SONGFABLE · 2021

MONTERO (Call Me By Your Name)

LIL NAS X · 2021

TL;DR: Por trás do escândalo do videoclipe em que Lil Nas X desce até o inferno e dança no colo do diabo, "MONTERO" é uma carta de amor-próprio: um jovem gay negro decidindo parar de se esconder e abraçar exatamente o que a igreja e a sociedade tentaram fazer ele odiar em si mesmo.
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O choque que escondia uma confissão

Em março de 2021, a internet inteira parou por causa de um único vídeo. Um rapaz descia de um mastro de metal, atravessava um céu bíblico, chegava ao inferno e dava uma lap dance em Satanás antes de tomar a coroa dele para si. Pastores gritaram, políticos americanos fizeram discursos indignados, e por semanas "MONTERO" foi tratado como um ato de provocação vazia, feito só para chocar avós e viralizar no TikTok.

Só que a leitura rasa deixou passar o essencial. A faixa não é sobre blasfêmia — é sobre libertação. Montero Lamar Hill, o nome verdadeiro do artista, cresceu ouvindo em igrejas do sul dos Estados Unidos que quem ele era, um garoto atraído por outros garotos, estava condenado. "MONTERO" pega esse veredito e o vira do avesso. Se me disseram que meu desejo me manda para o inferno, então que eu desça de cabeça erguida e faça dele meu trono. A queda não é castigo: é a recusa de continuar pedindo desculpas por existir.

Por isso o título carrega o próprio nome de batismo. Não é uma persona de palco, não é o "Lil Nas X" das paródias. É Montero falando com Montero, o momento em que o performer decidiu usar a canção mais íntima da carreira para se apresentar ao mundo sem máscara.

De um quarto na Geórgia ao topo do mundo

A história de como ele chegou ali é uma das mais improváveis da música pop recente. Montero nasceu em 1999 em Lithia Springs, na Geórgia, e passou parte da adolescência morando com a avó em Atlanta. Antes de ser cantor, era um garoto obcecado por internet — administrava contas de fã anônimas, entendia como memes nasciam e morriam, e transformou esse instinto em arma.

Em 2019 ele estourou com "Old Town Road", aquela mistura de country com trap que virou o single número um mais longevo da história da parada americana. Mas havia um detalhe pesado por trás do sucesso: no auge daquele hit, ainda em 2019, ele se assumiu gay publicamente, algo raríssimo para um artista do hip-hop no ápice da fama. Muita gente apostou que era carreira encerrada, que o público country e o rap conservador dariam as costas.

"MONTERO" foi a resposta a essa aposta. Produzida com Take a Daytrip, Omer Fedi e Roy Lenzo, a música abandona de vez a fantasia do cowboy e assume uma pulsação de pop-rock latino, com um dedilhado de violão de flamenco cortando a batida. Diz-se que o próprio Montero se surpreendeu com a ousadia do resultado e chegou a hesitar antes de lançar, com medo de perder o que havia construído. Para o público brasileiro, vale notar o parentesco: aquele violão nervoso e dançante conversa diretamente com a sensibilidade latina que já corre na veia de quem cresceu ouvindo música pop com tempero espanhol, e a fusão de gêneros sem pedir licença lembra a própria irreverência da cena pop brasileira, onde artistas queer como Pabllo Vittar e Liniker transformaram a afirmação da identidade em espetáculo de massa. "MONTERO" chegou num terreno que o Brasil já estava, à sua maneira, preparado para entender.

Decodificando a canção: desejo sem pedir perdão

A letra é curta, direta e carregada de tensão. Montero canta para um homem que ele quer perto, alguém que talvez viva a mesma contradição: desejar em segredo, negar de dia, procurar de noite. Ele descreve o outro como alguém que finge não querer o que claramente quer, um amante escondido no armário que só se solta longe dos olhos do mundo.

O refrão pede que esse homem o chame pelo próprio nome — daí o subtítulo, uma referência afetuosa ao filme "Call Me By Your Name", de 2017, em que dois amantes trocam de nome como gesto máximo de intimidade e entrega. Chamar o outro pelo seu nome é dizer: eu vejo você inteiro, e você me vê. Montero transforma esse gesto em manifesto. Não há metáfora escondida, não há eufemismo protetor. O desejo entre dois homens é cantado como fato luminoso, sem culpa e sem trilha sonora de tragédia.

O que dá peso à faixa é o subtexto religioso que Montero costura por baixo do desejo. Ele cresceu ouvindo que esse amor era pecado, e em vez de negar essa acusação, ele a incorpora. Se o mundo insiste em associar quem ele é ao fogo e à condenação, ele decide habitar esse território como quem toma posse. A canção não discute com os que o condenam — ela simplesmente para de reconhecer a autoridade deles. É esse gesto, mais do que qualquer imagem do clipe, que torna a música tão poderosa: a recusa serena de continuar carregando uma vergonha que nunca foi dele para carregar.

O videoclipe, o processo e o incêndio cultural

Nada disso teria alcançado a dimensão que alcançou sem o clipe, dirigido por Tanu Muino em parceria com o próprio artista. A viagem visual é uma alegoria completa: um paraíso onde Montero é tentado, um julgamento celestial onde ele é apedrejado, e finalmente uma descida ao inferno onde, em vez de arder passivamente, ele seduz o diabo, o destrona e coloca a coroa na própria cabeça. É a jornada de alguém que atravessa toda a mitologia da condenação e sai dela como soberano.

O escândalo explodiu ainda mais com um produto paralelo: os chamados "Satan Shoes", uma edição limitadíssima de tênis feita em parceria com o coletivo MSCHF, supostamente com uma gota de sangue humano na sola. A Nike, cuja silhueta havia sido customizada sem autorização, entrou com processo, e o caso virou manchete mundial. Foi um golpe de marketing e provocação que amplificou a mensagem a níveis que nenhuma verba publicitária compraria.

Aqui aparece o gênio estratégico de Montero. Ele sabia que a indignação viria, e a usou como combustível. Enquanto comentaristas conservadores gastavam horas de televisão atacando o vídeo, milhões de jovens LGBTQ+ pelo mundo viam, pela primeira vez, um artista no topo das paradas transformando a própria condenação em coroa. A polêmica não foi um acidente que ele soube contornar — foi parte da obra. Poucos artistas entenderam tão bem que, na era das redes, a fúria dos adversários é a maior caixa de som que existe.

Contexto cultural e legado

"MONTERO" chegou ao número um da parada americana e rendeu a Montero indicações ao Grammy, mas seu impacto real se mede fora dos números. A faixa se tornou um marco na longa negociação entre o hip-hop e a homossexualidade — um gênero que, historicamente, tratou a masculinidade de forma rígida e muitas vezes hostil ao desejo gay. Montero não pediu um lugar à mesa: ele reformou a mesa.

Vale lembrar o gesto público que acompanhou o lançamento. Ele escreveu uma carta aberta ao seu eu de catorze anos, dizendo que tinha prometido nunca se assumir e que estava, ao contrário, abrindo as portas para outros. Esse enquadramento transformou uma faixa pop num ato geracional. Adolescentes que se escondiam em cidades pequenas, incluindo muitos no Brasil que enfrentam suas próprias igrejas e famílias, encontraram na música uma permissão que raramente recebem: a de não se odiar.

Há também um legado estético. "MONTERO" ajudou a normalizar o pop-rock de inspiração latina no mainstream anglófono e provou que um artista podia mudar radicalmente de sonoridade — do country ao flamenco eletrônico — sem perder identidade. Ele mostrou que a coerência de um artista não está no gênero musical, mas na verdade que ele insiste em contar.

Por que ainda ressoa hoje

Anos depois, o barulho do escândalo se dissipou, e o que sobrou foi a canção. E ela envelhece bem porque o dilema no seu centro não é datado. A tensão entre quem somos por dentro e o que nos ensinaram a esconder é universal, atravessa fronteiras, religiões e décadas. Todo mundo, em alguma medida, já carregou uma versão de si guardada no fundo do armário, seja ela sobre sexualidade, ambição, gosto ou fé.

"MONTERO" continua tocando porque oferece uma saída que não é raiva nem lamento, mas apropriação. Em vez de gritar contra quem te condena, você pega a linguagem da condenação e a reescreve como celebração. Para o ouvinte brasileiro, num país que combina uma das cenas queer mais vibrantes do planeta com uma das disputas culturais mais intensas em torno de religião e identidade, essa mensagem chega com uma familiaridade quase desconfortável. A música fala de um jovem americano do sul, mas poderia estar falando de um garoto de qualquer periferia daqui.

No fim, a provocação que parecia ser o ponto da canção era só a embalagem. O conteúdo é ternura por si mesmo. E é por isso que, muito depois de o algoritmo ter esquecido a controvérsia, "MONTERO" segue sendo cantada por quem precisa se lembrar de que não deve desculpas a ninguém por amar como ama.


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