SONGFABLE · 1986

Walk This Way

RUN-DMC FEAT. AEROSMITH · 1986

TL;DR: "Walk This Way" não é só uma música — é o momento em que o rock e o hip-hop se olharam nos olhos pela primeira vez e perceberam que eram parentes. Uma colaboração improvável, gravada em poucas horas, que ressuscitou a carreira do Aerosmith, colocou o rap na MTV e mudou para sempre o mapa da música pop mundial.
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O muro que caiu antes do de Berlim

Aqui vai uma verdade que pouca gente conta: o Run-DMC odiava essa música. Quando Rick Rubin, o produtor barbudo que viria a se tornar uma lenda, sugeriu que o trio do Queens regravasse "Walk This Way" — um hit de rock dos anos 70 — Run e DMC acharam a ideia ridícula. Segundo relatos da época, eles chamavam aquilo de "hillbilly gibberish", algo como "baboseira caipira". Eles nem sabiam direito quem era o Aerosmith. Conheciam o riff, claro — aquele groove de guitarra do Joe Perry tocava nas festas de rua do Queens desde sempre, porque os DJs de hip-hop adoravam loopar os primeiros segundos da bateria. Mas o nome da banda? O vocalista? Mistério total. Reza a lenda que eles achavam que a música se chamava "Toys in the Attic", porque era isso que estava escrito na capa do disco que eles sampleavam.

E é exatamente essa ignorância mútua que torna a história tão deliciosa. Dois mundos que se alimentavam um do outro sem se conhecer. Quando finalmente se encontraram num estúdio em Nova York, em março de 1986, o resultado foi um terremoto cultural cujas réplicas chegam até hoje — inclusive ao Brasil, como veremos.

Dois lados da mesma cidade partida

Para entender o impacto, é preciso entender o abismo. Em 1986, a música americana era segregada de um jeito que hoje parece absurdo. De um lado, o rock: branco, suburbano, dono das rádios FM e da MTV, que na época praticamente não tocava artistas negros — Michael Jackson teve que arrombar essa porta na marra com "Billie Jean". Do outro, o hip-hop: negro, urbano, nascido nas festas do Bronx e do Queens, tratado pela indústria como modinha passageira, coisa de gueto que ia sumir em dois anos.

O Run-DMC era a ponta de lança do rap. Joseph "Run" Simmons, Darryl "DMC" McDaniels e Jason "Jam Master Jay" Mizell, três caras de Hollis, Queens, que já tinham flertado com guitarras pesadas em "Rock Box" e "King of Rock". Eles não usavam fantasias espalhafatosas como os pioneiros da velha guarda; vestiam o que se vestia na rua — Adidas sem cadarço, chapéu de feltro, jaqueta de couro preta. Eram o futuro, mas o futuro ainda não pagava as contas do mainstream.

O Aerosmith, por sua vez, era o passado. A banda de Boston que tinha sido a resposta americana aos Rolling Stones nos anos 70 estava, em 1986, em frangalhos. Steven Tyler e Joe Perry — apelidados de "Toxic Twins" pelo apetite químico — tinham afundado a banda em drogas, brigas e discos fracos. Perry chegou a sair do grupo. Diz-se que, na época da gravação, eles estavam tão quebrados financeiramente e tão esquecidos que aceitaram a sessão por um cachê modesto, reportadamente na casa de oito mil dólares, sem imaginar o que aquilo renderia.

Rick Rubin, então um jovem de vinte e poucos anos que comandava a Def Jam de um dormitório de universidade, enxergou o que ninguém via: que o riff de "Walk This Way", lançado originalmente em 1975 no álbum Toys in the Attic, já era hip-hop antes do hip-hop existir. A batida seca de Joey Kramer, o fraseado quase falado de Tyler, a cadência sincopada — tudo ali era rap embrionário. Faltava só juntar as pontas.

E aqui entra um detalhe que o fã brasileiro vai saborear: essa lógica de misturar o "morro" e o "asfalto", a periferia e o rock de estádio, é exatamente o caldo que o Brasil conhece tão bem. Quando Charlie Brown Jr., Planet Hemp, O Rappa e Racionais dialogando com o rock paulista mostraram que guitarra e rima moravam na mesma esquina, eles estavam — sabendo ou não — caminhando pela trilha que "Walk This Way" abriu em 1986.

O que a música realmente diz

Liricamente, a faixa é uma comédia adolescente. A letra original, escrita por Tyler nos anos 70, narra a saga de um garoto desajeitado e inexperiente, zoado pelos colegas por nunca ter beijado ninguém, que recebe uma educação sentimental acelerada das mãos de garotas bem mais experientes que ele — incluindo uma líder de torcida e umas irmãs nada inocentes. O título vem do conselho malicioso que ele recebe: "anda por aqui, fala desse jeito", ou seja, siga-me e aprenda. Curiosidade saborosa: dizem que a frase nasceu de uma piada do filme O Jovem Frankenstein, de Mel Brooks, que a banda tinha acabado de assistir — a cena em que o corcunda Igor diz "walk this way" e o personagem o imita mancando.

Mas na versão de 1986, o sentido literal da letra importa menos que o sentido performático do arranjo. O que a gravação "diz", de verdade, está na estrutura: Run e DMC cospem os versos de Tyler com a dicção percussiva do rap, transformando a malícia arrastada do rock setentista em metralhadora rítmica. Tyler responde berrando o refrão com aquele agudo rasgado. A guitarra de Perry não é sample — é tocada ao vivo, suja, por cima dos scratches de Jam Master Jay. A música vira um diálogo, quase um duelo amistoso, entre duas gerações e duas Américas.

O clipe traduziu isso em imagem com uma literalidade genial: as duas bandas tocam em salas vizinhas, separadas por uma parede. Incomodados com o barulho um do outro, eles batem na parede — até que Tyler a atravessa com o pedestal do microfone e, no final, todos dividem o mesmo palco. É difícil imaginar metáfora mais direta para a queda do muro entre rock e rap, entre rádio branca e rádio negra. A MTV, que resistia ao hip-hop, não teve como não tocar: tinha o Aerosmith ali, afinal. O cavalo de Troia funcionou.

O dia em que tudo mudou de lugar

Os números contam parte da história: o single chegou ao Top 5 da Billboard Hot 100 — o primeiro disco de rap a alcançar essa altura nas paradas. O álbum Raising Hell, do Run-DMC, virou o primeiro disco de hip-hop multiplatinado. Mas o efeito mais profundo foi sistêmico.

Para o hip-hop, "Walk This Way" foi o passaporte definitivo para o mainstream. Depois dela, o gênero deixou de ser "fenômeno de bairro" e virou indústria global. Beastie Boys, Public Enemy, LL Cool J — a comporta abriu. E a fusão rap-rock que a faixa inaugurou geraria décadas de descendentes: Rage Against the Machine, Red Hot Chili Peppers na fase funkeada, Beastie Boys com guitarras, Linkin Park, Limp Bizkit, e por aí vai. Cada banda de nu metal dos anos 2000 deve royalties espirituais a esses cinco minutos de 1986.

Para o Aerosmith, foi literalmente uma ressurreição. A banda que estava acabada viu uma geração inteira de adolescentes descobrir seu nome pela MTV. No ano seguinte veio Permanent Vacation, depois Pump, e nos anos 90 eles estavam maiores do que nunca — culminando naquela balada de Armageddon que tocou em todas as festas de quinze anos do Brasil. Sem "Walk This Way", possivelmente não haveria segunda vida do Aerosmith, nem os shows lotados que a banda fez por aqui, do Hollywood Rock ao Monsters of Rock e ao Rock in Rio.

Aliás, vale lembrar: o Run-DMC também pisou em solo brasileiro — o grupo se apresentou no Hollywood Rock de 1994, no Rio e em São Paulo, levando o rap de Hollis para plateias que cantavam Adidas e chapéu de feltro como quem recebia embaixadores de um país que o funk carioca e o rap nacional já estavam aprendendo a traduzir. A semente da mistura, plantada em 86, encontrou no Brasil um solo absurdamente fértil: poucos países do mundo misturam gêneros com tanta naturalidade quanto o nosso.

Há ainda um efeito colateral comercial digno de nota: a obsessão do Run-DMC pela Adidas — celebrada em outra faixa do mesmo álbum — rendeu, pouco depois, o primeiro grande contrato de patrocínio entre uma marca esportiva e artistas de música. Toda a economia bilionária de sneakers, colabs e merchandising que move o pop atual, de Travis Scott a Anitta, tem ali seu marco zero.

Por que ela ainda bate forte

Quase quarenta anos depois, "Walk This Way" continua soando como uma colisão feliz — e isso diz muito sobre por que ela sobrevive. Vivemos na era em que a mistura virou regra: sertanejo com trap, pagode com R&B, funk com música eletrônica, Anitta cantando em três línguas no mesmo álbum. Playlists destronaram gêneros. Mas alguém precisou dar a primeira marretada na parede, e foi exatamente isso que Tyler fez no clipe, com Run e DMC empurrando do outro lado.

A faixa também permanece um estudo de caso sobre humildade criativa. O Aerosmith, banda enorme, aceitou ser convidado na releitura da própria música, feita por três caras que mal sabiam seu nome. O Run-DMC, que desprezava o material, confiou no produtor e topou o desconforto. Rick Rubin apostou que o público estava pronto antes de o público saber disso. Todas as grandes colaborações que vieram depois — de Santana com Rob Thomas a Lady Gaga com Tony Bennett, de Nelly com Tim McGraw aos infinitos feats do streaming — repetem essa receita: dois mundos, um estúdio, ego na porta.

E há, claro, a dimensão racial, que segue dolorosamente atual. Em 1986, a faixa provou na prática que a segregação das rádios era uma ficção comercial, não uma realidade musical. O público queria a mistura; a indústria é que tinha medo dela. Cada vez que um artista hoje quebra uma barreira de formato — um rapper no topo da parada country, uma artista de funk num festival de rock — a lição de "Walk This Way" é reencenada.

No fim das contas, a música que o Run-DMC não queria gravar virou a mais importante de sua carreira, e a música que o Aerosmith tinha escrito numa tarde de 1975 ganhou uma segunda vida maior que a primeira. Poucas faixas na história do pop podem alegar que mudaram duas carreiras, dois gêneros e o gosto de um planeta inteiro em pouco mais de cinco minutos. Esta pode.


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