SONGFABLE · 1983

Say Say Say

MICHAEL JACKSON · 1983

TL;DR: Por trás do refrão grudento e do clipe divertido de dois trambiqueiros vendendo poção milagrosa, "Say Say Say" é uma súplica desesperada de alguém que implora por uma resposta sincera, e também o registro de uma amizade entre dois gigantes do pop que pouco tempo depois se desfaria por causa de um negócio milionário.
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O dueto que parecia leve demais para ser verdade

Quem ouve "Say Say Say" pela primeira vez costuma pensar numa coisa só: diversão. A batida é saltitante, a gaita de boca abre caminho com um ar de feira de interior, e as vozes de Paul McCartney e Michael Jackson se revezam como dois amigos brincando de quem canta mais bonito. Mas a surpresa está justamente aí. Por baixo daquele brilho todo existe uma canção sobre angústia, sobre alguém que chora sozinho e pede, quase de joelhos, que a pessoa amada finalmente diga o que sente.

E existe uma segunda camada, que só o tempo revelou. Esta é a fotografia de uma amizade que parecia indestrutível. Em 1983, o ex-Beatle mais popular do planeta e o artista que estava prestes a se tornar o maior vendedor de discos da história dividiam o microfone, as piadas e até conselhos de negócios. Dois anos depois, um desses conselhos voltaria como um bumerangue, e os dois praticamente deixariam de se falar. "Say Say Say" é, ao mesmo tempo, um sucesso radiante e um documento de algo que se perdeu.

Para o público brasileiro, que sempre teve uma relação apaixonada com os dois artistas, a canção tem ainda um sabor especial: ela une, numa só faixa, dois nomes que mais tarde deixariam marcas profundas no próprio Brasil.

Como dois gigantes foram parar no mesmo estúdio

A história começa, segundo a versão mais contada, com um telefonema. No fim dos anos 1970, Michael Jackson teria ligado para Paul McCartney dizendo, com aquela voz suave e tímida que o mundo inteiro conhecia, que queria compor algumas músicas com ele. McCartney achou a ideia ótima. Jackson já tinha gravado uma versão de "Girlfriend", canção do disco "London Town" dos Wings, no álbum "Off the Wall" de 1979, e a admiração era mútua.

As sessões aconteceram em 1981, principalmente em Londres, nos estúdios AIR, com produção de George Martin, o lendário "quinto Beatle". Naquele momento, McCartney estava trabalhando no material que viraria os álbuns "Tug of War" (1982) e "Pipes of Peace" (1983). Jackson, por sua vez, estava a pouco tempo de entrar em estúdio com Quincy Jones para fazer "Thriller". Diz-se que os dois compuseram "Say Say Say" juntos, sentados lado a lado, McCartney ao violão e Jackson trabalhando melodias e frases vocais, num processo que ambos descreveriam depois como leve e cheio de risadas.

Dessa parceria nasceram três faixas conhecidas. "The Girl Is Mine" saiu primeiro, em 1982, como o single de estreia de "Thriller", e ficou famosa pela brincadeira dos dois disputando a mesma garota. "The Man" entrou em "Pipes of Peace". E "Say Say Say", gravada antes mas guardada na gaveta, foi lançada como single em outubro de 1983, quando "Thriller" já era um fenômeno global. O timing não poderia ter sido melhor: Jackson estava no auge absoluto, e qualquer coisa com seu nome virava acontecimento.

Há um detalhe curioso sobre os bastidores. Conta-se que, durante a convivência daquela época, McCartney mostrou a Jackson como os direitos de publicação de canções eram uma fonte enorme e duradoura de dinheiro, comentando sobre o próprio catálogo que tinha adquirido, incluindo obras de Buddy Holly. Jackson teria ouvido com atenção e brincado que um dia compraria as músicas dos Beatles. McCartney riu. Não era piada.

O gancho brasileiro aparece na trajetória dos dois depois daquela parceria. Em abril de 1990, McCartney tocou no Maracanã para uma plateia estimada em cerca de 184 mil pessoas, número que por muito tempo foi citado como recorde de público pagante para um show de um artista solo. E em 1996, Michael Jackson subiu o Morro Dona Marta, no Rio, e gravou no Pelourinho, em Salvador, ao lado do Olodum, o clipe de "They Don't Care About Us". Os dois artistas que cantaram juntos em "Say Say Say" acabaram, cada um a seu modo, escrevendo capítulos da memória pop brasileira.

O que a canção realmente diz

Esqueça por um instante o clipe e a alegria da produção. Se você prestar atenção à história contada pela letra, vai encontrar um narrador em crise. Ele está sozinho, chorando, e o que mais dói não é exatamente a rejeição, e sim o silêncio. A pessoa amada não fala, não explica, não decide. E ele pede, repetidamente, que ela diga alguma coisa, qualquer coisa, que dê um sinal sobre o que quer dele.

O título, com a palavra repetida três vezes, funciona como um eco da insistência. É o tipo de repetição que a gente faz quando já tentou de tudo e está ficando sem argumentos. O narrador oferece a si mesmo, promete ajudar a pessoa a superar suas dores, lembra que está ali de verdade. Em certo momento, a música sugere que ele já está cansado de esperar, quase entregando os pontos, mas ainda assim não consegue ir embora.

Existe uma inversão interessante na forma como os dois cantores dividem o papel. Não são dois rivais disputando a mesma mulher, como em "The Girl Is Mine". Aqui eles parecem cantar com uma só voz, como se fossem duas metades do mesmo coração partido. McCartney traz o calor e a maturidade de quem já viveu muitas histórias, e Jackson acrescenta aquela vulnerabilidade aguda, quase infantil, que era uma de suas marcas. Quando as vozes se encontram, a súplica fica maior do que a de um homem só.

Também há uma ideia de cura escondida ali. O narrador não está apenas pedindo para ser amado; ele quer cuidar, quer secar as lágrimas do outro, quer fazer parte da vida daquela pessoa. É um amor generoso, mas frustrado pela falta de comunicação. E talvez seja por isso que a música toca tanta gente: quase todo mundo já esteve do lado de quem espera uma mensagem que não chega.

A produção de George Martin sabe disso e escolhe o caminho do contraste. Em vez de uma balada triste, ele entrega um arranjo animado, com metais, baixo pulsante e uma gaita de boca, tocada por Chris Smith, segundo os créditos mais citados, que dá um ar de estrada e liberdade. O resultado é uma canção que dança enquanto chora, um truque que o pop sempre adorou e que poucas vezes funcionou tão bem.

O clipe, o sucesso e a ruptura

Se a música já era forte, o videoclipe ajudou a transformá-la num evento. Dirigido por Bob Giraldi, o mesmo de "Beat It", o vídeo foi filmado na Califórnia, na região do vale de Santa Ynez, e conta uma história de faroeste cômico. McCartney e Jackson interpretam Mac e Jack, uma dupla de vigaristas simpáticos que viajam de cidade em cidade vendendo um elixir milagroso. Jackson toma a poção e, de repente, levanta um homem forte como se fosse uma pena, num truque armado para enganar a plateia. Linda McCartney aparece como parceira da dupla, e La Toya Jackson faz uma participação também.

A graça é que, no fim, Mac e Jack doam o dinheiro que ganharam para um orfanato. São trambiqueiros de coração mole. Há números de vaudeville, roupas de época, um ar de cinema antigo, e uma cena num bar onde os dois dançam e se apresentam no palco. Fala-se que a produção foi cara para os padrões da época e que era uma das primeiras vezes em que um clipe era tratado como um pequeno filme narrativo, alguns meses antes da estreia de "Thriller" na MTV.

Nas paradas, o efeito foi imediato. "Say Say Say" chegou ao primeiro lugar da Billboard Hot 100 e ficou lá por seis semanas entre o fim de 1983 e o começo de 1984. Foi um dos maiores sucessos do ano nos Estados Unidos e, segundo os registros mais citados, o último número um de McCartney na parada americana até hoje. No Reino Unido, chegou ao segundo lugar. No Brasil, tocou bastante nas rádios FM da época, num momento em que tudo o que tinha a voz de Michael Jackson parecia virar trilha sonora de festa.

Mas a história mudou de tom em 1985. Naquele ano, o catálogo da ATV Music, que incluía boa parte das canções escritas por Lennon e McCartney, foi colocado à venda. Jackson fez uma oferta e comprou o catálogo por cerca de 47,5 milhões de dólares, segundo os valores mais divulgados. McCartney, que havia tentado comprar os direitos em outras ocasiões, ficou profundamente magoado. Ele contaria depois que tentou conversar com Jackson sobre o assunto e que recebeu como resposta, mais ou menos, que aquilo era só negócio. A amizade esfriou e, segundo o próprio McCartney, os dois nunca mais retomaram a mesma proximidade.

É impossível ouvir "Say Say Say" hoje sem pensar nisso. Uma música sobre alguém que implora por diálogo foi gravada por dois homens que, pouco depois, deixariam de dialogar. A ironia é tão grande que parece roteiro.

Por que ela ainda soa tão atual

Em 2015, mais de três décadas depois do lançamento original, McCartney lançou uma nova mixagem de "Say Say Say", feita a partir das fitas originais, com a voz de Michael Jackson colocada mais à frente do que na versão de 1983. A mudança não foi casual. Muitos interpretaram o gesto como uma homenagem ao parceiro, que havia morrido em 2009. O novo clipe trocou os adultos por crianças e adolescentes recriando o espírito da dupla de trambiqueiros, como se a amizade de Mac e Jack passasse para uma nova geração. Para quem acompanhava a história, foi um gesto bonito, uma espécie de reconciliação póstuma feita do único jeito possível: pela música.

Mas a canção não sobrevive apenas por nostalgia. Ela continua funcionando porque o tema é universal e o arranjo é irresistível. A sensação de esperar uma resposta que não vem ficou ainda mais familiar na era das mensagens visualizadas e não respondidas. Aquele narrador que pede, insiste e chora poderia muito bem estar encarando a tela do celular hoje.

Há também algo de raro naquele encontro. O pop dos anos 1980 produziu muitos duetos, mas poucos reuniram dois artistas de linhagens tão diferentes em pé de igualdade. McCartney vinha da tradição britânica da canção bem construída, com raízes no music hall e no rock dos anos 1960. Jackson vinha da Motown, do soul, do funk e de uma noção de performance que mudaria a cultura pop para sempre. Em "Say Say Say", essas duas escolas se misturam sem que nenhuma engula a outra.

Para o fã brasileiro de rock e pop internacional, a faixa é quase uma ponte entre duas devoções. Muita gente cresceu com os discos dos Beatles em casa, herdados dos pais, e descobriu Michael Jackson na adolescência, dançando "Billie Jean" nas festas. "Say Say Say" é o lugar onde essas duas paixões se cumprimentam. E, ouvida hoje, ela tem o charme de uma carta antiga: alegre na superfície, um pouco triste quando a gente sabe o que veio depois.


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