quase literal: uma jovem numa lanchonete é puxada para dentro de um mundo de desenho a lápis, onde vive um romance com o herói da história em quadrinhos. Os dois mundos — o real e o desenhado — lutam para ficar juntos, e a barreira entre eles é exatamente o "take on me" feito imagem. O risco, a fronteira, o salto de fé. A narrativa visual e a letra dizem a mesma coisa por caminhos diferentes.
O videoclipe que reescreveu as regras
É impossível falar de "Take On Me" sem falar do seu clipe, porque foi ele, mais do que a música, que rompeu a barreira do sucesso. Dirigido por Steve Barron — o mesmo nome por trás de clipes icônicos da época — o vídeo usou uma técnica chamada rotoscopia, na qual cada quadro filmado é redesenhado à mão por cima. Estima-se que cerca de quatro mil desenhos tenham sido produzidos ao longo de aproximadamente quatro meses de trabalho. O resultado foi algo que ninguém tinha visto: atores reais que viravam esboços animados e vice-versa, transitando entre a carne e o papel.
Quando estreou na recém-criada MTV, o clipe virou fenômeno instantâneo. Ele ganhou seis prêmios no MTV Video Music Awards de 1986 e ajudou a empurrar a música ao topo das paradas — incluindo o número um na Billboard Hot 100 nos Estados Unidos, uma façanha histórica para uma banda norueguesa. De repente, aqueles três rapazes que ninguém queria gravar estavam estampados nos quartos de adolescentes do mundo inteiro, e o rosto de Morten Harket, com seus traços de modelo, tornou-se um dos mais reconhecíveis do pop.
Vale registrar uma curiosidade técnica que vira motivo de orgulho e de desespero em festas até hoje: aquela nota altíssima que Harket alcança no refrão. Diz-se que ele atinge um falsete numa região vocal raríssima para a música pop, algo que pouquíssimos cantores conseguem reproduzir ao vivo sem treinamento. É por isso que toda tentativa amadora de cantar "Take On Me" termina, invariavelmente, num guincho engraçado bem na hora do clímax. A música embutiu, na própria estrutura, uma armadilha deliciosa para quem se atreve.
Por que ela atravessou décadas sem envelhecer
Há músicas dos anos 80 que soam datadas, presas num verniz de sintetizadores que hoje parecem ingênuos. "Take On Me" pertence ao grupo oposto: aquelas que envelheceram como se fossem atemporais. Parte disso é a qualidade da composição — a melodia é tão sólida que funciona em qualquer arranjo. Não é à toa que ela ganhou releituras das mais variadas. A versão acústica que o a-ha gravou para o programa MTV Unplugged, décadas depois, revelou que, despida de todo o brilho oitentista, a canção continuava emocionando — talvez até mais, expondo a tristeza que sempre esteve escondida sob a batida dançante.
A faixa também ganhou novas vidas no cinema e nos games. Ela apareceu de forma marcante em filmes que jogaram com a nostalgia dos anos 80 e foi recriada em jogos como a série Rock Band, apresentando-se a uma geração que nem havia nascido quando o clipe original passou na TV. Essa capacidade de se reinventar para públicos novos é a marca de um clássico de verdade.
Mas o que realmente faz "Take On Me" continuar batendo no peito é a honestidade emocional escondida ali. Por trás da fachada de hino dançante, ela fala de algo profundamente humano e universal: o medo de se declarar, a coragem de arriscar, a urgência de não deixar o tempo passar. Qualquer pessoa que já gostou de alguém e não soube o que dizer reconhece esse sentimento. A música transforma essa hesitação tímida numa explosão de alegria — e talvez seja exatamente por isso que ela funciona. Ela pega a parte mais frágil de nós e a faz dançar.
Para o público brasileiro, que tem uma relação tão íntima com a música que mistura euforia e melancolia — pense em como o próprio samba e a bossa nova convivem com a saudade —, essa dualidade de "Take On Me" soa estranhamente familiar. Não é uma canção apenas para pular; é uma canção para sentir enquanto se pula. E poucas coisas resumem melhor o que era ser jovem nos anos 80: cheio de medo, mas dançando assim mesmo.
Como mergulhar mais fundo
🎧 Mergulhe no som
- a-ha Hunting High and Low vinil — O álbum de estreia que abriga "Take On Me" em sua forma original. Ouvir o disco inteiro revela um a-ha mais sombrio e melódico do que o single sugere, com faixas que merecem tanto carinho quanto o hino que abriu as portas.
- a-ha MTV Unplugged Summer Solstice — A versão acústica que despe a canção de todo o brilho synth e expõe a melancolia que sempre esteve lá. É a prova definitiva de que a composição se sustenta sem nenhum truque de produção.
- a-ha greatest hits CD — Uma coletânea para descobrir que a banda foi muito além de um sucesso único, com clássicos como "The Sun Always Shines on T.V." e "Hunting High and Low" merecendo seu tempo.
📚 Acompanhe a história
- a-ha The Swing of Things biography book — Uma biografia que conta a saga improvável de três noruegueses tentando furar a bolha do pop anglo-americano. Os bastidores das duas tentativas fracassadas dão ainda mais valor ao sucesso final.
- I Want the One I Can't Have 80s music book — Para entender o ecossistema do synth-pop e da new wave que tornou possível um fenômeno como "Take On Me". Coloca a banda no contexto de uma década inteira de experimentação sonora.
- MTV history book music video revolution — A história do canal que transformou o videoclipe em arma comercial. Sem a MTV e sem aquele clipe rotoscopado, "Take On Me" talvez nunca tivesse saído do anonimato.
🌍 Visite os lugares
- Norway Oslo travel guide — Conheça a cidade que viu o a-ha nascer, um lugar improvável para o ponto de partida de um fenômeno pop global. Oslo dos anos 80 era tudo menos uma capital da música internacional.
- London travel guide book — A cidade onde a banda apostou tudo, dormindo apertada e batendo de porta em porta nas gravadoras. Londres foi o palco da virada de sorte que mudou suas vidas.
- Norway music culture book — Um mergulho na cena cultural norueguesa que, depois do a-ha, ganhou confiança para exportar artistas ao mundo. A trilha que eles abriram foi seguida por muitos.
🎸 Experimente você mesmo
- synthesizer keyboard for beginners — Aquele riff icônico de teclado é o coração da faixa. Com um sintetizador acessível, você pode tentar recriar a sequência que abre a música e descobrir como poucas notas viraram um dos sons mais reconhecíveis do planeta.
- a-ha piano sheet music — Partituras para quem quer ir além de tocar de ouvido. Tocar a progressão revela a engenhosidade melódica escondida sob a superfície dançante.
- vocal technique falsetto training book — Se você sonha em alcançar aquela nota impossível do refrão sem desafinar, um guia de técnica vocal é o primeiro passo. Saiba desde já: Morten Harket colocou a fasquia num lugar quase inalcançável.
🤖 Pergunte mais:
- Como o videoclipe de "Take On Me" foi feito com a técnica de rotoscopia?
- Por que o a-ha teve tanta dificuldade para emplacar a música antes do sucesso?
- Quais outras músicas dos anos 80 usaram videoclipes para virar sucesso?