Feeling Good
Feeling Good - Nina Simone (1965)
TL;DR: "Feeling Good" não nasceu como hino de liberdade — foi escrita para um musical londrino sobre luta de classes. Mas quando Nina Simone gravou a canção em 1965, no auge da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, ela transformou uma melodia de teatro em um manifesto pessoal. A voz que abre a faixa sem instrumentos, anunciando pássaros, sol e rios, é a voz de uma mulher negra reivindicando o direito ao próprio amanhecer. É essa tensão — entre composição leve e interpretação sísmica — que faz da gravação um documento histórico travestido de pop song.
O instante em que tudo muda
Existe um truque dramático em "Feeling Good" que ninguém esquece depois de ouvir pela primeira vez. A música começa quase sem música. Uma voz solitária, sem rede de proteção, anuncia o novo dia. Cada frase paira no ar antes que a próxima venha. E então, depois de quase um minuto inteiro de tensão suspensa, a big band entra com aquele riff de metais que parece o nascer do sol em formato de acorde.
Esse arranjo não é acidente. É arquitetura emocional. Nina Simone — pianista clássica frustrada, ativista, alma indomável — entendeu que a liberdade não chega como onda contínua: ela chega como ruptura. Primeiro o silêncio. Depois a explosão. A canção performa, em sua estrutura, a própria experiência que descreve.
Para o ouvinte brasileiro, há algo familiar nessa dramaturgia. É o mesmo tipo de gesto que Cazuza fazia em "O Tempo Não Para" — começar quase falado, quase confessional, antes que a banda viesse arrebentar tudo. Não é coincidência: ambos são artistas que entenderam que a canção popular, quando levada a sério, pode carregar peso de testemunho.
A origem improvável
A história começa em Londres, 1964. Dois autores ingleses, Anthony Newley e Leslie Bricusse, escreviam um musical chamado The Roar of the Greasepaint — The Smell of the Crowd. Era uma alegoria sobre o sistema de classes britânico, com personagens chamados literalmente "Sir" e "Cocky" — o aristocrata e o trabalhador. "Feeling Good" foi composta para ser cantada por um personagem negro que aparece brevemente no musical, ironicamente, expressando uma alegria que o mundo branco do palco não permitia.
A canção, nesse contexto original, tinha um sabor de show business — vistosa, teatral, talhada para arrancar aplausos. Cyril Ornadel orquestrou para grandes naipes de metais. Era pop sofisticado de Broadway/West End, do tipo que Frank Sinatra ou Sammy Davis Jr. poderiam abraçar — e Davis de fato gravou a versão original.
Mas Nina Simone era de outra galáxia.
Em 1965, ela gravou "Feeling Good" para o álbum I Put a Spell on You, lançado pela Philips Records. Os arranjos ficaram a cargo de Hal Mooney, e o que ele construiu em volta da voz de Nina é magistral: cordas, metais, percussão tribal, tudo a serviço de um crescendo que parece físico. Mas o coração da gravação é aquele primeiro minuto solitário — a decisão radical de deixar a voz sem rede, sem suporte, sem nada.
O que ela realmente está cantando
Aqui é onde precisa ter cuidado com leituras superficiais. "Feeling Good" é frequentemente embalada como canção motivacional — trilha de comercial de carro, vinheta de programa matinal, hino de coach. Esse uso comercial achata tudo o que importa.
Quando Nina Simone canta sobre pássaros voando, sobre o sol no céu, sobre um novo amanhecer, ela não está descrevendo bom humor matinal. Ela está descrevendo libertação. Nina nasceu Eunice Kathleen Waymon em Tryon, Carolina do Norte, em 1933, numa região marcada pelas leis Jim Crow, pela segregação racial sistêmica, pela violência cotidiana contra negros americanos. Aos doze anos, durante seu primeiro recital de piano clássico, recusou-se a tocar até que seus pais — que haviam sido empurrados para o fundo da sala para dar lugar a brancos — fossem reposicionados na frente. Esse foi o primeiro ato político documentado de sua vida.
Em 1965, quando "Feeling Good" foi gravada, o Movimento pelos Direitos Civis estava em ebulição. Selma, Alabama, havia acabado de testemunhar a marcha violentamente reprimida no Edmund Pettus Bridge — o "Bloody Sunday" de março de 1965. Malcolm X havia sido assassinado em fevereiro. Nina Simone já era abertamente militante: dois anos antes, em 1963, havia escrito "Mississippi Goddam" em resposta ao assassinato de Medgar Evers e ao atentado à igreja de Birmingham que matou quatro meninas negras.
É nesse contexto que uma cantora negra americana decide cantar sobre liberdade. Quando ela diz que é um novo dia, ela não está falando de café da manhã. Está falando de um mundo que ainda não existe, mas que precisa existir. A canção é, simultaneamente, descrição de um futuro imaginado e ato performativo de criá-lo no presente.
Por que a voz dela soa diferente
Nina Simone tinha uma formação que praticamente nenhuma vocalista pop da época tinha: era pianista clássica de altíssimo nível, formada na Juilliard School, profundamente versada em Bach, Debussy, Liszt. Seu sonho original era ser a primeira pianista concertista negra dos Estados Unidos. Esse sonho foi negado pelo racismo institucional — sua rejeição pelo Curtis Institute of Music, em 1951, foi um trauma fundador que ela carregou pela vida toda.
Quando ela canta "Feeling Good", essa bagagem está toda lá. A forma como ela suspende cada palavra, a maneira como ela trabalha a respiração, o controle dinâmico — tudo isso vem do estudo clássico. Mas ela também canta com o peso emocional do blues, do gospel das igrejas batistas onde sua mãe pregava, do jazz que ela absorveu em Atlantic City quando precisou pagar contas tocando em bares.
Essa mistura é o que torna sua versão definitiva. Outros cantaram a música — Michael Bublé, Muse, Jennifer Hudson, John Coltrane, Sammy Davis Jr. — alguns muito bem. Mas só Nina parece estar negociando algo de vida ou morte. Os outros performam liberdade; ela parece estar conquistando-a no ato de cantar.
O que isso significa para quem ouve daqui
Para o público brasileiro, há ressonâncias profundas. O Brasil de 1965 vivia o segundo ano da ditadura militar. Era o mesmo momento em que Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e Gal Costa começavam a desenhar o que viraria a Tropicália — um movimento que, como Nina, tentava traduzir luta política em linguagem musical sofisticada. Caetano viria a citar Nina Simone explicitamente como referência. A irreverência de "Domingo no Parque" e a sofisticação harmônica de "Baby" dialogam com o que Simone fazia em Nova York.
Mais tarde, nos anos 80, quando o Brasil saía da ditadura e bandas como Legião Urbana cantavam sobre desencanto e esperança no mesmo gesto, a estrutura emocional de "Feeling Good" — a tensão entre escuridão e luz, entre opressão e novo amanhecer — voltou a fazer sentido. Renato Russo, em sua melhor forma, fazia algo semelhante: começava confessional e desembocava no anthem. "Que País é Este" e "Tempo Perdido" carregam essa mesma dramaturgia da virada.
E há ainda uma ponte mais sutil. A diáspora africana que define grande parte da identidade brasileira — o candomblé, o samba, a capoeira, a permanência cultural negra apesar de séculos de violência — encontra em Nina Simone uma irmã do norte. Ela não cantava sobre o Brasil, mas cantava de uma experiência que o Brasil reconhece. A voz dela é prima da voz de Clementina de Jesus, de Elza Soares, de Leci Brandão — mulheres negras que transformaram dor em arquitetura sonora.
Por que a canção continua nova
Sessenta anos depois, "Feeling Good" se recusa a envelhecer. Parte disso é a engenharia da gravação — Mooney construiu algo que soa cinematográfico em qualquer época. Parte é a voz de Nina, que sempre soou como uma força da natureza independente de modas.
Mas a razão mais profunda é que a canção captura uma experiência humana universal: o instante em que alguém decide que o passado não vai mais determinar o futuro. Esse instante existe em escala individual — o fim de um relacionamento tóxico, a saída de um emprego sufocante, a recuperação de uma doença — e em escala coletiva — o fim de um regime, a queda de uma estrutura opressiva, o nascimento de um movimento.
A canção funciona em qualquer dessas escalas. É por isso que séries como Six Feet Under a usaram em momentos de catarse. É por isso que ela aparece em filmes sobre travessias pessoais. É por isso que, em 2020, durante a pandemia, muita gente voltou a ouvi-la — não como ironia, mas como promessa.
Nina Simone morreu em 2003, no sul da França, exilada voluntária dos Estados Unidos que ela amou e odiou. Não viveu para ver Barack Obama eleito presidente, embora tenha vivido o suficiente para imaginar que isso pudesse acontecer. Não viveu para ver o Black Lives Matter, embora suas canções tenham se tornado trilha sonora do movimento.
"Feeling Good" continua sendo o que sempre foi: uma promessa de que existe um amanhã diferente do hoje, cantada por alguém que precisou acreditar nisso para conseguir levantar da cama. Não é otimismo barato. É esperança ganha no atrito.
E talvez seja isso que faça a canção atravessar décadas e oceanos: ela não pede que o ouvinte finja que tudo está bem. Ela admite, no primeiro minuto solitário, que tudo está difícil. E então, na entrada da banda, propõe que mesmo assim — mesmo assim — vale a pena imaginar o pássaro voando.
How to dive deeper
🎧 Para ouvir
- I Put a Spell on You — Nina Simone (1965) — O álbum original onde "Feeling Good" aparece. Curto, denso, essencial. Inclui também a faixa-título e "Ne Me Quitte Pas".
- Nina Simone Sings the Blues (1967) — Para entender a vertente mais crua e blues da artista. Aqui a militância está explícita em faixas como "Backlash Blues", escrita com Langston Hughes.
- Anthology — Nina Simone — Coletânea dupla que cobre as fases Philips e RCA. Boa porta de entrada para quem está começando.
📚 Para ler
- I Put a Spell on You: The Autobiography of Nina Simone — Autobiografia publicada em 1992. Crua, política, sem polimento. Imprescindível para entender quem era a mulher por trás da voz.
- What Happened, Miss Simone? — Alan Light — Biografia que acompanhou o documentário homônimo da Netflix. Bem pesquisada, com acesso a diários e cartas.
- Princesa Negra: A Vida de Nina Simone — Nadine Cohodas — Biografia mais densa e jornalística, com foco no contexto histórico do movimento pelos direitos civis.
🌍 Para contextualizar
- The Fire Next Time — James Baldwin — Publicado em 1963, dois anos antes de "Feeling Good". Baldwin era amigo próximo de Nina e o contexto intelectual dela passa por aqui.
- Tropicália: A Revolução na Música Brasileira — Carlos Calado — Para entender o que acontecia no Brasil no mesmo momento que Nina gravava "Feeling Good". Paralelos surpreendentes.
- Quarto de Despejo — Carolina Maria de Jesus — A versão brasileira de uma voz negra que transforma vida em literatura/canção. Diferentes mídias, mesma força.
🎸 Para tocar e cantar
- Songbook Nina Simone — partituras e cifras — Para pianistas que querem entender a base harmônica das canções dela. "Feeling Good" no piano revela muito sobre estrutura.
- Real Book Jazz Standards — Inclui "Feeling Good" entre os standards essenciais. Boa para quem quer improvisar sobre a estrutura.
- Microfone vocal Shure SM58 — Se a inspiração for cantar a canção, vale começar pelo equipamento que praticamente toda vocalista séria usa.
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- Como você reescreveria "Feeling Good" se tivesse que adaptá-la para descrever um momento de virada na história brasileira recente?
- Que canção brasileira, na sua opinião, ocupa um lugar emocional equivalente ao de "Feeling Good" — começando contida e explodindo em libertação?
- Se Nina Simone tivesse nascido no Brasil em 1933, em qual movimento musical você imagina que ela teria participado, e o que ela teria cantado?