SONGFABLE · 2016

That's What I Like

BRUNO MARS · 2016

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That's What I Like - Bruno Mars (2016)

TL;DR: Por baixo da fachada de luxo escandaloso e correntes de ouro, "That's What I Like" é Bruno Mars fazendo uma reverência sincera ao R&B dos anos 90 — uma carta de amor disfarçada de festa de magnata, construída por um cara que passou anos sendo subestimado antes de finalmente poder gastar do jeito que quisesse.

A verdade que ninguém percebe na primeira ouvida

Quando "That's What I Like" começa, com aquele estalo de dedos e o sintetizador macio escorrendo como mel, é fácil ouvir só a superfície: champanhe, ouro, condomínio com vista para o mar, jet ski. Parece a trilha sonora de alguém se gabando da própria conta bancária. Mas eis o detalhe que muita gente passa batido: a música não é sobre dinheiro. É sobre oferecer o mundo inteiro a uma pessoa específica e dizer, com toda a confiança, que ela merece exatamente isso.

Bruno Mars não está exibindo a riqueza para inflar o próprio ego. Ele está usando todo o luxo como uma linguagem de afeto. A faixa funciona como uma sedução, sim, mas o que está embaixo dela é generosidade — a fantasia de poder dar tudo de bom para quem você ama, sem freio, sem pedir nada em troca além da companhia. Essa é a reviravolta emocional que transforma uma música aparentemente fútil em um clássico que continua tocando em casamentos, festas e fones de ouvido quase uma década depois.

O garoto de Honolulu que demorou para ser levado a sério

Para entender essa música, vale conhecer o caminho de Peter Gene Hernandez — o nome real de Bruno Mars. Nascido em Honolulu, no Havaí, em uma família de músicos, ele subia ao palco imitando Elvis Presley quando ainda era criança pequena. Cresceu cercado de reggae, doo-wop, rock and roll, hip-hop e R&B, e essa mistura cultural marcou tudo o que ele faria depois. O apelido "Bruno" reportadamente vem da infância, de uma semelhança que o pai via com um lutador chamado Bruno Sammartino.

Antes de virar estrela, ele passou anos nos bastidores de Los Angeles como compositor e produtor, escrevendo sucessos para outros artistas e quase desistindo da carreira. Quando finalmente estourou como cantor, ainda carregava a fama de "cara das baladas românticas grudentas". "That's What I Like" faz parte de um momento de virada: o álbum 24K Magic, de 2016, foi a declaração definitiva de que Bruno Mars era, antes de tudo, um devoto profundo do funk e do R&B negro dos anos 80 e 90 — não um vendedor de baladas para rádio.

Há uma conexão que costuma surpreender o ouvinte brasileiro que ama rock e pop internacional: o avô de Bruno Mars tinha ascendência porto-riquenha, e ele cresceu numa Honolulu multicultural onde a música latina, o reggae e o soul conviviam. Esse caldeirão de ritmos não está longe da própria sensibilidade brasileira, em que samba, soul, funk carioca e pop se cruzam o tempo todo. Quem cresceu ouvindo a black music que tocava nos bailes do Brasil — aquele groove de Michael Jackson, Earth, Wind & Fire e companhia — reconhece imediatamente o DNA que pulsa em "That's What I Like". É a mesma família sonora, falando uma língua que o brasileiro já entende no corpo antes de entender na cabeça.

O que a letra realmente diz quando você presta atenção

A música é construída como um convite. O narrador descreve, item por item, tudo o que pode proporcionar para a pessoa amada: noites em lugares luxuosos, viagens, presentes, conforto material sem limites. Mas o tom nunca é frio nem transacional. Cada descrição de luxo vem embrulhada em um carinho específico, como se ele estivesse dizendo "olha tudo o que eu quero compartilhar com você".

O refrão funciona como uma lista de desejos invertida — em vez de pedir, ele oferece. E o detalhe esperto é que, no meio de toda a opulência, o que ele realmente valoriza não são os objetos, e sim a sensação de estar ao lado daquela pessoa enquanto vive tudo isso. O dinheiro é só o meio. A companhia é o fim. Quando ele repete que "é disso que ele gosta", o "isso" não é o ouro nem o jet ski. É a química, a parceria, a noite que só faz sentido se for compartilhada.

Há também uma vulnerabilidade escondida. Por baixo da bravata, existe alguém querendo impressionar, querendo ser escolhido, oferecendo o melhor de si com a esperança de ser correspondido. Essa tensão — confiança total na superfície, desejo de aprovação por baixo — é o que dá calor humano a uma faixa que poderia ter virado um mero comercial de estilo de vida. Bruno Mars sabe a diferença, e canta cada linha como quem sorri de canto de boca.

O resgate de uma era inteira de R&B

"That's What I Like" não nasceu no vácuo. Ela é parte de um projeto maior de 24K Magic de reviver, com amor obsessivo pelos detalhes, o som do New Jack Swing e do R&B suave dos anos 90 — a era de artistas como Bobby Brown, Boyz II Men, Jodeci e Babyface. Os arranjos, a produção limpa e brilhante, os vocais em camadas, a percussão programada com aquele balanço específico: tudo é uma reconstrução carinhosa de uma época que muitos consideravam ultrapassada.

O que Bruno Mars fez foi pegar esse som e apresentá-lo a uma geração que talvez nunca tivesse vivido aquilo nas rádios. A música ganhou o Grammy de Canção do Ano e de Melhor Performance de R&B, entre outros, e ajudou 24K Magic a faturar o Álbum do Ano. Foi um reconhecimento importante: a academia premiou não uma inovação radical, mas uma celebração tão bem-feita de um gênero que o resultado soava fresco de novo.

Esse movimento de "retro feito com perfeição" colocou Bruno Mars em uma posição curiosa. Houve quem o acusasse de apropriação, e houve quem o defendesse como um discípulo genuíno e respeitoso da música negra americana, sempre creditando explicitamente seus ídolos. O próprio Bruno respondeu em entrevistas que cresceu imerso nesses sons e que sua intenção sempre foi homenagear, não tomar emprestado. Independentemente do debate, é inegável que ele reabriu uma porta sonora que estava praticamente fechada no mainstream.

Por que ela ainda gruda hoje

Há músicas que envelhecem mal porque dependem demais de uma tendência momentânea. "That's What I Like" faz o contrário: por ser uma homenagem a um som já clássico, ela já nasceu fora do tempo, e por isso não envelhece. O groove continua impecável em qualquer pista de dança, e a melodia do refrão é daquelas que se grudam na cabeça depois de uma única audição.

Mas o motivo mais profundo de ela continuar relevante é emocional. Todo mundo entende a fantasia que ela vende — não a fantasia de ter dinheiro, mas a de poder cuidar de alguém de forma generosa, de transformar a vida da pessoa amada em uma sequência de momentos bons. É um sonho universal, e Bruno Mars o embala com tanto charme que o ouvinte se imagina tanto no lugar de quem oferece quanto no de quem recebe.

Para o público brasileiro, há um bônus: a música pede dança. Ela tem aquele balanço de quadril que conversa com o corpo treinado em soul, em funk, em pagode dançante. Não é à toa que ela emplaca em festas brasileiras de qualquer estilo. Ela carrega a alegria contagiante que a black music americana e a música popular brasileira compartilham — a ideia de que o prazer, a sedução e a celebração coletiva são coisas sérias, dignas de uma produção impecável. Quase dez anos depois, "That's What I Like" continua sendo prova de que classe atemporal nunca sai de moda.


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