Turtles All the Way Down
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A canção country que ninguém esperava
Imagine colocar para tocar um disco que, pela capa, pelo timbre da voz e pelo jeito da banda, parece saído de um bar de beira de estrada no Kentucky dos anos 1970. Você espera histórias de caminhoneiros, corações partidos, uísque barato. E então, logo na primeira faixa, o cantor começa a falar de Jesus, do diabo, de Buda, de répteis vindos de outra dimensão e de moléculas psicodélicas que abrem as portas da percepção. Foi exatamente essa a sensação de quem ouviu "Turtles All the Way Down" pela primeira vez em 2014.
A surpresa é a chave da canção. Sturgill Simpson pegou o formato mais tradicional possível, a balada country com steel guitar e barítono à moda de Waylon Jennings, e encheu esse recipiente com perguntas que normalmente aparecem em livros de filosofia, em rodas de conversa às três da manhã ou em relatos de experiências místicas. O resultado é uma das aberturas de álbum mais comentadas da música americana na última década, e uma prova de que o country, gênero muitas vezes visto como conservador, pode ser um território de pura especulação metafísica.
O mais bonito é que a música não termina numa grande revelação esotérica. Depois de desfilar todos os caminhos espirituais e químicos que experimentou, o narrador chega a algo simples, quase caseiro: o que segurou sua vida de pé foi o amor. É uma reviravolta que transforma uma canção sobre o infinito numa canção sobre gente de carne e osso.
De ferroviário em Utah a profeta improvável de Nashville
Para entender essa música é preciso conhecer o homem que a escreveu. John Sturgill Simpson nasceu em 1978 no Kentucky, numa região de mineração de carvão, e cresceu ouvindo bluegrass e o country de raiz que os avós amavam. Ainda jovem, entrou para a Marinha dos Estados Unidos, passou um tempo servindo no Japão e, ao voltar, tentou a sorte com a música. Não deu certo de primeira. Durante anos, ele trabalhou em pátios ferroviários da Union Pacific em Salt Lake City, em Utah, longe dos palcos, e muitos relatos dizem que ele chegou a pensar em desistir de vez.
Foi a esposa, segundo o próprio Sturgill contou em entrevistas, quem o empurrou de volta para Nashville. Ele já havia liderado uma banda de bluegrass chamada Sunday Valley e lançou em 2013 o álbum "High Top Mountain", um disco honesto de country tradicional que chamou atenção dos fãs de música de raiz. Mas foi o segundo trabalho, "Metamodern Sounds in Country Music", de 2014, que mudou tudo.
O título do álbum é uma piscadela para "Modern Sounds in Country and Western Music", o disco histórico de 1962 em que Ray Charles mostrou que o country podia ser reinventado por alguém de fora de suas fronteiras habituais. Sturgill trocou o "modern" por "metamodern", um termo da filosofia contemporânea que fala de uma atitude que oscila entre a ironia pós-moderna e uma sinceridade quase ingênua. Combina perfeitamente com a faixa de abertura, que é ao mesmo tempo engraçada e profundamente séria.
O disco foi produzido por Dave Cobb, que depois se tornaria um dos produtores mais requisitados de Nashville, trabalhando com Chris Stapleton e Jason Isbell. Comenta-se que o álbum foi gravado em poucos dias e com orçamento modesto, algo em torno de alguns milhares de dólares, o que explica a crueza calorosa do som. Nada ali é polido demais: a bateria respira, a guitarra soa como se estivesse na sala, e a voz de Sturgill tem aquela gravidade antiga que o colocou imediatamente em comparação com os grandes nomes do movimento outlaw.
Aqui existe um gancho que fala diretamente com o ouvinte brasileiro. Uma das referências centrais da canção é o DMT, a substância que o pesquisador americano Rick Strassman descreveu no livro "DMT: The Spirit Molecule", e Sturgill confirmou em entrevistas que leu esse livro e se interessou pelas ideias de Terence McKenna sobre consciência. O DMT é justamente o princípio ativo da ayahuasca, a bebida amazônica que no Brasil se tornou parte de tradições religiosas reconhecidas, como o Santo Daime e a União do Vegetal. Ou seja, as perguntas que um ex-ferroviário do Kentucky fazia em Nashville têm raízes numa floresta que o Brasil conhece de perto. E quem cresceu ouvindo Raul Seixas, com suas canções sobre sociedade alternativa, magia e busca espiritual, vai reconhecer em Sturgill um parente distante: o roqueiro baiano e o cowboy do Kentucky dividem a mesma mistura de humor, misticismo e rebeldia contra as verdades prontas.
O que a canção realmente diz
O título vem de uma anedota famosa sobre regressão infinita. Na versão mais conhecida, popularizada por Stephen Hawking no começo de "Uma Breve História do Tempo", um cientista dá uma palestra sobre o cosmos e uma senhora na plateia retruca que o mundo, na verdade, é um disco achatado apoiado nas costas de uma tartaruga gigante. Quando perguntam a ela onde a tartaruga se apoia, ela responde, triunfante, que são tartarugas até lá embaixo. A expressão virou símbolo de qualquer explicação que nunca chega ao fundo, que só empurra a pergunta para mais uma camada.
Sturgill usa essa imagem como espinha dorsal da letra. Na primeira parte, o narrador conta que já esbarrou em várias figuras do sagrado e do profano: encontrou Jesus, conversou com o diabo, cruzou com Buda. Mas ele não fala como um convertido, e sim como alguém que visitou cada uma dessas portas e saiu com mais dúvidas do que entrou. Há algo de quase cômico na naturalidade com que ele lista essas experiências, como quem fala de lugares por onde passou numa turnê.
Depois vem o trecho que fez a canção ganhar fama: a referência a seres reptilianos de outra dimensão e às substâncias que abriram sua mente. Ele menciona, de forma direta, psicodélicos clássicos e a maconha, e descreve o DMT como algo que o levou a ver coisas que não cabem em vocabulário comum. É importante perceber o tom. Sturgill não está fazendo propaganda nem confissão escandalosa. Ele está relatando, com a calma de quem conta um causo, que esses caminhos mostraram paisagens fascinantes, mas não entregaram uma resposta definitiva. Cada revelação era só mais uma tartaruga.
E aí chega o refrão, que é o coração emocional da música. O narrador diz, em essência, que todas essas visões e doutrinas vieram e foram, mas que foi o amor que o salvou, que deu sentido e o puxou de volta da beira. A palavra "amor" ali não é abstrata: muitos leram a canção como uma homenagem à esposa de Sturgill, a mesma pessoa que o fez largar os trilhos e voltar a cantar. Depois de uma odisseia pelo cosmos, a canção aterrissa numa cozinha, num relacionamento, numa pessoa concreta.
Há ainda uma camada mais sutil. Ao final, o narrador sugere que cada um precisa encontrar seu próprio caminho, que nenhuma igreja ou substância pode fazer isso por você. É uma ideia antiga, presente em muitas tradições espirituais, mas soa nova na boca de alguém vestido de cowboy. A música não ataca a religião nem a celebra; ela convida a uma busca pessoal, honesta e humilde. Se as tartarugas não acabam nunca, talvez a pergunta certa não seja onde está o fundo, e sim quem está ao seu lado enquanto você olha para baixo.
Um choque no mundo do country
Quando "Metamodern Sounds in Country Music" saiu, o country comercial de Nashville vivia a era do chamado "bro-country", com canções sobre picapes, cerveja gelada e garotas de shortinho. Sturgill apareceu na contramão total. Sua sonoridade olhava para trás, para Waylon, Merle Haggard e o outlaw country dos anos 1970, enquanto suas letras olhavam para frente, para a física, a psicodelia e a filosofia da consciência.
A crítica abraçou o disco com entusiasmo. Publicações importantes o colocaram entre os melhores álbuns de 2014, e o trabalho recebeu uma indicação ao Grammy de Melhor Álbum de Americana. Em pouco tempo, Sturgill estava em programas de televisão de grande audiência e sendo chamado de salvador do country, um rótulo que ele próprio sempre rejeitou com certo mau humor. "Turtles All the Way Down" virou a porta de entrada para uma multidão de ouvintes que nunca tinham se interessado pelo gênero, inclusive fãs de rock alternativo e de psicodelia.
A faixa ganhou também um videoclipe animado, cheio de imagens oníricas, que reforçou a aura cósmica da música. E o próprio álbum trazia outras surpresas: uma regravação de "The Promise", do grupo new wave When in Rome, transformada numa balada de partir o coração, e uma faixa final com experimentos sonoros que lembram mais o rock psicodélico do que o country tradicional. Tudo isso apontava para um artista que não queria ficar preso em nenhuma caixa.
Os passos seguintes confirmaram essa vocação. Em 2016, Sturgill lançou "A Sailor's Guide to Earth", um disco dedicado ao filho, com metais de soul e uma versão de "In Bloom", do Nirvana, que venceu o Grammy de Melhor Álbum Country. Depois veio "Sound & Fury", um mergulho no rock pesado acompanhado de um filme de anime, e em seguida dois volumes de bluegrass acústico. Cada mudança parecia desconcertante, mas todas tinham raiz na mesma inquietação que já aparecia em "Turtles All the Way Down": a recusa em aceitar respostas fáceis.
Por que ela ainda ressoa hoje
Mais de uma década depois, a canção parece ainda mais atual. O interesse por psicodélicos saiu dos porões da contracultura e chegou às universidades e aos laboratórios de pesquisa sobre depressão e ansiedade. Podcasts, documentários e livros discutem a consciência, a meditação e a busca espiritual fora das instituições tradicionais. Muita gente que se descreve como espiritualizada mas não religiosa encontra nessa música uma espécie de hino involuntário.
No Brasil, essa conversa tem um sabor particular. Somos um país onde convivem catolicismo, evangélicos, candomblé, umbanda, espiritismo kardecista, budismo e as religiões da ayahuasca, muitas vezes na mesma família. A ideia de passear por várias tradições, de pegar um pouco de cada e, no fim, perceber que o que importa são as pessoas que você ama, soa extremamente familiar para quem cresceu nesse caldeirão. "Turtles All the Way Down" fala de uma experiência que muitos brasileiros conhecem sem precisar de tradução.
Há também a questão da honestidade. Num tempo em que tantas figuras públicas vendem certezas absolutas, seja sobre Deus, sobre política ou sobre a vida, ouvir alguém admitir que testou tudo e continua sem saber a resposta final é quase um alívio. Sturgill não se coloca como guru. Ele se coloca como um sujeito que deu muitas voltas e voltou para casa, e essa humildade é contagiante.
Por fim, existe o puro prazer musical. Mesmo para quem não presta atenção na letra, a música é linda: a melodia arrastada, o steel guitar que chora no fundo, a voz grave que parece ter atravessado décadas. É uma canção para ouvir dirigindo à noite, olhando o céu, pensando em quantas tartarugas existem até lá embaixo e em quem está esperando você chegar.
Como mergulhar mais fundo
🎧 Mergulhe no som
- Metamodern Sounds in Country Music (Sturgill Simpson, 2014) — Ouça o álbum inteiro na ordem, porque "Turtles All the Way Down" é a porta e o resto do disco é a casa. A releitura de "The Promise" e a faixa final experimental mostram como Sturgill misturava tradição e estranheza desde o começo.
- Modern Sounds in Country and Western Music (Ray Charles, 1962) — É o disco que inspirou o título do álbum de Sturgill. Ouvir Ray Charles transformando o country com orquestra e soul ajuda a entender por que reinventar o gênero de fora para dentro sempre foi um gesto de coragem.
- Gita (Raul Seixas, 1974) — Para o ouvinte brasileiro, é o espelho perfeito. Raul também misturou rock, esoterismo e humor numa busca espiritual que nunca aceitou dogmas, e o diálogo entre os dois artistas, separados por décadas e continentes, é surpreendentemente afinado.
📚 Siga a história
- DMT: The Spirit Molecule (Rick Strassman) — O livro que, segundo o próprio Sturgill, alimentou parte das ideias da canção. Strassman relata pesquisas clínicas com DMT nos anos 1990 e as experiências intensas dos voluntários, num texto que mistura ciência e especulação.
- Uma Breve História do Tempo (Stephen Hawking) — Logo nas primeiras páginas está a anedota das tartarugas que deu nome à música. Ler o livro ajuda a perceber como uma pergunta de física sobre a origem do universo pode virar uma pergunta íntima sobre o sentido da vida.
- As Portas da Percepção (Aldous Huxley) — O clássico ensaio sobre a experiência de alteração da consciência inspirou gerações de músicos, de The Doors a Sturgill. É uma leitura curta e provocadora que coloca a canção numa linhagem de buscadores que vem de muito longe.
🌍 Visite os lugares
- RCA Studio B, Nashville — O estúdio histórico onde Elvis, Dolly Parton e tantos outros gravaram fica aberto à visitação. Caminhar por ali é sentir o peso da tradição que Sturgill honrou no som e, ao mesmo tempo, desafiou nas letras.
- Leste do Kentucky e os Apalaches — A região de mineração onde Sturgill tem suas raízes é cheia de estradas sinuosas, montanhas cobertas de neblina e cidadezinhas com cultura bluegrass viva. É ali que se entende a gravidade melancólica da voz dele.
- Rio Branco e a Amazônia acreana — Foi no Acre que surgiu o Santo Daime, uma das tradições religiosas brasileiras que usam a ayahuasca, bebida que contém o DMT citado na canção. Visitar a região, com respeito às comunidades locais, mostra que as perguntas cósmicas de Sturgill também têm endereço na floresta brasileira.
🎸 Viva você mesmo
- Aprenda os acordes da música — A harmonia de "Turtles All the Way Down" é simples e gira em poucos acordes no violão. Tocar devagar, com dedilhado arrastado, é uma ótima forma de sentir como uma estrutura tão básica sustenta ideias tão grandes.
- Assista a um show de Sturgill Simpson — Ao vivo, ele costuma esticar as músicas com longos solos de guitarra e transformar baladas em jams psicodélicas. Se ele vier a fazer turnê internacional, vale a viagem para ver como a canção ganha vida nova a cada noite.
- Escreva a sua própria lista de tartarugas — Faça como o narrador: anote todos os caminhos que você já testou em busca de sentido, sejam religiões, livros, viagens ou mudanças de vida. Depois pergunte qual deles realmente segurou você nos dias difíceis, e talvez a resposta seja tão simples quanto a da canção.
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Sturgill Simpson faz apologia às drogas nessa música?
Não exatamente. Ele relata experiências com psicodélicos como parte de uma busca espiritual, mas a conclusão da canção é que nenhuma substância trouxe a resposta definitiva. O que o salvou, segundo a letra, foi o amor, e não as viagens químicas. -
De onde vem a expressão "turtles all the way down"?
Vem de uma anedota sobre regressão infinita, em que alguém afirma que o mundo se apoia numa tartaruga, que se apoia em outra, e assim por diante. Stephen Hawking a popularizou no início de "Uma Breve História do Tempo", e Sturgill a usou como metáfora para explicações espirituais que nunca chegam ao fundo. -
Existe alguma ligação entre a canção e o Brasil?
Existe uma ligação indireta e curiosa. O DMT citado na música é o princípio ativo da ayahuasca, usada em tradições religiosas brasileiras como o Santo Daime e a União do Vegetal. Além disso, a mistura de humor, misticismo e rebeldia aproxima Sturgill de Raul Seixas, um dos maiores buscadores da música brasileira.