State of Shock
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O dueto que o mundo quase ouviu
Imagine a cena: 1983, uma casa em Encino, na Califórnia. Michael Jackson acabou de lançar "Thriller", o disco que vai mudar a indústria inteira, e recebe em seu estúdio caseiro ninguém menos que Freddie Mercury, a voz do Queen. Os dois, segundo os relatos, se divertem, gravam ideias, trocam provocações e esboçam algumas faixas. Uma delas é uma canção nervosa, de guitarra afiada, chamada "State of Shock".
Esse encontro virou uma das grandes lendas do pop. As agendas dos dois artistas eram impossíveis, e conta-se que Freddie também ficou um pouco incomodado com certas excentricidades da casa de Michael, incluindo, segundo histórias repetidas até hoje, a presença de uma lhama no estúdio. Verdade ou folclore, o fato é que o dueto não foi concluído. A demo ficou guardada, e a música seguiu outro caminho.
Quando ela finalmente chegou ao público, em 1984, a voz parceira de Michael não era a de Freddie. Era a de Mick Jagger, o eterno líder dos Rolling Stones. E a faixa não saiu num disco solo de Michael, mas em "Victory", o álbum de reunião dos Jacksons. Em outras palavras: uma canção nascida de um encontro com o Queen, lançada com o vocalista dos Stones, sob o nome de uma banda de família. Poucas músicas têm uma biografia tão improvável.
Michael no auge, os irmãos em busca de uma vitória
Para entender "State of Shock", é preciso lembrar onde Michael estava em 1984. "Thriller" vendia de forma inédita, os clipes dominavam a MTV, e o passinho do moonwalk, apresentado ao mundo no especial de aniversário da Motown em 1983, tinha transformado Michael na figura mais famosa do planeta. Ele não precisava de mais nada para ser gigante.
Os irmãos, porém, tinham outra história. Jackie, Tito, Marlon, Randy e Jermaine (que voltava ao grupo depois de anos na Motown) queriam um novo capítulo para os Jacksons. O álbum "Victory" e a turnê de mesmo nome foram pensados como uma grande celebração familiar, e também como um projeto comercial enorme. A turnê, aliás, foi uma das mais lucrativas de seu tempo, apesar de cercada de polêmicas sobre preços de ingresso e bastidores tensos. Michael, que segundo diversos relatos participou mais por lealdade do que por entusiasmo, anunciou no palco final que aquela seria sua última turnê com os irmãos.
"State of Shock" foi escrita por Michael em parceria com o guitarrista Randy Hansen, conhecido por seu estilo fortemente inspirado em Jimi Hendrix. Isso explica muito do som da faixa: em vez do pop polido de "Billie Jean", aqui temos uma guitarra crua, quase de garagem, um riff que puxa a música para o território do rock. Michael vinha flertando com o rock desde "Beat It", que trazia o solo incendiário de Eddie Van Halen, e "State of Shock" parecia continuar esse experimento, agora com uma lenda do rock britânico ao lado.
Há um gancho especial para o público brasileiro nessa história. Poucos meses depois do lançamento da música, em janeiro de 1985, Freddie Mercury subiu ao palco do primeiro Rock in Rio, na Cidade do Rock, em Jacarepaguá, e protagonizou com o Queen um dos momentos mais lembrados da história dos shows no Brasil, com centenas de milhares de vozes cantando junto. Os Rolling Stones, por sua vez, construíram com o país uma relação de festa, culminando no gigantesco show gratuito em Copacabana, em 2006, que reuniu, segundo as estimativas, mais de um milhão de pessoas na areia. E Michael Jackson eternizaria o Brasil em 1996, quando gravou o clipe de "They Don't Care About Us" no morro Dona Marta, no Rio, e no Pelourinho, em Salvador, ao lado do Olodum. "State of Shock" é, curiosamente, um ponto onde esses três nomes que marcaram a memória musical brasileira se cruzam.
O que a música realmente diz
À primeira vista, "State of Shock" parece só uma brincadeira barulhenta. Mas a letra conta uma pequena história bem definida. O narrador está diante de uma mulher que o desestabiliza completamente. Ela é descrita como perigosa, magnética, quase uma força da natureza. O efeito dela sobre ele é físico: ele não consegue se mexer, não consegue pensar direito, está em choque, como se uma corrente elétrica tivesse atravessado seu corpo.
A grande sacada é justamente essa metáfora do choque. Em vez de falar de amor de maneira romântica, com flores e promessas, a canção trata a atração como um acidente, um curto-circuito. O homem não se apaixona; ele é atingido. Há um tom de urgência quase cômica, como se ele pedisse socorro, chamasse alguém para ajudá-lo a sair daquele estado. E a mulher, por sua vez, parece se divertir com o poder que exerce.
Esse tema da mulher fatal que deixa o protagonista indefeso é recorrente na obra de Michael. Em "Dirty Diana", "Billie Jean" e mais tarde "Dangerous", ele volta sempre à figura feminina que seduz e ameaça ao mesmo tempo. "State of Shock" é talvez a versão mais leve e teatral dessa obsessão. Não há drama de paternidade nem perseguição sombria: há um sujeito literalmente congelado de desejo, e isso é tratado com humor.
O dueto com Jagger reforça esse jogo. Os dois vocalistas parecem disputar quem está mais atordoado, trocando frases, gritos e provocações. Michael canta com sua precisão rítmica, cheia de soluços e ataques percussivos; Jagger entra com sua voz rouca, debochada, de quem já viu de tudo. O contraste é parte da graça. É como ver dois estilos de sedução de palco, o americano e o britânico, o menino prodígio e o veterano malandro, tentando descrever a mesma vertigem.
Sucesso, críticas e uma parceria esquisita
Lançada como primeiro single de "Victory", em meados de 1984, "State of Shock" foi um sucesso imediato. A faixa chegou, segundo os registros das paradas, ao terceiro lugar da Billboard Hot 100, e teria sido certificada como disco de platina nos Estados Unidos, algo raro para singles na época. Para os Jacksons, foi a prova de que o nome da família ainda movia multidões, ainda que todos soubessem que boa parte desse impulso vinha do fenômeno Michael.
A crítica, por outro lado, foi mais dividida. Muitos comentaristas acharam a música crua demais, menos refinada do que o trabalho solo de Michael. E o próprio Mick Jagger, em entrevistas posteriores, teria falado da gravação com certa indiferença, sugerindo que não considerava a faixa um ponto alto de sua carreira. Há relatos de que a química entre os dois no estúdio não foi exatamente calorosa, e que a gravação aconteceu de maneira rápida, quase burocrática.
Curiosamente, Jagger e Michael chegaram a se apresentar juntos ao vivo com a música. Em 1985, no Live Aid, Jagger cantou "State of Shock" com Tina Turner, numa performance lembrada pelo momento em que ele arrancou parte da saia dela no palco. Ou seja, a canção ganhou uma vida própria nos palcos, independente de seus criadores originais.
Nunca houve um videoclipe oficial para "State of Shock", o que, numa era dominada pela MTV e pelos clipes cinematográficos de Michael, é quase uma anomalia. Talvez por isso a música seja menos lembrada hoje do que seu desempenho nas paradas sugeriria. Ela não tem uma imagem icônica associada, nenhuma jaqueta vermelha nem calçada que se ilumina. Ela existe principalmente como som, e como história de bastidor.
A redescoberta da versão com Freddie
Durante décadas, a versão com Freddie Mercury circulou apenas como boato e em gravações piratas de qualidade duvidosa. Fãs do Queen e de Michael trocavam fitas e arquivos, discutindo se aquilo era mesmo real. A cada nova coletânea, surgia a esperança de que a demo fosse lançada oficialmente.
Em 2014, o álbum "Queen Forever" trouxe à luz outra das parcerias daquele encontro de 1983, "There Must Be More to Life Than This", em versão retrabalhada. Já "State of Shock" com Freddie seguiu, em grande parte, como item de culto, ouvida por fãs dedicados em versões não oficiais. Quem escuta esses registros percebe algo fascinante: Freddie, com sua potência operística, leva a música para um lugar mais teatral, mais exagerado, quase de musical da Broadway com guitarras. É uma canção diferente, ainda que com os mesmos ossos.
Essa versão perdida transformou "State of Shock" num daqueles "e se" que alimentam a imaginação dos fãs. E se o dueto tivesse sido finalizado? E se tivesse saído no auge de "Thriller", com o Queen ainda no topo? É possível que tivéssemos ganhado um clássico absoluto. Ou é possível que a lenda seja mais saborosa do que qualquer gravação final poderia ser.
Por que a música ainda pulsa
Mais de quatro décadas depois, "State of Shock" continua interessante por razões que vão além de sua qualidade musical. Primeiro, ela é um retrato de um momento único da cultura pop, em que as fronteiras entre rock e pop, entre preto e branco nas rádios americanas, entre astros de gerações diferentes, estavam sendo derrubadas. Michael fazia questão de chamar estrelas do rock para seus projetos, e isso ajudou a mudar a forma como a indústria e a MTV enxergavam artistas negros.
Segundo, a música fala de uma sensação universal. Quem nunca ficou paralisado diante de alguém que mexeu demais com a cabeça? A metáfora do choque, do curto-circuito emocional, é simples e eficaz. Ela funciona na pista de dança e funciona como piada, sem precisar de grandes explicações.
Terceiro, para o fã brasileiro, há o prazer de encontrar numa só faixa três nomes que marcaram profundamente nossa memória afetiva. Freddie, que fez o Rio cantar em 1985. Jagger, que lotou Copacabana. Michael, que escolheu o morro carioca e as ladeiras de Salvador para um de seus clipes mais políticos. "State of Shock" é uma espécie de ponto de interseção entre essas histórias, um cruzamento de estradas que passa, ainda que indiretamente, pelo nosso país.
Por fim, a música lembra que nem toda grande história do pop é sobre obras-primas. Algumas são sobre encontros estranhos, gravações apressadas, lhamas no estúdio e duetos que quase aconteceram. É exatamente essa imperfeição que faz "State of Shock" ser tão divertida de redescobrir.
Como mergulhar mais fundo
🎧 Mergulhe no som
- Victory (The Jacksons, 1984) — O álbum completo mostra os irmãos tentando cada um imprimir sua marca, com faixas compostas por Jackie, Tito, Randy, Marlon e Jermaine. Ouvir de ponta a ponta revela como "State of Shock" destoa pela pegada roqueira e ajuda a entender a tensão criativa da família naquele momento.
- Thriller (Michael Jackson, 1982) — É o pano de fundo inevitável de tudo o que aconteceu em 1984. Escute "Beat It" logo antes de "State of Shock" e perceba como Michael já vinha preparando a ponte entre o pop e o rock de guitarra pesada.
- Live Aid (Wembley e Filadélfia, 1985) — Procure a apresentação de Mick Jagger com Tina Turner, que transformou "State of Shock" num momento teatral de palco. É a prova de que a música tinha energia suficiente para sobreviver sem Michael ao microfone.
📚 Siga a história
- Moonwalk (Michael Jackson, 1988) — A autobiografia de Michael passa pelo período dos Jacksons, da reunião e da turnê "Victory", com o olhar do próprio artista sobre a fama e a família. É uma leitura que ajuda a entender por que ele decidiu se despedir dos palcos com os irmãos.
- Freddie Mercury: biografias e documentários sobre o Queen — Várias biografias do cantor relatam o encontro com Michael em Encino, incluindo as anedotas sobre a famosa lhama. Ler essas versões lado a lado é divertido, porque cada autor conta o episódio com um tempero diferente.
- Life (Keith Richards, 2010) — A autobiografia do guitarrista dos Stones ilumina a fase em que Mick Jagger buscava projetos fora da banda nos anos 1980. Ajuda a entender o contexto em que um dueto com Michael fazia sentido para ele.
🌍 Visite os lugares
- Cidade do Rock, Rio de Janeiro — Foi ali, em 1985, poucos meses depois de "State of Shock" estourar, que Freddie Mercury viveu com o público brasileiro um dos encontros mais emocionantes da história do Rock in Rio. Visitar o espaço do festival é sentir o eco dessa energia.
- Morro Dona Marta, Rio de Janeiro — O mirante e a estátua em homenagem a Michael Jackson lembram as gravações de "They Don't Care About Us", em 1996. É um lugar onde o artista deixou uma marca concreta no Brasil, e a subida é uma experiência inesquecível.
- Pelourinho, Salvador — As ladeiras coloridas onde Michael dançou com os tambores do Olodum continuam vibrando. Andar por ali é perceber como a música de Michael encontrou no Brasil uma batida que conversava com sua própria obsessão pelo ritmo.
🎸 Viva você mesmo
- Tire o riff de guitarra — O riff de "State of Shock" é ótimo para guitarristas iniciantes e intermediários que querem treinar uma pegada mais suja, no estilo de Randy Hansen. Tocar junto com a gravação é um jeito delicioso de sentir a influência de Hendrix escondida num hit pop.
- Faça um dueto de karaokê — A música foi pensada como duelo vocal, então chame um amigo e dividam os papéis de Michael e Jagger. O segredo é exagerar: um canta afiado e rítmico, o outro debochado e rouco.
- Monte uma playlist de "duetos improváveis" — Coloque "State of Shock" ao lado de "Under Pressure" (Queen e David Bowie) e "Say Say Say" (Paul McCartney e Michael Jackson). Ouvir essas parcerias em sequência mostra como os anos 1980 adoravam juntar gigantes em um mesmo estúdio.
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Por que a versão de "State of Shock" com Freddie Mercury nunca foi lançada oficialmente?
Segundo os relatos, os dois gravaram apenas uma demo em 1983 e nunca conseguiram conciliar as agendas para finalizar a faixa. Além disso, há histórias de que Freddie se sentiu desconfortável com o ambiente do estúdio de Michael, e a música acabou sendo reaproveitada no álbum dos Jacksons com Mick Jagger. -
Mick Jagger gostou de gravar com Michael Jackson?
Pelo que se conta, Jagger não guardou a gravação como uma lembrança especial e falou dela com certa indiferença em entrevistas posteriores. Mesmo assim, ele levou a música para o palco do Live Aid em 1985, ao lado de Tina Turner, o que sugere que reconhecia sua força ao vivo. -
"State of Shock" fala de amor ou de outra coisa?
Ela fala de atração, mas de um jeito quase cômico: o narrador fica tão abalado por uma mulher perigosa e magnética que se sente paralisado, como se tivesse levado um choque elétrico. É uma variação leve do tema da mulher fatal, que Michael exploraria de forma mais sombria em músicas como "Dirty Diana" e "Dangerous".