SONGFABLE · 1986

Walk This Way

RUN-DMC FT. AEROSMITH · 1986

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Walk This Way - Run-DMC ft. Aerosmith (1986)

TL;DR: Por baixo do riff de guitarra mais famoso da história do crossover, "Walk This Way" é uma comédia adolescente sobre a primeira vez de um garoto canastrão — mas o que ela realmente fez foi derrubar a parede entre o rock branco e o rap negro e, de quebra, ressuscitar uma banda que estava praticamente acabada.

O improvável milagre que ninguém pediu

Imagine a cena. Estúdio em Nova York, 1986. Três rappers do Queens — Joseph "Run" Simmons, Darryl "DMC" McDaniels e Jason "Jam Master Jay" Mizell — estão sendo praticamente obrigados pelo produtor a gravar com uma banda de rock que eles mal conheciam. Pior: eles odiavam a ideia. Para Run e DMC, "Walk This Way" não era um clássico do Aerosmith; era apenas aquela faixa instrumental sobre a qual eles costumavam soltar rimas nas festas, sem nem saber direito de quem era. Eles achavam a letra original ridícula, o vocal estridente, e resistiram até o último minuto.

E mesmo assim, daquela briga de gosto musical, nasceu uma das gravações mais importantes do século XX. Não é exagero. "Walk This Way" foi a primeira faixa de hip-hop a entrar no Top 5 da Billboard americana, abriu as portas da MTV — que até então praticamente ignorava artistas negros e rap — para um gênero inteiro, e transformou o Aerosmith, então uma banda falida e devorada pelas drogas, de novo em superastros. Foi um milagre que ninguém daquela sala pediu e do qual quase todo mundo duvidava.

A surpresa maior é essa: a música que uniu mundos era, na origem, apenas uma piada safada sobre sexo. O que parecia trivial virou histórico.

Duas bandas em pontos opostos da estrada

Para entender o tamanho do choque, é preciso conhecer os dois lados. O Aerosmith tinha lançado o original de "Walk This Way" em 1975, no álbum Toys in the Attic. Steven Tyler, o vocalista de boca enorme e energia elétrica, escreveu a letra inspirado, dizem, no filme O Jovem Frankenstein de Mel Brooks — a piada "walk this way" ("ande deste jeito") era um trocadilho físico do cinema. A canção falava, sem o menor pudor, de um garoto do colégio descobrindo o sexo, guiado por uma colega de turma mais experiente e por uma prima animadora de torcida. Era rock'n'roll setentista em estado puro: sujo, sacana e movido a um riff de guitarra de Joe Perry que grudava no ouvido.

Só que, em 1986, o Aerosmith estava no fundo do poço. Anos de cocaína e heroína haviam destruído a banda; eles eram vistos como uma relíquia dos anos 70, perdidos, sem hits e sem rumo. Do outro lado da estrada vinha o Run-DMC: jovens, durões, vestidos de preto com tênis Adidas sem cadarço, redefinindo o que o hip-hop podia ser. Eles eram o futuro batendo na porta de um gênero que a indústria ainda tratava como moda passageira.

Quem juntou os dois foi o produtor Rick Rubin, então um garoto de vinte e poucos anos com cabelo grande e uma visão fora da curva. Foi ideia dele plantar Tyler e Perry de volta na própria música, agora dividindo o microfone com os rappers. Aqui vai um gancho para o ouvido brasileiro: essa lógica de pegar um clássico e reinventá-lo num gênero totalmente diferente é exatamente o DNA do nosso melhor sampleado e das releituras que a gente adora — pense em como o funk carioca e o rap nacional revitalizaram batidas antigas, ou em como artistas brasileiros pegam um chiclete pop e transformam em algo novo. "Walk This Way" é, em essência, a primeira grande aula mundial de como o "reaproveitamento" pode ser mais poderoso que o original.

O que a música realmente conta

Tirando a camada de mito cultural, a letra em si é uma comédia de iniciação sexual. O narrador é um adolescente atrapalhado e ainda virgem que se vê cercado por garotas mais ousadas do que ele — a prima animadora de torcida, a colega de classe debochada — que basicamente o "educam" sobre o que fazer. A famosa expressão que dá título à canção funciona como um chamado provocante: alguém dizendo ao garoto para vir, para seguir, para aprender "andando deste jeito". É picante, é cheia de inocência envergonhada e de bravata juvenil ao mesmo tempo.

Run e DMC pegaram essas mesmas cenas e as cuspiram com a cadência cortante do rap, dando um sotaque das ruas do Queens a uma história que originalmente era de garotos brancos suburbanos. E aí está o gênio acidental da coisa: ao colocar duas vozes tão diferentes contando a mesma história adolescente, a canção mostrou que rock e rap nunca foram tão distantes assim. Os dois sempre falaram de desejo, de virar a mesa, de provar que você é foda. A linguagem era diferente; o instinto era o mesmo.

Vale insistir num ponto que muita gente esquece: ninguém ali estava tentando "salvar a humanidade da intolerância musical". Era só uma faixa para um álbum. A grandeza veio depois, quase à revelia dos próprios artistas.

O videoclipe que quebrou a parede — literalmente

A genialidade de "Walk This Way" não está só no som; está na imagem. O videoclipe, que rodou sem parar na MTV, mostra Run-DMC e o Aerosmith ensaiando em salas vizinhas, separados por uma parede. A música começa como uma briga: o rap de um lado, a guitarra do outro, cada um irritado com o barulho do vizinho. Aí Steven Tyler começa a esmurrar a parede até derrubá-la, e as duas bandas acabam tocando juntas, frente a frente, no mesmo palco.

É difícil exagerar o peso simbólico daquilo nos Estados Unidos de 1986. A MTV, naquela época, era acusada — com razão — de quase não tocar artistas negros. O rap era ignorado pelas rádios brancas, tratado como gueto. Aquela parede caindo no vídeo não era metáfora vaga: era uma declaração visual de que a separação entre os dois mundos podia, e ia, ruir. A canção forçou a MTV a abrir espaço para o hip-hop, e o caminho que ela pavimentou foi percorrido depois por todo mundo, do Beastie Boys aos gigantes do rap dos anos 90.

Para o Aerosmith, foi um renascimento completo. A banda, que estava enterrada, voltou aos holofotes e emendou uma das maiores recuperações de carreira da história da música, dominando os anos 80 e 90 com sucessos seguidos. Eles deviam aquilo, em grande parte, a três rappers que nem queriam gravar a faixa.

Por que ainda nos faz andar deste jeito

Hoje, num mundo onde colaborações entre gêneros são rotina — o rapper que canta com a estrela do sertanejo, o trapper que samplea bossa nova, a diva pop que chama o astro do reggaeton — é fácil esquecer que alguém teve que ser o primeiro a furar essa bolha. "Walk This Way" é o momento fundador. Toda vez que dois artistas de mundos opostos se juntam e o resultado vira fenômeno, há um eco dessa gravação de 1986.

E a canção resiste por uma razão mais humana também: ela é puro tesão e diversão. Não tem mensagem grandiosa, não tem peso filosófico. Tem riff matador, um refrão que você grita sem nem saber direito a letra, e a energia de gente jovem provando que pode. Esse tipo de alegria descomplicada não envelhece. Você ouve os primeiros segundos daquele riff e o corpo já quer se mexer, não importa em que década você nasceu.

Talvez a maior lição de "Walk This Way" seja essa: as melhores coisas costumam nascer do atrito, da resistência, do "eu não quero fazer isso". Três rappers contrariados, uma banda em ruínas e um produtor teimoso criaram, sem querer, a ponte que mudou a música popular para sempre. Da próxima vez que você ouvir um cruzamento improvável que dá certo no rádio, lembre-se de quem derrubou a parede primeiro.


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