SONGFABLE · 1981

Start Me Up

THE ROLLING STONES · 1981

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Start Me Up - The Rolling Stones (1981)

TL;DR: Um dos maiores hinos de estádio da história quase morreu esquecido numa fita: a faixa nasceu como uma tentativa de reggae em 1975, foi abandonada por anos e só virou rock and roll por puro acaso. Por baixo do riff irresistível, é uma celebração sem vergonha do desejo, do tesão e do poder revitalizante de uma mulher que faz o cantor sentir que pode recomeçar.

A música que foi resgatada do lixo

Existe uma ironia deliciosa no fato de que "Start Me Up" — uma faixa que fala literalmente sobre "dar partida" em alguém, como quem liga um motor — quase nunca foi ligada. Conta-se que a base da canção foi gravada lá por 1975, durante as sessões do álbum Black and Blue, mas naquela época a banda a tocava como uma espécie de reggae arrastado. Os Rolling Stones eram fascinados pela música jamaicana naquele período, e a versão original era lenta, balançada, completamente diferente do foguete que o mundo viria a conhecer.

O problema é que aquele reggae nunca funcionou direito. A faixa foi sendo deixada de lado, sessão após sessão, álbum após álbum, dormindo numa fita esquecida no estúdio por quase cinco anos. Diz a lenda que, no meio de incontáveis takes daquela tentativa reggae, houve um único momento em que a banda, meio sem querer, atacou a música no estilo rock and roll puro — Keith Richards soltando aquele riff cortante, Charlie Watts entrando firme na batida. Foi um acidente, um desvio. E foi exatamente esse acidente que, anos depois, alguém redescobriu ao remexer no material antigo. O resto, como se costuma dizer, é história.

Os Stones no fio da navalha entre eras

Para entender por que "Start Me Up" soou tão poderosa quando finalmente apareceu, em 1981, no álbum Tattoo You, é preciso lembrar o momento estranho em que os Rolling Stones se encontravam. A banda já tinha quase vinte anos de estrada. O punk havia explodido na metade dos anos 70 dizendo que os dinossauros do rock estavam acabados. A new wave e os sintetizadores começavam a dominar as rádios. Muita gente apostava que os Stones eram relíquia de uma era que estava morrendo.

E havia tensão dentro do grupo. Mick Jagger e Keith Richards, a dupla de compositores no coração da banda, viviam um período de atrito que só pioraria ao longo da década. Tattoo You, na verdade, foi montado em boa parte com sobras — faixas inacabadas de sessões antigas que o produtor Chris Kimsey vasculhou justamente porque a dupla não estava conseguindo escrever material novo em harmonia. Ou seja: o disco que devolveu os Stones ao topo nasceu de um arquivo de restos. E "Start Me Up" foi a joia escondida no fundo daquela gaveta.

Aqui vale uma ponte com o Brasil, onde os Stones têm uma relação afetiva que poucas bandas estrangeiras alcançaram. Décadas depois, em fevereiro de 2006, a banda faria na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, um dos maiores shows gratuitos da história — estima-se que cerca de um milhão e meio de pessoas tomaram a areia e a orla naquela noite. E adivinhe qual música costumava ser uma das pancadas garantidas para fazer o público pular: justamente "Start Me Up". Para muito brasileiro, o riff de abertura dessa canção é sinônimo de "agora o show vai começar de verdade". A faixa que quase nunca foi gravada virou trilha sonora de uma das maiores festas que o Rio já viu.

O que a letra realmente diz

Por baixo da energia explosiva, "Start Me Up" é, sem rodeios, uma canção sobre desejo físico e sobre o efeito elétrico que uma pessoa exerce sobre outra. A grande metáfora que sustenta tudo é a do motor: o cantor se apresenta como uma máquina parada, e a mulher é quem dá a partida, quem o liga, quem o faz disparar e não parar mais. É uma imagem mecânica usada para falar de algo profundamente carnal — a ideia de ser acionado, posto em movimento, levado a uma velocidade que não se controla.

Jagger constrói toda a canção em cima dessa brincadeira entre o homem e a máquina. Há a sensação de partida, de aceleração, de não conseguir frear. Há também uma camada de gozação, quase de comédia, típica do humor malandro dele: o eu da canção se gaba, provoca, exagera. E perto do fim entra um verso que se tornou famoso por sua audácia romântica e meio absurda — a declaração extravagante de que aquela mulher é capaz de fazer um homem morto voltar a gozar. É bravata pura, daquele tipo que só funciona quando cantada com a cara de pau de Mick Jagger.

Mas há algo mais sutil escondido ali. A escolha do verbo "start" — começar, dar partida, recomeçar — carrega, querendo ou não, a ideia de renascimento. Uma banda que muitos davam como acabada lançando uma música chamada "Start Me Up" tem um peso simbólico difícil de ignorar. Conscientemente ou não, era os Stones dizendo ao mundo que ainda dava para ligar o motor de novo. O desejo carnal e o desejo de continuar vivo, relevante, em movimento, acabam se misturando na mesma metáfora.

Como uma sobra virou hino global

Quando Tattoo You saiu, "Start Me Up" disparou. Subiu ao topo das paradas em vários países e se cravou como uma das músicas mais tocadas da banda — o que é dizer muito, considerando o tamanho do repertório dos Stones. Mais do que um sucesso de rádio, ela se transformou no que talvez seja a função mais nobre de uma canção de rock: virar combustível coletivo. É música de abertura de show, de comercial, de arena lotada, de momento em que milhares de pessoas precisam levantar ao mesmo tempo.

O riff de Keith Richards merece um parágrafo só para ele. São poucas notas, simples, mas posicionadas com uma precisão quase cirúrgica — aquele tipo de frase de guitarra que qualquer pessoa reconhece em dois segundos, mesmo sem saber o nome da música. É o cartão de visita do rock and roll mais cru e direto, sem firulas. Charlie Watts, com aquela batida econômica e elegante que era a marca registrada dele, segura tudo no chão. É a prova de que os Stones nunca precisaram de mil camadas: bastavam guitarra, baixo, bateria e a presença de Jagger.

A consagração definitiva como hino corporativo e cultural veio em 1995, quando a Microsoft, segundo relatos da época, pagou uma quantia milionária para usar "Start Me Up" no lançamento do Windows 95 — aproveitando, claro, o duplo sentido do "start" e do famoso botão Iniciar do sistema. Foi um casamento estranho entre o rock rebelde e a tecnologia de massa, e selou a faixa no inconsciente de uma geração inteira que nem necessariamente ligava para os Stones. A música que quase apodreceu numa fita virou trilha do produto mais vendido da informática.

Por que ela ainda nos liga hoje

Há canções que envelhecem e canções que simplesmente continuam funcionando, década após década, como se tivessem sido feitas para tocar para sempre. "Start Me Up" é do segundo tipo. E a razão é quase física: ela é construída para dar energia. Toque esse riff em qualquer festa, em qualquer estádio, em qualquer churrasco no quintal, e algo no corpo das pessoas responde. É difícil ficar parado.

Para o público brasileiro que ama rock e pop internacional, a faixa carrega ainda aquela memória afetiva dos grandes shows — a banda que voltou ao Rio várias vezes, que fez Copacabana parar, que segue rodando o mundo com integrantes já octogenários e ainda assim entregando o riff com a mesma garra. Existe algo profundamente humano e até comovente em ver homens dessa idade subindo num palco e tocando uma música sobre dar partida, sobre não conseguir frear, sobre o motor que não desliga. Vira metáfora de vida, não só de desejo.

E talvez seja esse o segredo. "Start Me Up" começou como reggae, foi abandonada, ressuscitou por acaso, virou hino de estádio, depois trilha de software, depois clássico eterno. A própria história da música é um exemplo de recomeço — de algo que parecia morto sendo religado e disparando mais forte do que nunca. Quando o riff entra, você não está só ouvindo uma canção de 1981. Está testemunhando uma máquina que se recusa, teimosamente, a desligar.


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