SONGFABLE · 1968

All Along the Watchtower

JIMI HENDRIX · 1968

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All Along the Watchtower - Jimi Hendrix (1968)

Em janeiro de 1968, num estúdio londrino, Jimi Hendrix pegou uma canção acústica e enxuta que Bob Dylan havia gravado poucos meses antes e a transformou num dos momentos mais arrebatadores da história do rock. "All Along the Watchtower" deixou de ser uma parábola folk para se tornar uma profecia eletrificada — uma tempestade de três minutos que o próprio Dylan adotaria como versão definitiva pelo resto da vida. Esta é a história de como uma cover virou cânone, e de como duas vozes muito diferentes encontraram, no mesmo texto bíblico cifrado, o som exato do fim de uma era.

Hook

Há covers que homenageiam. Há covers que reinterpretam. E há aquele tipo raríssimo de gravação que sequestra a canção do autor original, leva-a para outro território estético e devolve-a transformada a ponto de o próprio criador se render. Quando Bob Dylan ouviu a versão de Hendrix pela primeira vez, em algum momento de 1968, algo se deslocou dentro dele. A partir dali, nos milhares de shows que daria nas décadas seguintes, Dylan tocaria a canção quase sempre na chave de Hendrix — guitarra elétrica, ritmo acelerado, atmosfera de tempestade. Era como se o autor tivesse percebido que escrevera, sem saber, uma música para outro corpo, outra voz, outro continente sonoro.

O que torna esse fenômeno fascinante não é apenas a virtuose técnica de Hendrix, embora ela seja inegável. É o fato de que a canção, no original de Dylan, já carrega um sentido apocalíptico contido, sussurrado, quase resignado. Hendrix ouviu nas entrelinhas o que estava ali desde o começo: o trovão. E o liberou.

Background

Bob Dylan gravou "All Along the Watchtower" em Nashville, em novembro de 1967, para o álbum John Wesley Harding. Era uma fase específica de sua trajetória. Um ano e meio antes, ele havia sofrido um acidente de motocicleta em Woodstock que o afastou dos holofotes e o levou a uma reclusão criativa. Quando voltou ao estúdio, abandonou o barroquismo psicodélico de Blonde on Blonde e mergulhou numa estética seca, bíblica, quase parabólica. As canções de John Wesley Harding são curtas, esparsas, povoadas de figuras enigmáticas — fora-da-lei, vagabundos, juízes, mensageiros. "Watchtower" é talvez a peça mais condensada desse conjunto: três estrofes, sem refrão, com personagens que dialogam num cenário desértico vagamente medieval, vagamente do Velho Testamento.

A versão original de Dylan dura pouco mais de dois minutos e meio. É acústica, com harmônica e contrabaixo discreto. O tom é sóbrio, quase litúrgico. A canção parece interrompida — começa no meio de uma conversa e termina antes que algo aconteça. Essa estrutura propositadamente truncada gera no ouvinte uma sensação de iminência: algo está prestes a acontecer, mas o disco já acabou.

Jimi Hendrix ouviu o álbum poucas semanas depois de seu lançamento. Naquele momento, ele já era a figura mais incandescente da cena rock anglo-americana. Are You Experienced (1967) e Axis: Bold as Love (1967) o haviam consagrado como o guitarrista que reescrevia a gramática do instrumento. Mas Hendrix era também um leitor atento de Dylan — vinha do circuito do Greenwich Village, conhecia o repertório folk, e via no autor de Highway 61 Revisited uma espécie de irmão mais velho literário.

A gravação aconteceu nos Olympic Studios, em Londres, em 21 de janeiro de 1968. Hendrix entrou em estúdio com a canção fresca no ouvido e passou os meses seguintes obcecado por ela, refazendo overdubs, ajustando solos, reescrevendo a arquitetura. A versão final, lançada no álbum Electric Ladyland em outubro daquele ano, é o produto de uma quase neurose perfeccionista. Cada uma das quatro seções de guitarra solo — sim, há quatro solos distintos, com timbres e intenções diferentes — foi pensada como um movimento em si.

O sentido oculto

Para entender o que Hendrix fez com a canção, é preciso voltar ao texto. As três estrofes de Dylan formam uma cena curiosa. Nas duas primeiras, dois personagens conversam à beira de uma torre de vigia: um deles, identificado como um bobo da corte ou um curinga, queixa-se de que pessoas tomam o que é dele sem entender seu valor; o outro, descrito como um ladrão, responde com calma — diz que ambos já passaram por isso, que não há motivo para se exaltar, que a vida é uma piada. Na terceira estrofe, sem aviso, a câmera se afasta. Surgem então príncipes vigiando a torre, mulheres e servos que se movimentam abaixo. Ao longe, um felino selvagem ronca. Dois cavaleiros se aproximam. O vento começa a uivar. Fim.

A estrutura narrativa é deliberadamente fragmentada, e os comentaristas — entre eles, o crítico Christopher Ricks, professor de Oxford que escreveu um livro inteiro sobre Dylan — costumam apontar que a canção lê-se de trás para frente. Ou seja: a terceira estrofe, cronologicamente, vem antes das duas primeiras. O diálogo no topo da torre ocorre enquanto os cavaleiros já se aproximam. O apocalipse não está chegando — já chegou.

A referência bíblica é direta. O Livro de Isaías, capítulo 21, descreve uma sentinela numa torre que avista cavaleiros se aproximando e anuncia a queda da Babilônia. Dylan, leitor obsessivo da Bíblia King James desde a infância, transplanta a cena para um cenário ambíguo — pode ser o Velho Testamento, pode ser uma fábula medieval, pode ser os Estados Unidos de 1967, em plena Guerra do Vietnã, com Martin Luther King prestes a ser assassinado e o país em convulsão racial.

O que Hendrix faz é tornar esse subtexto explícito sonoramente. Ele começa com um riff de guitarra que soa como uma sentinela tocando um alarme. O ritmo dobra de velocidade em relação a Dylan. A bateria, executada por Mitch Mitchell, simula cascos de cavalos galopando. Os quatro solos — um com slide, um com wah-wah, um com tremolo, um com fuzz — funcionam como vozes diferentes anunciando a catástrofe iminente. E o ponto crucial: enquanto Dylan termina a canção antes do clímax, Hendrix prolonga o clímax indefinidamente. A canção de Hendrix é o vento uivante que Dylan deixou implícito.

Há ainda uma camada biográfica. Hendrix gravou "Watchtower" no auge de sua tensão pessoal — pressionado pela gravadora, exausto de turnês, em conflito com a ideia de ser o guitarrista negro mais famoso do mundo num momento de polarização racial extrema. A canção, com seus dois personagens marginais — o bobo e o ladrão — discutindo sobre quem entende o valor das coisas, parecia escrita para ele. Não é exagero ler nela uma alegoria do próprio Hendrix: o artista que vê seu trabalho ser apropriado por uma indústria que não compreende seu significado.

Contexto cultural para leitores brasileiros

Para quem cresceu ouvindo rock no Brasil, "All Along the Watchtower" ressoa em camadas que talvez não sejam evidentes no contexto anglo-americano original. A canção chega ao Brasil em pleno regime militar, num momento em que a tropicália de Caetano Veloso e Os Mutantes está reinventando o que significa fazer música pop em português. Tropicália ou Panis et Circencis (1968) é exatamente contemporâneo de Electric Ladyland. Caetano, num depoimento posterior, lembraria que ouvir Hendrix foi parte do choque estético que o levou a usar guitarra elétrica em "É Proibido Proibir", para fúria dos puristas do festival da Record.

Os Mutantes, em particular, internalizaram a lição de Hendrix de um modo profundo. Rita Lee, Sérgio e Arnaldo Baptista viam em Hendrix não apenas um virtuose, mas alguém que entendia a guitarra elétrica como instrumento de tradução cultural — capaz de pegar uma canção folk e transformá-la em outra coisa. O paralelo com o que os Mutantes faziam com sambas, baiões e canções de Roberto Carlos é direto. Em ambos os casos, a guitarra elétrica era o agente de uma transmutação: pegava algo enraizado numa tradição e o lançava no futuro.

Décadas depois, quando o rock brasileiro encontra sua maturidade nos anos 1980, a sombra de Hendrix continua presente — mas filtrada agora pela tradição que ele ajudou a fundar. Cazuza, em seus melhores momentos com o Barão Vermelho e na carreira solo, escreve com a mesma estrutura cifrada e profética de Dylan-Hendrix: parábolas curtas, imagens bíblicas embaralhadas, sentido apocalíptico contido. "O Tempo Não Para" tem, em seu DNA, a mesma estrutura de torre de vigia anunciando a queda — só que a Babilônia, agora, é o Brasil da redemocratização traída.

A Legião Urbana de Renato Russo também conversa diretamente com essa linhagem. "Faroeste Caboclo" é, em muitos sentidos, uma "Watchtower" expandida — uma parábola moral com personagens marginais, cenário cifrado e desfecho apocalíptico. Renato Russo era um leitor declarado de Dylan e ouvinte obsessivo de Hendrix, e a estrutura narrativa de muitas canções da Legião — "Pais e Filhos", "Geração Coca-Cola", "Que País é Este" — herda a economia bíblica que Dylan inaugurou em John Wesley Harding e Hendrix amplificou em Electric Ladyland.

Quando o Rock in Rio acontece pela primeira vez, em 1985, o festival é um marco não apenas musical, mas geracional — a primeira grande celebração coletiva da redemocratização. As bandas que tocam ali, brasileiras e estrangeiras, carregam a memória de Hendrix como mito fundador. Não por acaso, o Rock in Rio se torna o palco onde gerações brasileiras passam a viver coletivamente o ritual do rock — exatamente o tipo de experiência apocalíptico-coletiva que "Watchtower" antecipa em três minutos de estúdio.

Há ainda uma dimensão racial importante. Hendrix é, para a geração de músicos negros brasileiros que emergiu nos anos 1970 e 1980 — de Tim Maia a Cassiano, de Hyldon a Banda Black Rio — uma referência fundamental porque desmonta a ideia de que rock é uma linguagem branca. Hendrix prova que a guitarra elétrica pode ser um instrumento de afirmação racial, de continuidade com o blues e com a tradição musical da diáspora africana. Essa lição ecoa, mais tarde, em artistas como Sandra de Sá e, mais recentemente, em toda uma cena de rock e rap negro brasileiro que reivindica Hendrix como ancestral.

Por que ressoa hoje

Cinquenta e tantos anos depois, "All Along the Watchtower" continua sendo uma das canções mais regravadas da história — Dave Matthews, Eric Clapton, Pearl Jam, U2, Neil Young e dezenas de outros artistas a incluíram em seus repertórios. Mas é sempre a versão de Hendrix que serve como referência. Por quê?

Uma resposta possível é técnica: o arranjo de Hendrix é tão completo, tão denso, tão arquitetonicamente perfeito que se tornou impossível tocar a canção sem reverenciá-lo. Outra resposta, mais interessante, é simbólica. A canção fala de uma sentinela vigiando uma cidade prestes a cair. Esse é, talvez, o estado de espírito permanente do Ocidente desde 1968 — a sensação de que estamos sempre na véspera de algo, sempre vendo cavaleiros se aproximando no horizonte, sempre ouvindo o vento começar a uivar.

A canção fala também de incompreensão — o bobo que sente que ninguém entende o valor do que ele faz, o ladrão que tenta consolá-lo. Numa era de saturação cultural, em que tudo é algoritmizado e quantificado, essa pequena queixa cifrada de dois personagens à beira de uma torre soa estranhamente atual. É a canção de todo artista, todo pensador, todo indivíduo que sente que sua moeda interior não circula no mercado que o cerca.

E há, finalmente, o gesto de Hendrix em si — a coragem de pegar uma obra alheia e refazê-la a ponto de o próprio autor se render. Esse gesto é hoje, na era do remix, do sampling, da inteligência artificial generativa, mais relevante do que nunca. Hendrix nos lembra que a originalidade verdadeira não está em criar do zero, mas em ouvir tão profundamente que se torna possível devolver ao original aquilo que o próprio autor não sabia ter colocado ali.

Como mergulhar mais fundo

🎧 Ouça

Electric Ladyland (Jimi Hendrix Experience) O álbum duplo de 1968 onde "Watchtower" aparece, junto com "Voodoo Child (Slight Return)" e "1983... (A Merman I Should Turn to Be)". É o testamento máximo de Hendrix como produtor. → Buscar

John Wesley Harding (Bob Dylan) O original austero e bíblico de "Watchtower", num álbum inteiro construído sobre parábolas curtas e cenários desérticos. → Buscar

Tropicália ou Panis et Circencis (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes e outros) Contemporâneo de Electric Ladyland, o manifesto tropicalista mostra como a guitarra elétrica chegou ao Brasil como ferramenta de transmutação cultural. → Buscar

📚 Leia

Room Full of Mirrors: A Biography of Jimi Hendrix (Charles R. Cross) A biografia definitiva de Hendrix, com pesquisa de campo extensa sobre sua infância em Seattle e os anos de formação no circuito chitlin'. → Buscar

Chronicles: Volume One (Bob Dylan) A autobiografia parcial de Dylan, onde ele discute, entre outras coisas, sua admiração pela versão de Hendrix. → Buscar

Verdade Tropical (Caetano Veloso) O relato de Caetano sobre a tropicália, o exílio em Londres e o impacto de Hendrix na sua geração — leitura essencial para entender a ponte Brasil-Anglo dos anos 60. → Buscar

🌍 Visite

Electric Lady Studios — Nova York O estúdio que Hendrix construiu em Greenwich Village pouco antes de morrer. Ainda em funcionamento, é um lugar de peregrinação para fãs e músicos. → Guia

Woodstock — estado de Nova York A cidadezinha onde Dylan se isolou após o acidente e onde escreveu John Wesley Harding. O Bethel Woods Center for the Arts preserva a memória do festival de 1969. → Guia

Rock in Rio City — Rio de Janeiro O Parque Olímpico vira a cada edição do festival um palco coletivo onde as gerações brasileiras vivem o ritual do rock que Hendrix ajudou a fundar. → Guia

🎸 Experimente você mesmo

Pedal Wah-Wah Cry Baby O pedal que Hendrix usou em alguns dos solos de "Watchtower". Ainda hoje, é o atalho mais direto para entrar no território sonoro do guitarrista. → Buscar

Bíblia King James em português ou inglês A fonte direta da imagística de Dylan. Ler Isaías 21 muda a experiência de ouvir a canção. → Buscar

Caderno para reescrever uma letra Pegue uma canção que você ama e tente reescrevê-la em três estrofes, sem refrão, com personagens cifrados. É um exercício pequeno e revelador sobre economia narrativa. → Buscar


🎵 Listen on all platforms

🤖 Perguntas para continuar pensando:

  1. O que aconteceria se um artista brasileiro contemporâneo refizesse "Watchtower" do mesmo modo que Hendrix refez Dylan — pegando uma canção folk nordestina, por exemplo, e a transformando em outra coisa?
  2. Por que algumas canções parecem escritas para serem cantadas por outras vozes, e como reconhecemos esse "potencial latente" antes de ele ser realizado?
  3. Em que medida a noção de "cover definitiva" — a versão que supera o original — ainda faz sentido numa era de remix, sampling e inteligência artificial generativa?
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