SONGFABLE · 2016

Nikes

FRANK OCEAN · 2016

TL;DR: Parece uma faixa sobre tênis caros e vida de luxo, mas "Nikes" é na verdade um lamento sobre pessoas que morreram jovens, sobre amor comprado a peso de marca e sobre o próprio Frank Ocean tirando a máscara no meio da música — a voz aguda e artificial some, a voz real aparece, e tudo muda de sentido.
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O gancho: a voz que não é dele

Quem escuta "Nikes" pela primeira vez costuma reagir da mesma forma: franze a testa e checa se o aplicativo não estragou o áudio. A faixa que abre Blonde, o álbum mais aguardado da década passada, começa com uma voz estranha, acelerada, fina, quase infantil — nada parecida com o timbre aveludado que fez de Frank Ocean o cantor mais reverenciado da sua geração. Depois de quatro anos de silêncio absoluto, o cara reaparece soando como um desenho animado.

Não é defeito. É a tese da música inteira.

Durante quase dois terços da faixa, Frank canta com a voz digitalmente elevada, encarnando uma espécie de personagem — alguém raso, deslumbrado, obcecado por status, por marcas, por gente que quer estar por perto pelo motivo errado. E então, sem aviso, a batida se abre e a voz natural dele finalmente entra, grave, humana, cansada. É como se a máscara caísse no meio da conversa. Esse corte, mais do que qualquer verso, é o que faz "Nikes" ser uma das aberturas de álbum mais discutidas dos anos 2010: a música não fala sobre autenticidade, ela encena a diferença entre a versão performática de uma pessoa e a versão verdadeira.

E dentro desse jogo de vozes há algo muito mais pesado do que consumismo. "Nikes" carrega, quase sussurrados, os nomes de pessoas reais que morreram jovens — homenagens escondidas dentro de uma faixa que, na superfície, parece falar de sapatos.

O contexto: quatro anos de sumiço e um dos maiores golpes da história da indústria

Para entender o tamanho de "Nikes", é preciso lembrar do vácuo que a antecedeu. Christopher Edwin Breaux, nascido em 1987 e criado em Nova Orleans, na Louisiana, virou Frank Ocean depois que o furacão Katrina destruiu, em 2005, o estúdio onde ele gravava. Foi embora para Los Angeles com pouca coisa, escreveu canções para outros artistas, entrou no coletivo Odd Future ao lado de Tyler, the Creator, e explodiu em 2012 com channel ORANGE, um disco de soul futurista que ganhou Grammy e reescreveu o que se esperava de um cantor de R&B.

Poucos dias antes daquele lançamento, ele publicou no Tumblr uma carta aberta contando que seu primeiro amor tinha sido um homem. Num gênero historicamente conservador nessas questões, aquilo foi um terremoto — e transformou Frank em algo maior do que um músico: virou símbolo.

Depois disso, silêncio. Anos de promessas adiadas, datas anunciadas e ignoradas, fãs enlouquecidos atualizando páginas em branco. A lenda diz que ele passou boa parte desse tempo trancado em estúdios em Los Angeles e Londres, gravando e descartando material sem parar, obcecado por acertar.

O desfecho é uma das histórias empresariais mais comentadas da música recente. Frank devia um último álbum à gravadora Def Jam. Em agosto de 2016, ele entregou Endless, um álbum visual de quase quarenta e cinco minutos em que aparece construindo uma escada — cumprindo o contrato. No dia seguinte, já livre e dono da própria obra, lançou Blonde de forma independente, pelo selo Boys Don't Cry. Segundo os relatos da imprensa da época, a manobra teria custado uma pequena fortuna em receita à antiga gravadora, e o chefe da Universal teria proibido internamente novos acordos de exclusividade em streaming logo depois. Foi um artista jovem virando o tabuleiro sozinho.

Blonde chegou sem single de rádio, sem entrevista, sem campanha. Chegou com uma revista impressa distribuída em lojas temporárias em quatro cidades e com "Nikes" como primeira faixa e primeiro vídeo. A escolha diz muito: em vez de abrir com o hit mais fácil, Frank abriu com a faixa mais desconcertante do disco.

Para o ouvinte brasileiro, existe aqui uma ponte que quase ninguém comenta. Poucos países do mundo têm uma relação tão carregada com a marca do título quanto o Brasil. Desde os anos 1990, quando a empresa americana passou a vestir a seleção e produziu aquele comercial de aeroporto que virou memória afetiva coletiva, o símbolo virou parte do imaginário nacional. E, na periferia brasileira, o tênis de marca sempre foi muito mais que calçado: é passaporte social, é prova de que você venceu, é o objeto que o rap e o funk cantam há décadas com uma mistura exata de desejo e ironia — a mesma mistura que Frank Ocean coloca em "Nikes". Quem cresceu ouvindo Racionais falar sobre o preço simbólico das coisas caras entende essa faixa antes mesmo de traduzir uma palavra.

O significado: objetos caros, gente que morreu e um amor difícil de nomear

O que "Nikes" descreve, na sua primeira metade, é um ambiente. Um mundo onde as relações vêm com preço de tabela, onde as pessoas se aproximam pelo brilho e não pela pessoa, onde presentes caros substituem conversas e a atenção é uma moeda como qualquer outra. O narrador da voz aguda observa esse cenário de dentro, meio anestesiado, meio divertido, apontando que muita gente ao redor vai embora assim que o dinheiro acabar. Ele não está pregando contra o consumo — ele está imerso nele, e é justamente esse pertencimento que dá à cena um gosto amargo.

Mas então, no meio dessa paisagem de vitrine, a letra faz algo brutal: menciona mortos. Ao longo da faixa, Frank cita — de forma breve, quase de passagem — figuras reais que partiram cedo demais. Há a lembrança de Trayvon Martin, o adolescente negro morto na Flórida em 2012 num caso que acendeu o movimento Black Lives Matter, invocado com a observação simples e devastadora de que o garoto se parecia com ele. Há referências a A$AP Yams, o influente criador do coletivo A$AP Mob, morto em 2015, e a Pimp C, do lendário duo texano UGK, morto em 2007. São nomes que qualquer fã de hip-hop americano reconhece de imediato e que um ouvinte estrangeiro pode atravessar sem perceber.

A justaposição é o método. Frank coloca sapatos e caixões na mesma frase, luxo e luto no mesmo compasso, e deixa o contraste trabalhar sozinho. A pergunta implícita é insuportavelmente simples: quanto vale um par de tênis num mundo onde meninos negros morrem por nada e amigos somem antes dos trinta?

Aí vem a virada. A voz volta ao normal, e a faixa se transforma numa espécie de carta de amor exausta. O narrador fala de desejo, de fidelidade duvidosa, de querer alguém que talvez não seja bom para ele, de estar bêbado e sincero ao mesmo tempo. Há um trecho célebre em que ele afirma sua atração por mulheres e por homens no mesmo fôlego, com uma naturalidade que soa mais política do que qualquer manifesto — dito não como declaração, mas como fato banal da vida dele. Nada disso é resolvido. A música termina flutuando, sem conclusão, como se a conversa tivesse sido interrompida.

O vídeo, dirigido por Tyrone Lebon e lançado junto com o álbum, amplifica tudo: imagens filmadas em vários formatos de película, corpos, purpurina, luz estroboscópica, Frank com o rosto coberto de brilho e uma lágrima glitterizada escorrendo. É bonito e desconfortável na mesma medida — exatamente como a faixa.

Contexto cultural e legado: a abertura que ensinou uma geração a ouvir diferente

Blonde virou, com o passar dos anos, um daqueles discos que aparecem em toda lista de melhores da década. E "Nikes" ocupa nele a função de porteiro: quem aguenta os primeiros noventa segundos entra; quem desiste, fica de fora. A faixa avisa logo de cara que aquele não seria o channel ORANGE parte dois, com refrões redondos e produção luxuosa. Seria um disco de guitarras secas, silêncios longos, vozes manipuladas e emoção sem verniz.

O truque da voz alterada não era inédito — produtores de hip-hop aceleram vocais em samples desde os anos 1990, e Kanye West construiu carreira sobre isso — mas Frank inverteu a lógica. Em vez de usar o recurso para criar euforia, usou para criar estranhamento e distância emocional. Depois de "Nikes", uma leva inteira de artistas passou a brincar com pitch como ferramenta narrativa, e não apenas como efeito. Dá para ouvir esse eco em muita coisa produzida do final dos anos 2010 para cá, do R&B alternativo à cena de bedroom pop.

Há também o detalhe que os fãs adoram: a capa do disco traz a palavra escrita de um jeito, e os serviços de streaming registram de outro — uma ambiguidade de gênero embutida no próprio título, que combina demais com um artista que sempre recusou rótulos. Frank raramente explica qualquer coisa. Dá poucas entrevistas, some por temporadas, aparece em desfiles de moda, some de novo. Essa recusa a se explicar transformou cada faixa dele em campo aberto de interpretação, e "Nikes" é o exemplo mais fértil de todos.

Por que ainda ressoa hoje

Quase uma década depois, a faixa envelheceu de um jeito quase profético. A tensão que ela encena — a versão editada de si mesmo contra a pessoa real por baixo — virou a experiência cotidiana de qualquer um que passe algumas horas por dia rolando um feed. A voz aguda de "Nikes" é, no fundo, o filtro. A voz grave que aparece depois é o que sobra quando o filtro cai às três da manhã.

O tema das mortes precoces também não perdeu urgência, nem nos Estados Unidos nem por aqui. A referência a Trayvon Martin continua acesa num Brasil onde jovens negros morrem em números que envergonham qualquer estatística, e a mistura de luto com consumo que Frank pinta é reconhecível em qualquer periferia do mundo onde o único luxo acessível é o que se veste no pé.

E existe o mais simples de tudo: "Nikes" é uma música linda. Estranha, torta, difícil de cantar junto, mas linda. Ela recompensa quem volta — na décima escuta você percebe uma camada de sintetizador que não tinha notado, uma palavra escondida, um respiro. Poucas canções pop deste século pedem tanto do ouvinte e devolvem tanto. Num tempo em que quase tudo é feito para ser consumido em quinze segundos, uma faixa que exige paciência e entrega mistério é quase um ato de resistência.


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