SONGFABLE · 1969

Here Comes the Sun

THE BEATLES · 1969

Here Comes the Sun - The Beatles (1969)

TL;DR: Em 1969, enquanto os Beatles se desintegravam em reuniões intermináveis sobre dinheiro e contratos, George Harrison fugiu para o jardim de Eric Clapton em Esher. Pegou um violão emprestado, sentiu o sol da primavera nas costas depois de um inverno longuíssimo, e escreveu três minutos de pura respiração. Não é uma canção sobre o sol. É uma canção sobre o alívio. Sobre o momento exato em que a gente percebe que sobreviveu ao que parecia infinito. Por isso ela toca tão fundo até hoje — em Brasília, em Porto Alegre, em qualquer lugar onde alguém esteja esperando algo terminar.

O dia em que George fugiu da reunião

Sabe, eu sempre conto essa história quando alguém me pergunta qual é a minha faixa preferida do Abbey Road. Não é "Come Together", não é "Something" — apesar de "Something" ser, talvez, uma das mais belas canções de amor já escritas em inglês. É essa pequena coisa de três minutos e cinco segundos que abre o lado B do vinil. Uma coisa simples, quase ingênua. Mas atrás dessa simplicidade tem uma história que, eu acho, vale a pena contar devagar.

A primavera de 1969 em Londres foi uma das mais frias que se tem registro. Janeiro, fevereiro, março — chuva, neblina, aquele cinza inglês que parece nunca acabar. E dentro dos escritórios da Apple Corps, na Savile Row, os Beatles estavam afundando. John queria Allen Klein como manager. Paul queria os Eastman, a família da Linda. George e Ringo só queriam que parasse. Tinha advogado, tinha contador, tinha dinheiro sumindo, tinha Yoko, tinha o pessoal do Hells Angels acampado no escritório comendo o sanduíche de todo mundo — sim, isso aconteceu de verdade, você pode procurar.

George Harrison, naquela época, era o irmão do meio. Lennon e McCartney eram o sol e a lua, e ele orbitava em silêncio com suas guitarras e seu sitar. Tinha acabado de voltar de um período de aprendizado com Ravi Shankar na Índia. Tinha sido preso por porte de maconha. Tinha sido hospitalizado com tonsilite. E ainda por cima passou alguns dias na cadeia mental da Apple discutindo planilhas.

Um dia ele simplesmente não foi. Pegou o carro, dirigiu até a casa do Eric Clapton em Surrey — uma mansão chamada Hurtwood Edge —, pegou um violão emprestado e foi para o jardim. Era abril. O sol tinha finalmente aparecido. E ali, debaixo de uma árvore, ele escreveu essa canção que, quase sessenta anos depois, é a faixa dos Beatles mais ouvida no Spotify. Mais que "Hey Jude". Mais que "Let It Be". Mais que qualquer coisa que John ou Paul escreveram.

Você consegue imaginar a cena? Um cara cansado, derrotado por dentro, tirando os sapatos na grama e sentindo o sol no rosto pela primeira vez em meses. Eu acho que toda a canção é isso. Não é metáfora. É descrição literal.

O contexto que ninguém te conta

Para entender de verdade essa música, você precisa entender o que era ser George Harrison naquele momento. Ele tinha 26 anos. Era multimilionário. Era um dos quatro homens mais famosos do planeta. E estava tendo o que hoje a gente chamaria, sem rodeios, de burnout severo combinado com crise existencial.

A espiritualidade que ele tinha começado a perseguir desde 1966 — quando descobriu a música indiana e depois o hinduísmo, via Maharishi Mahesh Yogi — não era pose hippie. Era uma tentativa real de encontrar algum chão. E o paradoxo era brutal: quanto mais ele buscava silêncio interior, mais o mundo externo dele se enchia de barulho — contratos, processos, fotógrafos, fãs invadindo a casa em Esher.

"Here Comes the Sun" nasce desse contraste. Por isso ela tem essa qualidade quase devocional sem nunca soar religiosa. É uma oração disfarçada de canção pop. Uma forma de dizer "obrigado" sem precisar dizer a quem.

Tem uma coisa técnica também que vale mencionar. O George usou um capotraste na sétima casa do violão. Isso muda completamente o som — fica agudo, brilhante, quase como um instrumento de corda indiano. E o Moog synthesizer, que ele acabava de descobrir, faz aquelas linhas suaves que parecem amanhecer eletrônico. Foi um dos primeiros usos pop sério desse instrumento. Em 1969, ainda era ficção científica.

O que a canção realmente diz

Eu não vou citar a letra aqui — não preciso. Você provavelmente já a tem inteira na memória, mesmo sem perceber. Mas vale a pena olhar para o que ela significa em vez do que ela diz.

A canção descreve uma transição. Do escuro para o claro. Do frio para o morno. Do longo silêncio para o sorriso. E o detalhe genial é que ela nunca celebra o sol em si — ela celebra a chegada do sol. O momento. A travessia. Há uma diferença enorme entre estar no verão e estar saindo do inverno. Quem está no verão acha o calor banal. Quem está saindo do inverno chora.

George estava saindo de um inverno literal e de um inverno emocional simultaneamente. E ele teve a sabedoria — que eu acho impressionante para um cara de 26 anos — de não escrever uma canção sobre estar feliz. Ele escreveu sobre o instante em que a gente percebe que vai ficar tudo bem. Que é uma coisa completamente diferente.

A repetição daquela frase central, "aqui vem o sol", funciona como mantra. E não é coincidência — George estava praticando japa, a repetição de mantras na tradição vaishnava, todos os dias àquela altura. A estrutura da canção tem a mesma lógica: você diz, você repete, você diz de novo, e a cada repetição a coisa fica mais verdadeira.

Por que isso ressoa no Brasil

Tem uma coisa interessante sobre como o brasileiro escuta os Beatles. Diferente do americano, que herdou os Beatles como parte da própria mitologia nacional, e diferente do europeu, que viveu o fenômeno em tempo real, o brasileiro pegou os Beatles em segunda mão, traduzido, filtrado. Chegou via rádio, via vitrola dos pais, depois via MTV nos anos 80, depois via streaming.

E aqui no Brasil, "Here Comes the Sun" sempre teve um lugar especial. Eu acho que tem a ver com a relação que a gente tem com o sol — que não é a mesma do inglês, claro. Para o George, o sol era ausência. Para o brasileiro, o sol é presença constante. Mas a metáfora ainda funciona, porque todo mundo, em qualquer latitude, conhece a sensação de sair de um inverno. O inverno nem sempre é meteorológico.

Pensa na Tropicália. Caetano, Gil, Os Mutantes — toda aquela geração que estava ouvindo Sgt. Pepper's e Magical Mystery Tour em 1967, 68. Quando o Abbey Road sai em setembro de 1969, Caetano e Gil estavam em Londres, exilados pela ditadura. Eles ouviram esse disco quando saiu. O Caetano já contou em entrevista que aquele disco foi uma companhia importante naquele período. Imagine ele, em Londres, longe da Bahia, ouvindo um inglês cantar sobre o sol voltando depois de um inverno longo. A camada de significado fica densa.

E não para por aí. Tem uma linha — não direta, mas eu sinto — entre essa canção e certas coisas brasileiras. "Como Nossos Pais", do Belchior, na voz da Elis. "Pais e Filhos", do Renato Russo. "Codinome Beija-Flor", do Cazuza. Todas têm essa qualidade de canção que olha para a passagem do tempo com um misto de melancolia e gratidão. O Raul Seixas, em "Ouro de Tolo", faz algo parecido na ironia — usar uma melodia leve para falar de uma travessia pesada.

E tem um detalhe curioso: a Rita Lee gravou várias coisas dos Beatles ao longo da carreira. O Lobão também. O Lulu Santos vive citando o George Harrison como influência principal — "Tempos Modernos" tem aquela energia ensolarada que parece ser uma sobrinha distante de "Here Comes the Sun". Não é cópia, é parentesco genético.

Se você já foi a um show no Circo Voador no Rio, ou no Sesc Pompeia em São Paulo, ou no Auditório Ibirapuera, e o sol estava se pondo enquanto a banda subia, você já viveu o que essa canção tenta capturar. É uma sensação universal embrulhada numa embalagem muito específica.

Por que ela continua viva em 2026

Eu acho que tem duas razões. A primeira é musical — a canção é tecnicamente perfeita. Estrutura simples, melodia que entra no ouvido de primeira, harmonias vocais de Paul e George que se encaixam como peças de marcenaria fina. Não tem gordura. Tudo o que está ali precisa estar ali.

A segunda razão é mais difícil de explicar. Tem a ver com o que a gente está vivendo. Os últimos anos foram pesados para todo mundo, em qualquer país. Pandemia, polarização, telas demais, sono de menos, notícias ruins servidas em looping. E quando uma canção como essa toca — num café, num filme, num comercial — ela faz um trabalho silencioso. Ela lembra que invernos terminam.

Eu vejo gente jovem, gente de 20 anos, descobrindo essa música agora pelo TikTok e ficando obcecada. Não porque ela é "vintage" — eles nem ligam para isso. Mas porque ela diz uma coisa que eles precisam ouvir. Que o que está pesado vai passar. Que o sol volta. Que sobreviver é a maior arte.

Em 2014, a NASA usou "Here Comes the Sun" como trilha quando a sonda Rosetta acordou depois de 31 meses de hibernação no espaço profundo, perto do cometa 67P. Pensa nisso. Um pedaço de metal feito por humanos, sozinho a milhões de quilômetros da Terra, abrindo os olhos depois de um inverno cósmico, e essa canção entrou na história como a primeira coisa "tocada" para ele. Eu acho que o George teria gostado dessa.

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Três perguntas para ficar com você:

  1. Qual foi o último "inverno" que você atravessou — e o que foi o "sol" que apareceu do outro lado?
  2. Se você tivesse que escolher uma canção brasileira que faz para você o que "Here Comes the Sun" faz para o mundo inteiro, qual seria?
  3. O George escreveu essa canção fugindo de uma reunião. De que reunião você precisa fugir hoje para escrever a sua?
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