SONGFABLE · 2022

Something in the Orange

ZACH BRYAN · 2022

TL;DR: Por trás da imagem bonita de um pôr do sol, "Something in the Orange" é o retrato de um homem que se recusa a aceitar que o amor acabou e fica parado na estrada, olhando para o céu alaranjado, sem saber se aquela luz anuncia o fim do dia ou a volta de quem foi embora.
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A canção mais triste que já pareceu um cartão-postal

Quem ouve "Something in the Orange" pela primeira vez costuma pensar em paisagem: estrada de terra, céu pegando fogo no horizonte, uma picape parada no acostamento. É uma imagem tão bonita que muita gente usou a música como trilha de vídeos de viagem, de casamento, de fim de tarde na praia. Só que a verdade escondida ali dentro é outra, bem mais dolorida. A canção não celebra o pôr do sol. Ela usa o pôr do sol como um teste de fé.

O narrador está esperando alguém que já foi embora. Ele sabe, lá no fundo, que essa pessoa provavelmente não vai voltar. Mesmo assim, ele fica olhando para aquele laranja no céu tentando decifrar um sinal. E aqui está o golpe de mestre de Zach Bryan: o laranja do entardecer e o laranja do amanhecer são praticamente a mesma cor. Quem está desesperado consegue enxergar esperança onde só existe despedida. A música inteira mora nessa ambiguidade, nesse instante em que a luz pode significar tanto "acabou" quanto "vai recomeçar".

É por isso que ela pega tão fundo. Não é uma canção sobre um coração partido de forma dramática, com gritos e portas batendo. É sobre aquele estágio silencioso e teimoso do luto amoroso, quando a gente ainda negocia com a realidade.

Do porta-aviões para os palcos

Para entender de onde vem essa voz rouca e sem verniz, é preciso conhecer a história improvável de Zach Bryan. Ele nasceu em 1996 em Okinawa, no Japão, numa família ligada à Marinha dos Estados Unidos, e cresceu em Oologah, uma cidadezinha no interior de Oklahoma. Aos 17 anos, seguindo a tradição familiar, alistou-se na Marinha, onde passou cerca de oito anos trabalhando com armamento de aviação.

Foi nos intervalos dessa vida militar que ele começou a compor. Em 2016, perdeu a mãe, e o luto virou combustível para as primeiras canções. Seu disco de estreia, lançado de forma independente em 2019, levava justamente o nome dela: DeAnn. Ele gravava com amigos, com equipamento simples, às vezes literalmente do lado de fora do alojamento, de madrugada. Um desses vídeos caseiros, da música "Heading South", viralizou nas redes sociais e mudou tudo. De repente, aquele marinheiro que cantava como quem desabafa num bar vazio tinha milhões de pessoas escutando.

Em 2021, Bryan assinou com a Warner Records e recebeu baixa honrosa da Marinha para se dedicar à música. O que veio em seguida foi American Heartbreak, lançado em maio de 2022: um álbum triplo com 34 faixas, um gesto quase insano numa era de singles curtos e playlists. "Something in the Orange" foi o carro-chefe desse projeto. Segundo relatos da época, trechos da canção já circulavam nas redes do artista meses antes do lançamento oficial, e os fãs passaram um bom tempo implorando pela versão completa, o que ajudou a transformar a estreia num evento.

E aqui vem um gancho que o público brasileiro vai reconhecer na hora. Se existe um país que entende a ideia de transformar dor de cotovelo em hino coletivo, é o Brasil. O que Zach Bryan faz no country americano tem um parentesco claro com a sofrência sertaneja, aquela tradição que Marília Mendonça levou ao topo cantando sobre traição, saudade e orgulho ferido. A diferença está no tom: onde a sofrência muitas vezes explode, com o copo na mão e o refrão gritado em coro, Bryan sussurra. Mas a raiz é a mesma, a do modão de viola, do homem do interior que não sabe conversar sobre sentimento e por isso canta. Não é exagero dizer que, se "Something in the Orange" tivesse nascido em Goiás, teria virado clássico de rodeio.

Decifrando o laranja

A estrutura da música é simples, quase espartana: violão dedilhado, uma voz que parece gravada no quarto, e um crescendo lento que só se permite explodir perto do fim. Essa economia é proposital. Nada distrai o ouvinte daquilo que está sendo dito.

Na primeira parte, o narrador descreve a sensação de ver alguém se afastar. Ele percebe que a pessoa amada está indo embora, mas não consegue dizer nada que a faça ficar. Há uma passividade dolorosa ali, como se ele soubesse que qualquer palavra seria inútil. Em vez de lutar, ele promete esperar.

Depois vem a imagem central. Ele afirma ter certeza de que há algo naquele laranja do céu, algo que indica que a pessoa vai voltar. Essa certeza, porém, soa frágil. É o tipo de convicção que a gente repete em voz alta justamente porque não acredita totalmente nela. O narrador se agarra a um fenômeno natural, que não tem nada a ver com ele, como se o universo tivesse a obrigação de lhe mandar um recado.

Há também uma sugestão de culpa. Em certos momentos, a letra dá a entender que ele próprio teve participação no fim, que talvez tenha deixado a relação esfriar ou tenha sido orgulhoso demais. Isso dá profundidade ao personagem: ele não é só vítima, é alguém tentando lidar com o peso das próprias escolhas enquanto finge que tudo ainda pode ser consertado.

No trecho final, a ambiguidade atinge o ápice. O narrador parece admitir que, se a pessoa não voltar, ele vai precisar seguir em frente, mas a frase nunca se completa de verdade. A música termina sem resolução, exatamente como acontece na vida. O sol se põe, a noite chega, e a gente nunca descobre se o amanhecer trouxe alguém de volta.

Muitos fãs interpretam o laranja de formas diferentes. Alguns veem nele a cor do fim, o último brilho antes da escuridão. Outros enxergam o oposto: a promessa da manhã seguinte. Há quem leia a canção até como uma metáfora sobre a morte e o luto, conectando-a à perda da mãe de Bryan, embora o próprio artista, ao que consta, nunca tenha confirmado essa leitura de forma explícita. Essa abertura é uma das razões do sucesso: cada ouvinte coloca no laranja a sua própria perda.

Do TikTok ao Grammy

O impacto de "Something in the Orange" foi enorme, sobretudo considerando que se trata de uma balada lenta, sem batida eletrônica, sem participação especial, sem nenhuma das fórmulas que costumam empurrar uma música para as paradas. Ela entrou no Top 10 da Billboard Hot 100, algo raro para uma faixa country tão crua, e acumulou certificações múltiplas de platina nos Estados Unidos. Nas plataformas de streaming, passou a casa de centenas de milhões de reproduções e, segundo relatos, chegou a ultrapassar a marca do bilhão no Spotify.

A canção também rendeu a Zach Bryan sua primeira indicação ao Grammy, na categoria de Melhor Performance Solo de Country, na cerimônia de 2023. Não ganhou, mas a indicação teve peso simbólico: confirmou que um artista que começou gravando vídeos do lado de fora de um quartel tinha se tornado uma das vozes centrais da música americana.

Mais importante do que os números, porém, foi o que ela representou culturalmente. "Something in the Orange" virou bandeira de uma nova onda do country, às vezes chamada de "red dirt" ou de country alternativo, que valoriza a autenticidade acima da produção polida de Nashville. Ao lado de nomes como Tyler Childers, Jason Isbell e Colter Wall, Bryan ajudou a provar que existe um público gigantesco, inclusive jovem, faminto por canções que soam como confissões reais.

A música também atravessou fronteiras de gênero. Fãs de rock, de folk e até de indie pop, que nunca tinham ouvido uma faixa country inteira, se renderam a ela. No Brasil, a canção circulou bastante em vídeos curtos e playlists de "músicas para chorar na estrada", e ajudou a apresentar Bryan a uma geração que associava o country americano apenas a chapéus e caminhonetes. Existe inclusive uma versão alternativa da faixa, conhecida como "Z&E's Version", que muitos fãs consideram ainda mais íntima.

Outro detalhe que reforçou a mística foi a postura de Bryan diante da indústria. Ele ficou conhecido por brigar contra os preços abusivos de ingressos e chegou a lançar um álbum ao vivo gravado no anfiteatro de Red Rocks, no Colorado, com o título provocador All My Homies Hate Ticketmaster. Essa imagem de artista que fala o que pensa combina perfeitamente com a honestidade sem filtro de "Something in the Orange".

Por que ainda dói ouvir

Alguns anos depois do lançamento, a música continua aparecendo em playlists, em vídeos de fim de namoro, em rodas de violão. Por quê?

Primeiro, porque ela fala de algo universal que quase nenhuma canção aborda com tanta precisão: a fase da negação. Todo mundo que já terminou um relacionamento conhece aquele período em que a cabeça sabe que acabou, mas o coração continua procurando sinais. A mensagem que não chega, o carro que parece o dela passando na rua, o pôr do sol que parece dizer alguma coisa. Bryan pegou essa sensação difusa e deu a ela uma cor.

Segundo, porque a canção é honesta sobre a própria fragilidade. Ela não oferece lição de moral, não termina com superação, não promete que tudo vai ficar bem. Numa época em que tanta música pop transforma o término em empoderamento instantâneo, "Something in the Orange" permite que o ouvinte simplesmente fique triste por um tempo. Isso é raro e precioso.

Terceiro, porque o som dela é atemporal. Violão, voz e silêncio não envelhecem. Daqui a vinte anos, a faixa vai soar tão crua quanto soou em 2022, do mesmo jeito que as gravações antigas de Johnny Cash ou de Tião Carreiro e Pardinho continuam tocando gente que nem era nascida quando foram lançadas.

E, por fim, porque todos nós temos um laranja particular. Pode ser um entardecer na Marginal, um fim de tarde no Arpoador, o céu de uma estrada no interior de Minas. Em algum momento da vida, cada um de nós já ficou olhando para o horizonte esperando que a luz trouxesse uma resposta. Zach Bryan apenas teve a coragem de colocar isso numa canção.


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