SONGFABLE · 1987

Another Part of Me

MICHAEL JACKSON · 1987

TL;DR: "Another Part of Me" nasceu como trilha de uma aventura espacial em 3D da Disney, dirigida por Francis Ford Coppola e produzida por George Lucas, e por trás do groove dançante esconde um manifesto de Michael Jackson sobre união planetária: a ideia de que todos nós somos pedaços de uma mesma consciência, convocados a nos juntar para mudar o mundo.
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Uma canção que chegou ao mundo antes do próprio disco

Quase todo mundo conhece "Another Part of Me" como a faixa de abertura do lado B de Bad, aquele álbum de 1987 que transformou Michael Jackson numa máquina de recordes pela segunda vez seguida. Mas existe uma reviravolta na história dessa música que pouca gente fora do círculo dos fãs mais dedicados conhece: ela não foi feita para o disco. Antes de qualquer pessoa colocar Bad para girar no toca-discos, a canção já ecoava dentro de um cinema muito especial, em parques temáticos da Disney na Califórnia e na Flórida, como parte de um curta-metragem de ficção científica chamado Captain EO.

Pense na cena: em 1986, Michael Jackson vestido como capitão de uma nave espacial meio desajeitada, cercado de criaturas fofas e trapalhonas, enfrentando uma rainha sombria interpretada por Anjelica Huston num planeta cinzento e sem alegria. A arma do herói não é um sabre de luz nem um canhão de plasma. É a música. E "Another Part of Me" é justamente o hino que ele entoa para transformar escuridão em cor, guerreiros robóticos em dançarinos e uma tirana em uma figura luminosa. Ou seja, antes de ser single, a canção foi literalmente um feitiço de libertação, imaginado por alguns dos maiores nomes de Hollywood.

Esse detalhe muda a forma como ouvimos a faixa. Aquilo que parece apenas um funk-pop elegante, com sintetizadores brilhantes e uma linha de baixo que gruda no corpo, é na verdade a trilha sonora de uma utopia. Michael estava cantando para salvar um planeta, mesmo que fosse um planeta de papelão e efeitos especiais.

Os bastidores: Coppola, Lucas, Quincy e um Michael no auge

Para entender o tamanho de "Another Part of Me", é preciso lembrar onde Michael Jackson estava em meados dos anos 1980. Thriller, lançado em 1982, tinha virado o álbum mais vendido da história, e o cantor era provavelmente a pessoa mais famosa do planeta. Cada passo seu era observado com lupa. A Disney, que buscava uma atração capaz de atrair um público jovem para seus parques, apostou alto: chamou George Lucas, o criador de Star Wars, como produtor executivo, e Francis Ford Coppola, de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now, para dirigir. O resultado foi um curta de cerca de 17 minutos que, segundo relatos da época, figurou entre os filmes mais caros por minuto já produzidos, com efeitos em 3D, lasers, fumaça e assentos que tremiam.

Michael compôs "Another Part of Me" sozinho, como fez com boa parte do repertório de Bad. Essa é outra camada interessante: depois de Thriller, em que dividiu muitas faixas com compositores como Rod Temperton, ele quis provar que era um autor completo. Na produção, a parceria de sempre: Quincy Jones ao lado do próprio Michael, com a engenharia de Bruce Swedien e o time de músicos de estúdio que dava aquele acabamento cristalino às gravações. O som tem a marca registrada da época, com baterias eletrônicas secas, camadas de teclado e metais sintetizados, mas também uma dose de swing que vem diretamente da escola Motown que formou Michael quando ainda era um garoto nos Jackson 5.

Quando Bad foi finalmente lançado, em agosto de 1987, a música entrou no disco quase como uma ponte entre dois mundos: o do entretenimento de parque temático e o do álbum pop mais aguardado da década. Em julho de 1988, virou o sexto single do disco. Segundo os registros das paradas, chegou ao topo da parada de R&B da Billboard e ficou perto do Top 10 da Hot 100, por volta da 11ª posição. Para muitos artistas, seria um sucesso estrondoso. Para Michael, que vinha emplacando um número 1 atrás do outro com Bad, foi encarado como um single mais discreto, o que ajuda a explicar por que a canção às vezes fica injustamente esquecida.

E aqui vale plantar uma ponte com o Brasil. Muitos brasileiros que viajaram para Orlando nos anos 1980 e 1990, aquela peregrinação clássica de família com a mala cheia de compras na volta, assistiram a Captain EO no Epcot sem saber exatamente que estavam ouvindo uma faixa que depois viraria single. O curta ficou em cartaz até a década de 1990, e depois da morte de Michael, em 2009, voltou aos parques entre 2010 e meados da década, reencontrando uma nova geração de turistas, incluindo milhares de brasileiros. Para uma parte do público daqui, "Another Part of Me" é, antes de tudo, uma memória de viagem: óculos 3D no rosto, ar-condicionado gelado e o Rei do Pop dançando a centímetros do nariz.

O que a música realmente diz

Sem reproduzir os versos, dá para resumir a mensagem central de "Another Part of Me" numa ideia poderosa: o narrador se apresenta como alguém que faz parte de você, e você faz parte dele. Não se trata de uma canção de amor romântico, embora o tom seja caloroso e íntimo. É uma convocação. Michael fala de um grupo, de uma espécie de missão coletiva, de pessoas espalhadas pelo planeta que estão se reunindo, enviando um sinal, preparando-se para algo grande. A sensação é de um chamado para uma revolução pacífica, quase espiritual.

Há na letra imagens que remetem a planetas se alinhando, a uma energia que vem de cima, a uma mensagem que precisa ser espalhada. Tudo isso conversa diretamente com o enredo de Captain EO, em que uma tripulação viaja pela galáxia levando um presente transformador. Mas, fora do contexto do filme, a canção ganha uma leitura mais ampla: Michael está dizendo que separação é ilusão. Quem está ouvindo não é espectador; é cúmplice, é parte do mesmo corpo.

Essa visão não aparece do nada. Ao longo da carreira, Michael Jackson voltou repetidamente ao tema da unidade humana. Em 1985, ele tinha coescrito com Lionel Richie "We Are the World", que mobilizou dezenas de estrelas americanas para combater a fome na África. Mais tarde viriam "Man in the Mirror", no próprio Bad, sobre mudar o mundo a partir de si mesmo, e "Heal the World" e "Black or White", em Dangerous. "Another Part of Me" fica no meio desse caminho, com uma diferença sutil: em vez de pedir compaixão ou caridade, ela celebra a conexão como algo que já existe. A canção não suplica; ela anuncia, com confiança, que a reunião já está acontecendo.

O próprio arranjo reforça esse sentido. O ritmo é insistente, repetitivo no melhor sentido, como uma batida que vai juntando pessoas numa pista de dança. Os vocais de Michael alternam aquele timbre agudo e preciso com os famosos soluços e exclamações percussivas que viraram sua assinatura. Nos refrões, as vozes se sobrepõem em camadas, criando a impressão de um coro, de muitas pessoas cantando juntas. Ou seja, a forma da música faz o que a letra promete: transforma um indivíduo em multidão.

Contexto cultural e legado

No fim dos anos 1980, o mundo vivia os últimos capítulos da Guerra Fria. Havia medo nuclear, tensão entre blocos, mas também uma esperança crescente de abertura, que culminaria com a queda do Muro de Berlim em 1989. Nesse clima, uma canção falando de união global e de pessoas de todos os cantos se juntando por uma causa comum tinha um peso simbólico que ia além do entretenimento. Michael, que vendia discos da Ásia à América Latina, da Europa à África, era uma das poucas figuras capazes de encarnar essa ideia de cidadania planetária.

A Bad World Tour, que rodou o mundo entre 1987 e 1989, ajudou a dar corpo a essa mensagem. Foi a primeira turnê solo de Michael, e "Another Part of Me" ganhou espaço de destaque no repertório. O videoclipe oficial do single, aliás, não tem roteiro cinematográfico como "Bad" ou "Smooth Criminal": foi montado com imagens de shows da turnê, mostrando estádios lotados, luzes, fumaça e plateias em êxtase. A escolha faz todo sentido. Se a música fala de multidões se unindo, nada mais coerente do que mostrar dezenas de milhares de pessoas cantando a mesma coisa, ao mesmo tempo, em países diferentes. Uma das apresentações mais lembradas é a do estádio de Wembley, em Londres, em julho de 1988, que mais tarde saiu oficialmente em vídeo e virou referência para os fãs.

O Brasil não recebeu a turnê Bad, mas a relação de Michael com o país se aprofundou nos anos seguintes. Em 1993, ele lotou o Morumbi, em São Paulo, com a Dangerous World Tour, e em 1996 gravou o clipe de "They Don't Care About Us" no Pelourinho, em Salvador, ao lado do Olodum, e no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro. Quem conhece essa história percebe que o desejo expresso em "Another Part of Me" não ficou só na fantasia espacial: Michael realmente foi atrás das periferias do mundo para mostrar que elas também faziam parte da mesma família humana. Há quem diga que, naquele encontro com os tambores baianos, a ideia de "somos parte uns dos outros" ganhou sua tradução mais concreta.

Musicalmente, a faixa também tem legado. Ela representa um momento em que o pop dos anos 1980 incorporava a tecnologia digital sem perder o groove do funk e do R&B. Produtores de gerações seguintes, do new jack swing ao pop contemporâneo, beberam dessa fórmula de batida sintética com alma negra. E a própria trajetória da canção, nascida para um filme em parque temático e depois promovida a single, antecipou uma lógica que hoje é comum: músicas que circulam entre cinema, experiências imersivas e plataformas, ganhando vidas diferentes em cada formato.

Por que ela ainda ressoa hoje

Vivemos numa época estranha: nunca estivemos tão conectados tecnicamente e, ao mesmo tempo, raramente nos sentimos tão divididos. Redes sociais que prometiam aproximar as pessoas muitas vezes viraram trincheiras. Nesse cenário, uma canção que insiste, com alegria e sem cinismo, que todos fazemos parte de algo maior soa quase revolucionária. "Another Part of Me" não tem o peso dramático de "Earth Song" nem o tom de autocrítica de "Man in the Mirror". O que ela oferece é otimismo dançante, e talvez seja justamente isso que falte no nosso cotidiano.

Para o fã brasileiro de rock e pop internacional, a música também funciona como porta de entrada para um Michael menos óbvio. Todo mundo sabe cantar "Billie Jean" e "Thriller". Mas mergulhar nas faixas menos tocadas de Bad revela um artista inquieto, que testava ideias sobre espiritualidade, ecologia e fraternidade muito antes de esses temas virarem pauta obrigatória. "Another Part of Me" é uma dessas joias que recompensam quem escuta com atenção: o refrão pega na primeira vez, mas a mensagem só se revela quando você presta atenção no que está por trás da batida.

Há ainda um elemento afetivo. Depois da morte de Michael, a canção ganhou um novo sentido para muitos fãs. A ideia de que ele seria uma parte de cada um de nós, de que sua música continuaria viva em quem a escuta, transformou o que era um hino de ficção científica num tipo de despedida. Nas festas temáticas, nos tributos e nos bailes de flashback que lotam casas noturnas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Recife, quando os primeiros acordes de "Another Part of Me" começam, a pista responde como se estivesse recebendo um sinal vindo de longe. E, de certa forma, está.

Por fim, com a onda recente de interesse pela vida e pela obra de Michael Jackson, impulsionada por cinebiografias, documentários e relançamentos, faixas como esta estão sendo redescobertas por ouvintes que nem eram nascidos em 1987. Para eles, a música soa ao mesmo tempo retrô e estranhamente atual, com aquela estética oitentista de sintetizador que voltou à moda no pop de hoje. É a prova de que uma boa ideia, embalada num groove irresistível, atravessa décadas sem perder o brilho.


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