SONGFABLE · 1971

Imagine

JOHN LENNON · 1971

Em 1971, um ex-Beatle gravou em um piano branco de cauda, no quarto de sua mansão em Tittenhurst Park, a canção que se tornaria o hino utópico mais executado do século XX. "Imagine" propõe um exercício mental radical — desfazer, um a um, os pilares que organizam a vida moderna: paraíso e inferno, países, posses, religiões — e ainda assim soa como uma cantiga de ninar. Meio século depois, a faixa continua sendo simultaneamente reverenciada como prece secular e criticada como ingenuidade burguesa, e essa tensão é precisamente o que a mantém viva.
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Hook: a faixa mais perigosamente simples já gravada

Há uma certa categoria de canções pop que funcionam como um truque de mágica: parecem tão óbvias, tão inevitáveis, que é difícil acreditar que precisaram ser inventadas. "Imagine" pertence a esse panteão. Três acordes principais, uma melodia que qualquer criança consegue cantarolar depois de uma única escuta, uma letra cujas frases iniciais são quase pedagógicas em sua clareza — peça que o ouvinte imagine algo, descreva o que está sendo imaginado, repita. É uma fórmula de canção infantil aplicada a uma das proposições filosóficas mais incendiárias do pop ocidental.

O paradoxo é exatamente esse. Sob o esmalte de balada para piano, há uma desmontagem sistemática do mundo tal como o conhecemos. Não há paraíso, não há inferno, não há países, não há religião, não há propriedade. A voz de John Lennon, nasalada e suave, entrega esse manifesto com a calma de quem está oferecendo café da manhã. E é precisamente essa dissonância entre forma e conteúdo — entre o embalo morno e a proposta civilizacionalmente vertiginosa — que torna "Imagine" uma das canções mais discutidas, sequestradas, parodiadas e abraçadas da história recente.

Background: do "Grapefruit" de Yoko Ono ao piano branco

A história oficial, repetida em entrevistas que Lennon concedeu até sua morte em 1980, atribui generosamente a inspiração de "Imagine" a Yoko Ono. Mais especificamente, ao livro "Grapefruit", publicado por ela em 1964, uma coletânea de instruções conceituais herdada da arte Fluxus. Várias dessas instruções começam com o verbo "imagine" — imagine que as nuvens estão pingando, imagine mil sóis no céu ao mesmo tempo. A própria Ono recebeu, em 2017, crédito oficial de coautoria pela National Music Publishers Association, décadas depois de Lennon já ter dito publicamente, em uma entrevista de 1980 à BBC, que a canção deveria ter sido creditada como Lennon-Ono.

A gravação aconteceu em maio e junho de 1971 nos estúdios montados na própria mansão de Tittenhurst Park, em Ascot, Inglaterra, com produção dividida entre Lennon, Ono e Phil Spector. O famoso piano branco Steinway — que se tornaria objeto fetiche, peregrinado e fotografado como uma relíquia — foi presente de Lennon para Yoko Ono. A faixa-título foi gravada em poucas tomadas. A banda de apoio era enxuta: Klaus Voormann no baixo, Alan White na bateria, e arranjos de cordas posteriormente sobrepostos pela The Flux Fiddlers. Spector aplicou seu característico tratamento de reverb, mas de forma contida — bem menos "muro de som" do que em projetos anteriores.

O contexto político é decisivo. Lennon havia rompido com os Beatles em 1970, atravessado o álbum cru e psicanalítico "John Lennon/Plastic Ono Band", participado de protestos pró-paz com performances como o "Bed-In" de Amsterdã e Montreal em 1969, e se mudaria pouco depois para Nova York, onde se tornaria figura central da contracultura anti-Guerra do Vietnã. "Imagine" não nasceu em um vácuo de feel-good: surge no calor da repressão norte-americana aos movimentos pacifistas, das ações de vigilância do FBI sobre Lennon, e da derrocada das utopias de 1968.

Sentido real: uma canção comunista vestida de cantiga

Lennon foi extraordinariamente franco sobre o que queria dizer. Em entrevista a David Sheff publicada pela revista Playboy em janeiro de 1981, pouco antes de sua morte, ele descreveu "Imagine" como "praticamente o Manifesto Comunista", acrescentando que conseguiu fazer engolir uma mensagem politicamente radical porque a embrulhou em mel. A canção, segundo ele, era anti-religiosa, anti-nacionalista, anti-convencional e anti-capitalista — mas, "como é coberta de açúcar, é aceita".

Cada estrofe desmonta um pilar. O primeiro — a abolição de paraíso e inferno — ataca a metafísica cristã sobre a qual repousa boa parte da ética ocidental. Se não há recompensa pós-morte nem castigo, todo significado precisa ser construído aqui e agora, neste único dia que se vive. O segundo pilar — a ausência de países — ecoa o cosmopolitismo iluminista e o internacionalismo socialista, e tem, no contexto de 1971, uma dimensão de protesto direto contra a Guerra do Vietnã e contra a lógica de Estados-nação prontos para enviar jovens à morte por bandeiras. O terceiro — a abolição da propriedade — é talvez o mais inflamável e o mais convenientemente esquecido pelos governos que adotam a canção em cerimônias oficiais. Lennon não estava propondo reforma agrária moderada; estava sugerindo, melodicamente, o fim da posse privada como princípio organizador.

O refrão atenua a radicalidade ao recolocar o ouvinte na posição confortável de "sonhador" — alguém que sabe que talvez seja considerado ingênuo, mas que insiste em imaginar de qualquer modo. A genialidade está aí: a canção não exige adesão, oferece companhia. Não diz "faça"; diz "imagine que". E ao baixar a guarda do ouvinte, faz entrar pela porta dos fundos uma das propostas mais subversivas que o pop mainstream já abrigou.

Contexto cultural brasileiro: utopia, ditadura e o eco tropical

Quando "Imagine" foi lançada em outubro de 1971, o Brasil vivia sob o regime militar e o Ato Institucional Nº 5 já estava em vigor desde dezembro de 1968. Caetano Veloso e Gilberto Gil voltavam do exílio londrino apenas no ano seguinte, depois de terem sido presos em 1968 e expulsos do país. A Tropicália — aquele movimento que misturara guitarras elétricas, baião, Oswald de Andrade antropofágico e cinema marginal — já havia sido oficialmente sufocada, mas seus ecos continuavam ressoando. Os Mutantes, com Rita Lee, Sérgio e Arnaldo Baptista, eram a face mais explicitamente lennonista do rock brasileiro: a influência dos Beatles em "A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado" (1970) é palpável, quase devocional.

A recepção de "Imagine" no Brasil foi, portanto, atravessada por uma camada extra de significado. Imaginar um mundo sem fronteiras nem repressão tinha peso muito diferente em um país onde jornalistas eram torturados, livros eram censurados e canções precisavam disfarçar mensagens para passar pelo crivo da Divisão de Censura de Diversões Públicas. Chico Buarque, naqueles mesmos anos, estava escrevendo "Cálice" — que só seria liberada em 1978 — recorrendo à mesma estratégia lennonista de embrulhar denúncia em melodia palatável.

Já nos anos 1980, com a redemocratização, "Imagine" entrou definitivamente no repertório afetivo de uma geração que ouviu Cazuza cantar sobre um país caído, que viu Renato Russo e a Legião Urbana transformar Brasília em capital do rock existencialista, e que faria do primeiro Rock in Rio, em janeiro de 1985 — mesmo mês da eleição indireta de Tancredo Neves —, um ritual coletivo de catarse política travestido de festival. A presença de Queen, AC/DC e Yes naquele Rock in Rio convivia, no inconsciente coletivo, com o fantasma de Lennon, assassinado havia pouco mais de quatro anos. Cazuza, em "O Tempo Não Para", e Renato Russo, em "Que País é Este", retomariam o gesto lennonista de pedir contas ao próprio país, embora com a desilusão de quem já sabia que imaginar era pouco.

Há ainda uma linhagem mais sutil. Caetano Veloso, em ensaios e shows, citou Lennon repetidamente como referência ética e estética. Sua canção "London London", gravada em inglês durante o exílio, dialoga frontalmente com o universo lennonista — solidão, estrangeirice, uma certa melancolia urbana. Quando Caetano gravou "Sampa" anos depois, a mesma técnica do detalhe cotidiano transformado em meditação metafísica reaparece, herança partilhada do que se podia chamar de "modo de cantar de Lennon": baixo, próximo, quase falado.

Por que ressoa hoje

"Imagine" deveria, em princípio, ter envelhecido mal. Suas premissas são tão amplas que parecem flutuar acima da história: nenhuma menção a um país específico, a um governo, a um inimigo nomeado. E no entanto, ou justamente por isso, a canção continua a ser convocada em todo grande momento de luto coletivo do Ocidente — do 11 de setembro de 2001 (quando Neil Young a regravou em uma transmissão beneficente e a estação de rádio Clear Channel paradoxalmente a incluiu em uma lista interna de canções "sensíveis") ao atentado do Bataclan em Paris em 2015 (quando o pianista Davide Martello a tocou em um piano de rua em frente à casa de espetáculos), passando pelas Olimpíadas de Londres em 2012, em que coros infantis a entoaram.

Cada uso reabre o mesmo debate: é uma canção pacifista profunda ou é um placebo emocional que permite que multidões chorem juntas sem fazer absolutamente nada? Em 2020, durante o auge da pandemia da COVID-19, a atriz Gal Gadot organizou uma versão coletiva remota com diversas celebridades cantando do conforto de suas casas em quarentena, e o resultado foi recebido com escárnio quase universal. O paradoxo de pessoas extraordinariamente ricas pedindo ao público que imagine um mundo sem posses tornou-se meme antes mesmo de o vídeo terminar de viralizar.

Essa crise de recepção, contudo, não diminui a canção; expõe a fratura permanente que ela carrega desde 1971. "Imagine" é, ao mesmo tempo, uma prece sincera de um homem que de fato vivia em uma mansão com piano branco e uma proposta de mundo em que mansões com piano branco não deveriam existir. A contradição não é defeito; é o próprio combustível. A canção sobrevive precisamente porque admite, no seu coração, que o sonhador talvez não esteja sozinho — mas também talvez esteja completamente perdido.

No Brasil de hoje, atravessado por décadas de oscilação entre esperança democrática e desencanto institucional, a canção mantém uma força particular. Quando jovens cantam "Imagine" em vigílias após tragédias, ou quando ela toca em rádios em momentos de comoção nacional, está-se invocando algo que nem é exatamente o programa político de Lennon nem é exatamente um conforto burguês: é a permissão coletiva para suspender, por três minutos e meio, a noção de que o mundo é necessariamente do jeito que é. Esse exercício — pequeno, suave, ao piano — continua a ser, em uma era de algoritmos de polarização e fadiga democrática, um gesto cultural surpreendentemente útil.

Como mergulhar mais fundo

🎧 Ouça

Plastic Ono Band (John Lennon) O álbum imediatamente anterior a "Imagine", cru, dolorido e psicanaliticamente honesto. Ouvir os dois em sequência é entender a viagem do trauma à utopia. → Search

A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (Os Mutantes) A resposta brasileira mais imaginativa ao universo lennonista, gravada em 1970, com Rita Lee no auge psicodélico. Diálogo direto com o pós-Beatles. → Search

📚 Leia

Grapefruit (Yoko Ono) O livro de instruções conceituais de 1964 que originou o verbo "imagine" como prática poética. Leitura indispensável para reposicionar a canção em sua coautoria real. → Search

John Lennon: A Vida (Philip Norman) Biografia exaustiva e revisionista, escrita pelo mesmo autor de uma obra clássica sobre os Beatles. Trata o período 1970-1980 sem hagiografia. → Search

🌍 Visite

Strawberry Fields, Central Park, Nova York O memorial em mosaico com a palavra "Imagine" no centro, em frente ao edifício Dakota, onde Lennon foi assassinado em dezembro de 1980. Ponto de peregrinação de músicos do mundo todo. → Search

Tittenhurst Park, Ascot, Inglaterra A propriedade onde a canção foi composta e gravada, com o famoso piano branco. Atualmente residência privada, mas o jardim aparece no clipe original em filme 16mm dirigido pelo próprio Lennon e Ono. → Search

🎸 Experimente você mesmo

Toque a canção em três acordes A progressão é tão simples que pode ser aprendida em uma tarde: dó maior, fá maior, e o sutil empréstimo modal em si bemol. Sentar ao piano e tocá-la lentamente é a melhor forma de perceber a arquitetura da melodia. → Search

Reescreva sua própria versão Faça o exercício que Yoko Ono propunha em "Grapefruit": escreva dez instruções começando com "Imagine que…", sem repetir nenhuma proposta de Lennon. É um treino criativo que revela quanto da canção original depende de premissas culturalmente datadas. → Search


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