SONGFABLE · 2020

How You Like That

BLACKPINK · 2020

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How You Like That - BLACKPINK (2020)

TL;DR: Por baixo do brilho de estádio e dos beats que socam, "How You Like That" é uma faixa sobre cair lá no fundo do poço e voltar com a cara erguida — escrita por um grupo que estava, ele próprio, provando que poderia carregar um império inteiro nas costas depois de quase um ano sumido.

A virada que ninguém esperava virar bandeira

Tem uma armadilha em ouvir K-pop com ouvido de rockeiro: a gente assume que a euforia é só superfície, que aquilo é máquina de dança e nada mais. "How You Like That" desmonta isso na primeira meia dúvia de compassos. Por trás do refrão que parece feito para arquibancada lotada, a canção conta uma história de queda e revanche. É sobre alguém que foi jogado no chão, que se viu sozinho, e que decide não pedir pena — decide se levantar e olhar de volta para quem o derrubou com uma pergunta que é quase um soco: e aí, o que você acha disso agora?

Essa é a alma do som. Não é arrogância gratuita. É a postura de quem já apanhou da vida o suficiente para saber que o único jeito de sair do buraco é se reconstruir sozinho e fazer disso um espetáculo. Para o ouvinte brasileiro acostumado com a catarse do rock — aquele momento em que a guitarra explode justamente porque a letra estava sangrando — a lógica é a mesma. Só que aqui a explosão vem de um drop de produção e de quatro vozes que se revezam como instrumentos.

Quatro mulheres, uma pausa de quase um ano e uma estreia que parou a internet

Para entender o peso de "How You Like That", é preciso saber onde a BLACKPINK estava em 2020. O grupo — formado por Jisoo, Jennie, Rosé e Lisa, sob a gravadora sul-coreana YG Entertainment — tinha estreado em 2016 e virado fenômeno global, mas vinha de um silêncio incômodo. Os fãs, os chamados BLINKs, reclamavam havia tempos da escassez de músicas novas. Dizem que essa lacuna criou uma pressão quase insuportável: cada lançamento precisava justificar a espera.

Quando "How You Like That" saiu, em junho de 2020, foi como abrir uma represa. O clipe pulverizou recordes do YouTube — reportadamente o vídeo musical mais visto nas primeiras 24 horas até então, com dezenas de milhões de visualizações em um único dia. E tudo isso aconteceu no meio da pandemia, com o mundo trancado em casa, sem turnês, sem palco físico. A canção virou, sem querer, a trilha de um momento coletivo de confinamento e desejo de explosão.

Vale plantar aqui uma fisgada cultural para quem está lendo do Brasil. A YG, gravadora da BLACKPINK, tem um histórico curioso de flertar com sonoridades latinas e tropicais nos seus arranjos de hip-hop e pop — e o próprio universo do K-pop, nos anos seguintes, foi atravessado por colaborações com artistas latinos. Mas o detalhe que mais conecta o Brasil a esse som é outro: a estética de reviravolta, de "fênix que renasce", é praticamente a mesma que move o sertanejo de superação, o pagode de quem deu a volta por cima e até o funk ostentação. A narrativa de "eu estava por baixo, agora me olha" é um idioma emocional que o brasileiro fala fluentemente. "How You Like That" só traduz isso para coreano, inglês e um beat de trap-pop com sopros que parecem fanfarra de vitória.

Conta-se também que o grupo apresentou a música em programas de auditório dos Estados Unidos àquela altura, levando a estética do K-pop para o horário nobre americano num momento em que o gênero ainda lutava para ser levado a sério no Ocidente. Era, em muitos sentidos, uma faixa de afirmação dupla: das quatro artistas e do próprio gênero.

O que a letra realmente diz, sem citar uma linha sequer

Se você destrinchar o conteúdo da canção, vai encontrar um arco emocional bem definido, dividido entre as quatro integrantes. Os versos iniciais descrevem o fundo do poço: a sensação de ter sido abandonado, de despencar quando se acreditava no auge, de enxergar o céu desabar justamente quando se esperava um milagre. Não há eufemismo. A narradora admite a dor sem dourar a pílula.

O movimento seguinte é a recusa. Em vez de afundar, a personagem decide endurecer. Há uma imagem recorrente de erguer a cabeça, de secar as lágrimas e transformá-las em combustível. A canção não promete que alguém vai chegar para salvar — ao contrário, o recado é que ninguém vem, e que a salvação tem de ser fabricada pela própria pessoa. Essa autonomia é o que dá à faixa um nervo mais áspero do que o brilho do refrão sugere.

E então vem o refrão, que funciona como o ato final dessa pequena tragédia invertida. O título repetido — "How You Like That" — opera como um desafio lançado de volta a quem duvidou, a quem traiu, a quem virou as costas. É a frase de quem voltou transformado e quer ver a reação alheia diante do próprio renascimento. Não é vingança no sentido de fazer mal a alguém; é vingança no sentido de existir esplendidamente apesar de tudo. A melhor resposta, diz a música nas entrelinhas, é prosperar.

As partes de rap, entregues principalmente por Jennie e Lisa, intensificam essa atitude. Elas funcionam como o momento em que a canção mostra os dentes, enquanto Jisoo e Rosé carregam a parte mais melódica, a costura emocional. Esse contraste entre fúria e melodia é exatamente o tipo de tensão que um fã de rock reconhece num refrão grudento seguido de um verso cuspido com raiva.

O som como arquitetura: por que o "drop" virou assunto

Musicalmente, "How You Like That" pertence a uma escola de produção que mistura trap, EDM e pop, com aquela característica marcante do K-pop de mudar de pele várias vezes dentro de uma mesma faixa. A música constrói tensão, sobe a expectativa como se fosse explodir num refrão cantado tradicional — e então faz o oposto: derruba tudo num "drop" instrumental, com sopros e percussão pesada, em vez de um refrão melódico convencional.

Esse tipo de escolha gera reação dividida, e gerou na época. Parte do público estranhou a ausência de um refrão "cantável" no sentido clássico. Mas é justamente aí que mora a inteligência da produção: o vazio melódico no clímax obriga o corpo a preencher com movimento. É uma música feita para coreografia, para a dança ocupar o espaço onde normalmente estaria a voz. Para quem vem do rock, vale a analogia com aqueles riffs instrumentais que dizem mais do que qualquer letra — o som vira o protagonista.

A produção esteve a cargo de Teddy Park, o produtor histórico do grupo, uma espécie de arquiteto invisível por trás de boa parte do som da BLACKPINK. É dele a assinatura desse jeito de empilhar gêneros e fazer transições abruptas soarem inevitáveis.

Contexto cultural e legado: o ponto em que o K-pop deixou de pedir licença

"How You Like That" não foi apenas um single de sucesso; foi um marco de timing. Em 2020, o K-pop vivia uma curva ascendente de reconhecimento ocidental, e a BLACKPINK era a ponta de lança feminina desse movimento. A faixa antecipou o álbum "THE ALBUM", o primeiro disco de estúdio completo do grupo, lançado no fim daquele ano com colaborações de peso do pop ocidental.

Houve, é verdade, uma controvérsia no clipe: uma estátua de uma divindade hindu apareceu de forma considerada desrespeitosa por parte do público, e a YG retirou a imagem após críticas. Vale registrar o episódio sem dramatizar — é parte da história da canção e mostra o quanto cada detalhe de um lançamento desse porte é dissecado globalmente.

O legado mais duradouro, porém, é estético e simbólico. A música consolidou a "marca BLACKPINK": luxo, atitude, feminilidade que não pede desculpas, e uma fusão sonora que recusa rótulos. Ela abriu caminho para que o grupo lotasse festivais ocidentais nos anos seguintes — incluindo apresentações que viraram manchete por reunirem multidões gigantescas. E ajudou a normalizar a ideia de que uma música majoritariamente em coreano poderia dominar paradas no mundo inteiro sem precisar se traduzir para agradar.

Por que ainda ressoa hoje

A graça de "How You Like That" é que ela envelhece bem porque sua emoção central é atemporal. Todo mundo, em algum momento, foi colocado no chão por alguém ou por uma circunstância. E quase todo mundo já sonhou com aquele instante de retorno triunfal — não para humilhar ninguém, mas para provar a si mesmo que a queda não era o fim da história.

Há também algo profundamente atual no fato de a canção ter explodido em plena pandemia, quando o planeta inteiro estava, de certa forma, no seu próprio fundo do poço coletivo. A música ofereceu uma fantasia de revanche e energia num momento em que ela era escassa. Anos depois, ela continua funcionando como hino pessoal de quem precisa de um empurrão para sair da inércia — o equivalente pop daquela faixa de rock que você coloca para enfrentar um dia difícil.

Para o ouvinte brasileiro que ama tanto a guitarra crua quanto um refrão grandioso, "How You Like That" oferece uma ponte. É catarse com produção de luxo, raiva travestida de glamour, superação embrulhada em coreografia. E, no fim, é prova de que a emoção de "me derrubaram e eu voltei" não tem idioma, não tem gênero musical fixo, não tem fronteira. Tem só o gesto de erguer a cabeça — e a pergunta lançada de volta ao mundo.


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