SONGFABLE · 2022

Nonsense

SABRINA CARPENTER · 2022

TL;DR: "Nonsense" parece só uma música safadinha e divertida sobre paixão nova, mas é a faixa que salvou a carreira de Sabrina Carpenter — e virou lenda por um detalhe que não está no disco: ela reescreve o final da música em cada cidade do mundo onde canta, ao vivo, sem repetir nunca.
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A música que só ficou famosa quatro meses depois de sair

Aqui está o fato mais estranho sobre "Nonsense": quando ela foi lançada, em julho de 2022, praticamente ninguém prestou atenção. Era só mais uma faixa dentro de um álbum chamado "Emails I Can't Send", de uma cantora que o público em geral ainda associava vagamente à Disney. O disco tinha músicas mais pesadas, mais comentadas, mais dramáticas — e "Nonsense" estava ali no meio, animadinha, sem grandes pretensões.

Aí veio o final do ano. E aconteceu uma coisa que ninguém planejou: a música começou a circular sozinha no TikTok, empurrada por um detalhe que só existia no palco. Sabrina tinha adotado o hábito de, ao final da música, improvisar uma rima nova — diferente a cada show, geralmente com duplo sentido, muitas vezes fazendo referência à cidade onde estava naquela noite. Os fãs começaram a gravar. Os vídeos viralizaram. E, de repente, uma faixa de álbum enterrada no meio de um disco de meses atrás virou o maior sucesso da carreira dela até então.

É uma inversão deliciosa da lógica da indústria. Normalmente, o hit é escolhido, produzido, empurrado com verba e lançado como single. "Nonsense" fez o caminho oposto: cresceu por fora, por causa de algo que nem estava na gravação original. A música virou popular por causa da parte que muda toda vez.

A garota da Pensilvânia que passou dez anos "quase estourando"

Para entender por que "Nonsense" importa tanto, vale conhecer a estrada que Sabrina Carpenter percorreu até ali. Nascida na Pensilvânia em 1999, ela começou postando covers no YouTube ainda pré-adolescente e foi contratada pela Disney, virando rosto conhecido da série "Girl Meets World". Lançou disco atrás de disco durante os anos 2010 — trabalhos honestos, com público fiel, mas que nunca romperam a barreira do grande mainstream. Ela era o exemplo clássico da artista competente que parecia eternamente prestes a explodir e nunca explodia.

"Emails I Can't Send", de 2022, foi o disco em que ela decidiu parar de tentar agradar. O álbum nasceu de um período pessoalmente turbulento: Sabrina havia se tornado, sem pedir, personagem de uma novela pública envolvendo outros jovens artistas americanos, sofrendo uma enxurrada de hostilidade nas redes sociais por parte de fãs que a colocaram no papel de vilã de uma história amorosa que nem era dela para contar. Boa parte do disco processa exatamente isso — o cansaço, a raiva, o desabafo. É um álbum de emails que ela nunca mandou, como o título sugere.

E é justamente por isso que "Nonsense" brilha ali dentro. No meio de um trabalho carregado de mágoa, ela é o momento de leveza absoluta: a faixa em que a narradora simplesmente está apaixonada, boba, sem conseguir pensar direito. Reza a lenda que a canção foi escrita em parceria com Steph Jones e John Ryan, o mesmo círculo de compositores que ajudaria a moldar o som que a levaria ao topo poucos anos depois. Foi a semente do que viria.

Para o público brasileiro, há um capítulo especialmente saboroso nessa história. Em novembro de 2023, Sabrina Carpenter esteve no Brasil como artista de abertura de uma das maiores turnês da história recente, subindo ao palco no Rio de Janeiro e em São Paulo diante de estádios lotados. E, fiel à tradição, ela levou o improviso de "Nonsense" para cá — os relatos da época dão conta de que ela adaptou o final da música ao contexto local, arrancando gritos de multidões que talvez não conhecessem o resto do repertório dela, mas entenderam perfeitamente a piada. Foi uma das primeiras vezes em que o público brasileiro em massa percebeu que aquela artista de abertura era, na verdade, uma estrela esperando a vez.

O que a música realmente diz

Decifrando a letra sem citá-la: a narradora está no início daquele estado de encantamento em que o cérebro simplesmente para de funcionar. Ela descreve como a presença da outra pessoa a deixa incapaz de formar pensamentos coerentes, como as palavras saem embaralhadas, como qualquer tentativa de parecer articulada fracassa. O título é literal — a paixão nova a transforma numa pessoa que só fala bobagem.

Mas há uma segunda camada que torna a música muito mais interessante do que uma cantiga de amor açucarada. O desejo aqui é físico, explícito, sem constrangimento. A narradora não está romantizando um amor platônico; ela está falando de atração carnal com uma naturalidade e um humor que eram relativamente raros no pop mainstream feminino da época. Ela brinca com trocadilhos, com sugestões, com aquele tipo de malícia que faz o ouvinte rir antes de corar.

E aí está o gancho conceitual mais bonito: se a música é sobre falar besteira quando você está apaixonada, então faz todo sentido que o final dela seja, literalmente, improvisado toda vez. A tradição do outro final ao vivo não é um truque de marketing colado por cima — é a extensão lógica da ideia central da canção. A música fala sobre não ter controle sobre as próprias palavras, e Sabrina resolveu levar isso ao pé da letra, entregando palavras diferentes em cada apresentação. Forma e conteúdo se encaixam perfeitamente.

Vale notar também o tom emocional. Não há angústia, não há insegurança, não há medo de rejeição. A narradora está se divertindo com o próprio descontrole. É uma paixão observada de fora, com humor, por alguém que sabe que está ridícula e acha graça nisso. Essa autoconsciência bem-humorada viraria, poucos anos depois, a assinatura estética de Sabrina Carpenter — mas foi aqui, nesta faixa aparentemente descartável, que ela apareceu pela primeira vez em estado puro.

O improviso que virou instituição

O ritual do final alternativo de "Nonsense" merece ser tratado como o fenômeno cultural que é. A cada noite de turnê, Sabrina encerra a música com uma rima nova, escrita para aquela plateia específica. Algumas fazem referência a apelidos da cidade, times locais, comidas típicas, fusos horários, clima. Outras são simplesmente indecentes o suficiente para render manchete. Fãs criaram planilhas, contas dedicadas e arquivos colaborativos apenas para catalogar cada variação, e existe toda uma subcultura online dedicada a comparar qual cidade recebeu o melhor final.

O efeito prático disso é genial: transforma cada show em um evento não repetível. Se você foi à apresentação de terça, viu algo que ninguém mais no planeta viu. Isso gera exatamente o tipo de conteúdo que as redes sociais premiam — curto, surpreendente, específico, impossível de prever — e criou um motor de divulgação orgânico que nenhuma verba de marketing compraria. Também estabeleceu um contrato afetivo com o público: ela está fazendo algo para vocês, aqui, agora.

A brincadeira se expandiu ainda mais. Em 2023, Sabrina lançou uma versão natalina da faixa, reescrevendo a canção com temática de fim de ano, e a ideia rendeu até um especial de televisão anos depois. Poucas músicas conseguem virar franquia. "Nonsense" virou.

Enquanto isso, a própria carreira dela decolava. Depois da exposição gigantesca como artista de abertura em turnês estádio afora — incluindo a passagem pela América Latina —, veio o álbum que a transformou em superestrela global, com hits que dominaram o verão do hemisfério norte de 2024. Olhando para trás, "Nonsense" é claramente o ponto de virada: o momento em que o público descobriu que Sabrina Carpenter era engraçada, ousada e muito mais interessante do que o rótulo de ex-Disney sugeria.

Por que continua ressoando

Há algo profundamente humano no centro de "Nonsense" que explica sua permanência. Todo mundo já foi essa pessoa. Todo mundo já ficou tão encantado por alguém a ponto de dizer alguma coisa completamente idiota e depois querer sumir da face da Terra. A música pega esse constrangimento universal e o transforma em festa em vez de vergonha. É um alívio ouvir alguém dizer, em alto e bom som, que perder a compostura por causa de outra pessoa é divertido e não humilhante.

Para quem gosta tanto de rock quanto de pop internacional, existe também um prazer técnico em observar como a faixa é construída. A estrutura é enxuta, a produção deixa espaço para a voz, e o refrão é montado com aquela precisão de engenharia que faz uma melodia grudar sem parecer forçada. É pop de artesanato — a mesma disciplina de composição que sustenta um bom riff de guitarra, só que aplicada a ganchos vocais.

E há a lição maior, que vale para qualquer artista em qualquer gênero: a parte mais memorável de "Nonsense" não está no disco. Está no que acontece quando a música encontra uma plateia real, num lugar real, numa noite específica. Numa era em que quase tudo é algoritmicamente otimizado e infinitamente repetível, Sabrina Carpenter construiu seu maior trunfo em cima de algo que só existe uma vez e depois desaparece.

É por isso que, quando os primeiros compassos tocam num festival, num show ou numa balada Brasil afora, existe sempre aquela expectativa suspensa no ar. Todo mundo sabe a letra. Ninguém sabe como vai terminar. E essa é exatamente a graça.


Como mergulhar mais fundo

🎧 Mergulhe no som

Para entender de onde "Nonsense" veio, é preciso ouvir o álbum inteiro — porque a leveza da faixa só faz sentido contra o peso das músicas ao redor dela.

📚 Acompanhe a história

A ascensão tardia de Sabrina é um estudo de caso sobre paciência, viralização e o poder de um momento ao vivo.

🌍 Visite os lugares

"Nonsense" é uma música que muda conforme o lugar onde é cantada — então a experiência ideal é vivê-la em uma cidade nova.

🎸 Experimente você mesmo

Cantar junto é ótimo, mas a verdadeira diversão de "Nonsense" está em criar a sua própria versão do final.


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