SONGFABLE · 2018

Praise The Lord (Da Shine)

A$AP ROCKY · 2018

TL;DR: Aquele riff de flauta hipnótico que fez o mundo inteiro cantar não veio de um instrumento sagrado nem de uma gravação exótica — ele saiu de um pacote de sons prontos do GarageBand, o programa que já vem no seu Mac. É a prova viva de que atitude vale mais que orçamento.
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O gancho que ninguém esperava

Imagine a cena: uma flauta andina, aguda e insistente, entra flutuando sobre um grave pesado. Você não sabe português, inglês ou grime britânico, mas mesmo assim começa a balançar a cabeça. É assim que "Praise The Lord (Da Shine)" prende qualquer pessoa nos primeiros três segundos. A grande sacada, porém, é o que está por trás desse gancho: aquele som de flauta que parece vir de uma trilha épica de filme foi, na verdade, retirado de um pacote de amostras chamado "World Music" que a Apple distribui de graça dentro do GarageBand, o software de gravação caseira que vem instalado em milhões de computadores.

O nome do arquivo original, segundo relatos, seria algo tão prosaico quanto "Andean Stroll Panpipe" — literalmente um som de flauta de pã pensado para amadores brincarem em casa. Nas mãos de Skepta, o rapper e produtor britânico que assina a faixa, essa amostra banal virou um dos ganchos mais reconhecíveis do hip-hop da década. Essa é a alma da música: transformar o comum em algo triunfante. É exatamente o que a palavra "shine" (brilhar) do título quer dizer.

Dois lados do Atlântico dentro de uma faixa

Para entender por que essa música soa tão diferente, é preciso conhecer os dois homens que a construíram. De um lado está A$AP Rocky, nome artístico de Rakim Mayers, criado no Harlem, em Nova York — o mesmo bairro que deu ao mundo o jazz do início do século e uma tradição inteira de reinvenção negra. Rocky sempre foi o dândi do rap: alguém tão obcecado por moda e estética quanto por rima, um artista que trata cada disco como uma coleção de passarela. Em 2018 ele lançou "Testing", seu terceiro álbum de estúdio, um projeto propositalmente experimental, cheio de texturas estranhas e colaborações inesperadas. "Praise The Lord" foi o segundo single desse disco e acabou virando, disparado, a faixa mais popular dele.

Do outro lado do oceano está Skepta, nome de batismo Joseph Adenuga, filho de nigerianos criado em Tottenham, no norte de Londres. Skepta é um dos padrinhos do grime, aquele gênero britânico acelerado e cru que nasceu nas rádios piratas e nos conjuntos habitacionais da capital inglesa. Ele não só canta o refrão da música como assina sozinho a produção do beat. Ou seja: o som americaníssimo do Harlem foi, na prática, desenhado por um londrino. Essa ponte transatlântica é o coração da faixa — o suingue relaxado de Nova York encontrando a frieza afiada de Londres.

Para o ouvinte brasileiro que curte rock e pop internacional, vale um detalhe que aproxima essa história: A$AP Rocky é figura carimbada nos grandes festivais do país. Ele já pisou em palcos brasileiros diante de multidões que cantaram justamente esse refrão de flauta em coro, sem precisar entender uma palavra. E tem uma coincidência bonita aqui: o Brasil é uma terra onde a flauta sempre teve papel de protagonista, do choro de Pixinguinha à MPB. Ver uma flautinha barata virar o centro de um hit global de rap é o tipo de alquimia que qualquer fã de música brasileira reconhece de imediato — a gente sabe que o instrumento mais simples, na mão certa, carrega o groove inteiro.

O que a letra realmente diz

Apesar do título religioso, "Praise The Lord (Da Shine)" não é exatamente um hino de fé. O "louvado seja o Senhor" funciona mais como uma expressão de gratidão e de espanto diante do próprio sucesso — aquele momento em que alguém que veio de baixo olha para trás e percebe o quanto subiu. É uma prece de agradecimento pela ascensão, misturada com a arrogância confiante de quem sabe que chegou lá por mérito.

Rocky usa seus versos para desenhar um retrato de origem humilde transformada em opulência. Ele fala de dinheiro, de joias, de mulheres, de roupas caras — o vocabulário clássico do flex, o gesto de ostentação típico do rap. Mas por baixo da fanfarronice existe uma mensagem mais séria: a de que o brilho ("da shine") não caiu do céu. Ele descreve o contraste entre de onde veio e onde está agora, sugerindo que a fama trouxe tanto recompensa quanto peso. Há uma consciência de que subir muito rápido também isola, também transforma quem você é.

Skepta, no refrão, reforça essa ideia de gratidão e de resistência. Ele traz a perspectiva britânica: um filho de imigrantes que fez do grime — um som marginalizado e desprezado pela indústria por anos — uma força cultural respeitada mundialmente. Quando os dois se encontram na faixa, o tema comum fica claro: dois artistas de comunidades duras, celebrando o fato de terem virado o jogo pela força da própria voz. É por isso que, mesmo com toda a ostentação, a música soa menos como gabolice vazia e mais como um brinde erguido por sobreviventes.

O clipe que dividiu a tela e o mundo

Nenhuma conversa sobre essa música fica completa sem falar do videoclipe, dirigido pelo francês Dexter Navy. É uma peça de arte visual por si só. Em vez de mostrar Rocky e Skepta juntos num mesmo lugar, o vídeo usa uma tela dividida e efeitos de espelhamento para embaralhar cenas gravadas em Nova York e em Londres, filmadas em armazéns e ruas das duas cidades. As imagens se dobram, se multiplicam e se distorcem num caleidoscópio hipnótico que combina perfeitamente com a repetição obsessiva da flauta.

O clipe também está recheado de participações que só os fãs mais atentos captam: Tyler, the Creator aparece, integrantes do coletivo A$AP Mob circulam pelas cenas, e até o irmão mais novo de Skepta, o rapper Jme, dá as caras. O visual granulado, quase em preto e branco, com estouros de cor, transformou a estética da faixa numa experiência tão marcante quanto o áudio. Reportagens da época elogiaram como o vídeo capturava a dupla identidade da música — metade Harlem, metade Londres, costuradas num só corpo pulsante.

Contexto cultural e legado

"Praise The Lord" chegou num momento em que o grime britânico e o hip-hop americano estavam se aproximando como nunca. Por décadas os dois mundos se olharam com certa distância: o rap dos EUA dominava o planeta, enquanto o grime era visto como um primo local e fechado, difícil de exportar. Skepta tinha acabado de ajudar a mudar isso — seu álbum "Konnichiwa", de 2016, venceu o prestigiado Mercury Prize e colocou o gênero no radar global. A parceria com Rocky selou essa ponte de forma pop e acessível.

Comercialmente, a faixa foi um sucesso enorme, entrando em paradas de vários países e se tornando disco de platina em múltiplos mercados. Mas o legado mais interessante talvez seja o estético. Aquele riff de flauta virou quase um meme sonoro, sampleado, imitado e referenciado à exaustão. Ele provou que, na era do streaming, um gancho instrumental simples e reconhecível pode carregar uma música inteira mundo afora, cruzando barreiras de idioma. Para uma geração de produtores caseiros, a revelação de que aquele som saiu do GarageBand foi quase libertadora: um lembrete de que a ferramenta importa menos do que a ideia.

Por que ainda ressoa hoje

Alguns anos depois do lançamento, "Praise The Lord (Da Shine)" continua sendo a porta de entrada de muita gente ao universo de A$AP Rocky. Parte disso é a durabilidade daquele gancho — ele simplesmente não envelhece, porque nunca dependeu de uma moda de produção específica. É melodia pura, quase infantil na sua simplicidade, o tipo de coisa que gruda no ouvido de um adolescente em São Paulo do mesmo jeito que gruda num ouvinte em Londres ou em Lagos.

Mas há também uma verdade emocional que mantém a faixa viva. A ideia de agradecer pelo próprio brilho, de olhar para a jornada de baixo para cima e reconhecer o quanto foi difícil chegar até ali, é universal. Não importa se você é rapper, músico independente ou alguém tentando construir algo do zero: o sentimento de erguer os olhos e dizer "olha até onde eu cheguei" atravessa qualquer fronteira. E, no fundo, essa música celebra a criatividade que nasce da falta de recursos — a genialidade de transformar uma flautinha de programa gratuito num triunfo global. É por isso que ela ainda faz sentido: não é sobre riqueza, é sobre engenhosidade.


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