SONGFABLE · 1972

Starman

DAVID BOWIE · 1972

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Starman - David Bowie (1972)

Em julho de 1972, um andrógino de cabelo vermelho-fogo apareceu na televisão britânica e passou o braço pelo ombro de seu guitarrista enquanto falava sobre um amigo cósmico esperando no céu. Em quatro minutos, "Starman" reconfigurou o que pop, gênero e ficção científica podiam significar — e ofereceu a uma geração de outsiders a primeira evidência transmitida de que o estranho podia ser belo. Cinquenta e tantos anos depois, a canção continua sendo um manual de instruções para inventar a si mesmo quando o mundo não oferece nenhum molde adequado.

Hook

Há uma frase específica naquela apresentação do Top of the Pops, em 6 de julho de 1972, que costuma ser citada como ponto de virada cultural: Bowie, vestido com um macacão multicolorido desenhado por Freddie Burretti, olhou diretamente para a câmera e apontou. O gesto durou meio segundo. Era para você — qualquer você que estivesse assistindo, sozinho, num apartamento social de Manchester, num pub de Glasgow, num quarto suburbano em Bromley. Aquele dedo apontado atravessou a tela como uma transmissão de outra galáxia, e o resto da carreira de Bowie pode ser lido como a longa elaboração daquele instante: a sugestão de que existe alguém esperando, do outro lado, que não vai te julgar por ser quem você é.

"Starman" é a canção que materializou essa promessa. Lançada como single em abril de 1972 e incluída tardiamente no álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, ela foi escrita quase por imposição comercial — a RCA queria um hit antes do lançamento do disco — e mesmo assim acabou contendo, em pouco mais de quatro minutos, toda a tese estética e moral do projeto Ziggy. Há um alienígena benevolente flutuando acima da Terra. Ele quer descer e cumprimentar a humanidade, mas teme que isso nos despedace. Por isso, transmite a mensagem pelo rádio, e cabe aos adolescentes — não aos pais, não às autoridades — captarem o sinal.

A genialidade está em como uma fábula tão grandiosa foi embalada em forma de canção pop perfeitamente convencional. O salto melódico de oitava na palavra que dá título à música é, declaradamente, uma citação de "Over the Rainbow" de Judy Garland; o riff de violão acústico que abre a faixa lembra "T. Rex" de Marc Bolan; o handclap que aparece no refrão é puro Phil Spector. Bowie estava roubando descaradamente da história do pop ocidental e reconstruindo essas peças num objeto que parecia, simultaneamente, familiar e completamente alienígena. Era o método dele: nunca inventar do zero, sempre recombinar de modo que o resultado parecesse vir do futuro.

Background

Para entender "Starman", é necessário recuar até David Robert Jones, um jovem de Brixton e depois de Bromley que, em 1972, já tinha quase uma década de tentativas frustradas atrás de si. Houve o single de novidade "The Laughing Gnome" em 1967, o sucesso fugaz de "Space Oddity" em 1969 — coincidindo com a alunissagem da Apollo 11 e quase imediatamente esquecido —, e dois álbuns subsequentes, The Man Who Sold the World (1970) e Hunky Dory (1971), que a crítica admirava mas o público em geral ignorava. Bowie era, aos 25 anos, um caso clássico de talento amplamente reconhecido sem tração comercial.

O que mudou foi uma decisão conceitual radical: em vez de continuar tentando convencer o mercado de que David Bowie merecia atenção, ele inventaria um personagem que o mercado não conseguiria ignorar. Ziggy Stardust — meio messias rock, meio drag queen, meio profeta apocalíptico — nasceu da colisão de várias influências. Havia o cantor britânico Vince Taylor, que Bowie conheceu no fim dos anos 1960 e que, depois de um colapso induzido por LSD, passou a se acreditar uma figura divina. Havia o cantor Legendary Stardust Cowboy, do Texas, cujo nome forneceu metade do alter ego. Havia o filme A Clockwork Orange de Kubrick, lançado em 1971, com seu visual de gangues estilizadas. Havia o teatro kabuki japonês, do qual Bowie tomou maquiagem, gestos e a noção de que masculinidade é uma performance entre outras possíveis.

O álbum Ziggy Stardust foi gravado nos estúdios Trident, em Londres, entre novembro de 1971 e fevereiro de 1972, com a banda Spiders from Mars — Mick Ronson na guitarra, Trevor Bolder no baixo, Mick "Woody" Woodmansey na bateria — e o produtor Ken Scott. "Starman" foi acrescentada em janeiro, depois que o executivo da RCA Dennis Katz ouviu uma versão inicial do álbum e disse que faltava um single óbvio. Bowie escreveu a faixa rapidamente, partindo de uma frase melódica que tinha rascunhado para uma demo intitulada "Round and Round", uma versão cover de Chuck Berry que acabou descartada.

O arranjo de cordas e o piano são de Mick Ronson, cuja contribuição para a carreira inicial de Bowie é frequentemente subestimada. Ronson, um ex-jardineiro municipal de Hull, trazia uma sensibilidade orquestral que vinha de Elgar e Holst tanto quanto do rock; foi ele quem traduziu as ideias melódicas brutas de Bowie em arquitetura sonora. Sem Ronson, "Starman" seria uma canção folk discreta. Com ele, virou uma fanfarra.

Real meaning

Existem pelo menos três camadas de leitura que coexistem dentro da canção, e parte da longevidade de "Starman" vem do fato de que nenhuma delas anula as outras.

A leitura literal é a mais óbvia: uma criança ouve no rádio uma mensagem de um extraterrestre que orbita a Terra. O ser cósmico quer aterrissar para conhecer a humanidade, mas hesita porque acredita que sua chegada nos sobrecarregaria. O destinatário da mensagem é instruído a espalhar a notícia para outras crianças, mas a esconder dos adultos. É, em essência, uma versão pop da estrutura messiânica clássica — um intermediário descendo dos céus para anunciar uma boa-nova, com a particularidade de que o público-alvo é estritamente jovem.

A segunda leitura é metafórica e diz respeito ao próprio Bowie. Em entrevistas posteriores, ele admitiu que Ziggy Stardust era, em certa medida, ele mesmo projetado em escala mítica — o artista marginal que finalmente encontra um veículo para se manifestar publicamente. O "homem das estrelas" no rádio é, dessa perspectiva, a própria voz do rock como instituição libertadora, transmitindo a adolescentes confinados em quartos suburbanos a notícia de que existe uma vida possível além daquele teto baixo.

A terceira leitura, mais sutil, é política e geracional. O Reino Unido de 1972 estava em crise: greve dos mineiros, racionamento de energia, semana de três dias, Bloody Sunday em Belfast em janeiro daquele ano. A cultura jovem que tinha florescido nos anos 1960 estava agora em refluxo, e os filhos da contracultura encontravam-se diante de um futuro economicamente mais sombrio do que o de seus pais. "Starman" funcionou como antídoto direto a esse pessimismo: ela não negava a escuridão, mas sugeria que a salvação viria de fora dos canais oficiais — não do governo, não da escola, não dos pais, mas de uma frequência que apenas certos receptores conseguiriam captar.

Há ainda um quarto nível, que só ficou totalmente legível em retrospecto. "Starman" foi, para uma geração inteira de pessoas LGBTQ+ no Reino Unido, a primeira sugestão na televisão pública de que a androginia podia ser glamorosa em vez de patológica. O gesto de Bowie passando o braço pelo ombro de Ronson durante a apresentação no Top of the Pops — um toque casual, fraterno, ambíguo — foi processado pelos espectadores como um ato político. Anos mais tarde, músicos como Boy George, Marc Almond, Morrissey, Robert Smith e Siouxsie Sioux relatariam ter visto aquele programa em particular e ter compreendido, num instante, que sua estranheza não era um defeito mas uma vocação.

Cultural context para o Brasil

Em 1972, o Brasil vivia o auge do regime militar, e o rock estrangeiro chegava filtrado por uma combinação de censura e infraestrutura precária. Ziggy Stardust foi lançado no país com certo atraso e nunca alcançou, nos anos 1970, o impacto cultural que teve no Reino Unido ou nos Estados Unidos. Mas a reverberação tardia de Bowie no imaginário brasileiro foi, em alguns aspectos, mais profunda do que poderia se imaginar, justamente porque ela aconteceu através de elos indiretos.

O paralelo mais imediato é com a Tropicália, que poucos anos antes — em 1968 — tinha feito no Brasil algo estruturalmente análogo ao que Bowie faria em 1972: usar o pop como vetor de transgressão simultaneamente estética e política. Caetano Veloso e Gilberto Gil cantando "Soy Loco Por Ti, América" com guitarras elétricas e maquiagem, Os Mutantes vestindo capas espaciais e tocando psicodelia em português, Tom Zé apresentando objetos cotidianos como instrumentos — tudo isso compunha uma sensibilidade que reconheceria, anos depois, em Bowie um irmão de longe. Não é coincidência que Caetano, ao listar suas referências de provocação estética, mencione com frequência Bowie ao lado de Bob Dylan e dos Beatles.

Quando Bowie finalmente se tornou influência massiva no Brasil, no início dos anos 1980, foi através de uma nova geração que tinha crescido entre o ocaso do regime militar e a abertura democrática. Cazuza, em particular, encarna uma versão brasileira da promessa de "Starman": o vocalista do Barão Vermelho, e depois solista, que misturava sensualidade ambígua, lirismo confessional e uma consciência aguda da mortalidade. Quando Cazuza canta "Ideologia" ou "O Tempo Não Para", há uma linhagem direta que passa por Ziggy Stardust — a noção de que o palco é o lugar onde se pode dizer aquilo que a sociedade ainda não está preparada para ouvir.

Renato Russo, da Legião Urbana, é outro herdeiro óbvio, talvez ainda mais explícito. As referências de Russo à literatura, à mitologia, à grandiloquência operística dos arranjos da Legião — tudo isso bebe da mesma fonte que alimentou Bowie. "Faroeste Caboclo", de 1987, é uma narrativa de outsider messiânico que poderia ser lida como um Ziggy brasileiro transposto para o sertão. E quando Renato Russo, depois de revelar publicamente sua sorologia HIV positiva no fim dos anos 1980, transformou seu corpo doente em obra de arte política, ele estava executando uma versão particularmente trágica do gesto que Bowie inaugurara em 1972: usar a própria estranheza como instrumento de comunhão.

O Rock in Rio de 1985, embora não tenha contado com Bowie no line-up, foi em certa medida uma materialização brasileira da fantasia "Starman" — a chegada simultânea de várias figuras quase mitológicas (Queen, AC/DC, Iron Maiden, Yes) num país que acabava de sair de duas décadas de ditadura. Para os adolescentes que estavam ali, o festival funcionou como aquela transmissão de rádio em "Starman": uma confirmação, finalmente em alta resolução, de que existia um mundo lá fora pronto para acolhê-los.

Os Mutantes, vale dizer, tinham antecipado Bowie em vários aspectos. Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias começaram a tocar em 1966 com uma estética que misturava ficção científica, brincadeira teatral, irreverência tropicalista e sofisticação harmônica beatle. Existe uma foto célebre dos três usando trajes coloridos e óculos extravagantes, num palco do Programa Chacrinha, que é praticamente um Ziggy Stardust pré-Ziggy. A diferença é que Bowie tinha aparato comercial anglófono para projetar globalmente o que Os Mutantes faziam num país periférico para um público restrito.

Mais recentemente, a influência de "Starman" pode ser detectada em artistas brasileiros contemporâneos como Linn da Quebrada, Liniker, Pabllo Vittar, Johnny Hooker — todas figuras que constroem suas personas públicas como atos políticos de auto-invenção, cada uma à sua maneira ecoando o princípio Ziggy de que o gênero é uma performance e a performance é um direito.

Why it resonates today

Vivemos um momento estranho em relação a "Starman". De um lado, a canção parece datada — a fé num único receptor cósmico que vai resolver tudo, a confiança no rádio como meio mágico, o messianismo embutido. De outro, ela soa mais urgente do que nunca, porque a estrutura sentimental que ela descreve — esperar uma mensagem libertadora num momento de claustrofobia política — é o estado emocional padrão de boa parte da juventude global contemporânea.

A diferença é que, em 1972, "o rádio" era uma metáfora plausível para um canal compartilhado de transmissão coletiva: milhões de adolescentes ouviam os mesmos quarenta hits, e isso criava a possibilidade de uma experiência geracional sincronizada. Hoje, o "rádio" se fragmentou em milhões de feeds personalizados, e a fantasia de um sinal único capaz de unir uma geração inteira parece tecnologicamente impossível. Por isso mesmo, "Starman" funciona como objeto nostálgico de um futuro que não aconteceu: a possibilidade de que um pop song pudesse ainda ser, simultaneamente, arte vanguardista e linguagem comum.

Mas há outra forma de escutar a canção em 2026, mais produtiva do que a nostalgia. "Starman" propõe que a salvação é coletiva mas começa individualmente: um adolescente sozinho num quarto, captando um sinal, e depois passando esse sinal adiante. Essa estrutura ressoa profundamente com a forma como movimentos políticos contemporâneos — climáticos, raciais, LGBTQ+, indígenas — efetivamente se organizam. Não há mais um centro emissor único, mas há milhões de pequenos receptores que se reconhecem mutuamente e formam, por agregação, algo parecido com uma onda.

A canção também antecipou, com precisão desconcertante, a aliança entre celebridade pop e identidade afirmativa que viria a definir boa parte do século XXI. Quando Lady Gaga canta "Born This Way", quando Sam Smith fala sobre não-binariedade num talk show, quando Pabllo Vittar lota o sambódromo do Rio, eles estão executando — consciente ou inconscientemente — o protocolo que Bowie estabeleceu naquela noite de julho de 1972. A estrela pop como mensageira de uma boa-nova existencial; a apresentação televisiva como ritual de aceitação à distância; o público adolescente como destinatário privilegiado.

Há, por fim, a leitura mais melancólica. Bowie morreu em janeiro de 2016, dois dias depois do lançamento de Blackstar, e desde então "Starman" adquiriu uma camada elegíaca que ela não tinha originalmente. A canção que falava de um alienígena esperando no céu virou, sem querer, um epitáfio: o homem das estrelas voltou para a estrela de onde veio, e o que sobrou foi a transmissão. É possível ouvir "Starman" hoje sem sentir essa segunda voz, a do luto, sobreposta à primeira, a da promessa. Mas talvez seja precisamente essa duplicidade — a coexistência de utopia juvenil e perda madura — que mantenha a canção viva. Toda grande música pop, no fim, é uma cápsula do tempo que continua emitindo muito depois de seu remetente original ter sido silenciado.

Como mergulhar mais fundo

🎧 Ouça

The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (David Bowie) O álbum completo de 1972, do qual "Starman" é o quarto faixa. Escute na ordem original, do prólogo apocalíptico de "Five Years" até o suicídio simbólico de "Rock 'n' Roll Suicide", para entender como a canção se encaixa numa narrativa maior sobre profecia e queda. → Search

A Tábua de Esmeralda (Jorge Ben Jor) Lançado em 1974, este álbum brasileiro opera num registro mítico-cósmico paralelo ao de Ziggy, com alquimia, samba e referências esotéricas costuradas com uma vocalidade absolutamente única. Funciona como contraponto tropical à fantasia espacial de Bowie. → Search

📚 Leia

Bowie: Uma Biografia (Wendy Leigh) Biografia que cobre desde a infância em Brixton até os últimos anos em Nova York, com atenção particular ao período Ziggy e às escolhas estéticas que moldaram "Starman". Boa entrada para quem quer entender o personagem por trás do alter ego. → Search

Verdade Tropical (Caetano Veloso) Memórias do tropicalista que oferecem o contexto necessário para entender como o Brasil processou figuras como Bowie. Caetano discute em detalhe a relação da música brasileira com a vanguarda pop internacional dos anos 1960 e 70. → Search

🌍 Visite

Heddon Street, Londres A ruela perto de Regent Street onde foi tirada a foto da capa de Ziggy Stardust. Há uma placa comemorativa instalada em 2012 no local exato. Pequena peregrinação para fãs, surpreendentemente discreta em meio aos restaurantes de Mayfair. → Search

Circo Voador, Rio de Janeiro A casa de shows histórica da Lapa que foi palco do nascimento do rock brasileiro pós-redemocratização. Cazuza, Legião Urbana, Paralamas — todos passaram por ali nos anos 1980. É o equivalente brasileiro do Marquee Club londrino onde Bowie estreou Ziggy. → Search

🎸 Experimente você mesmo

Monte um setlist Ziggy-Tropicália Crie uma playlist alternando faixas de Ziggy Stardust com canções de Os Mutantes, Caetano Veloso (período Phillips), Rita Lee e Cazuza. O exercício revela parentescos sonoros surpreendentes entre o glam britânico e a vanguarda brasileira. → Search

Experimente maquiagem como performance Compre um kit básico de delineador e sombras coloridas, e tente reproduzir — diante do espelho, sem compromisso — o flash relâmpago vermelho-e-azul do rosto de Bowie na capa de Aladdin Sane. O exercício, mesmo solitário, ensina algo concreto sobre o que significa habitar um personagem. → Search


🎵 Listen on all platforms

🤖 Perguntas para continuar:

  1. Como a estética glam de Bowie dialogou com a androginia já presente na bossa nova e na tropicália dos anos 1960?
  2. Por que o messianismo pop de "Starman" funciona melhor em momentos de crise política, e quais canções brasileiras contemporâneas cumprem função semelhante hoje?
  3. Se Ziggy Stardust fosse criado em 2026 num país periférico, qual seria sua plataforma — TikTok, Twitch, festival presencial — e o que isso revelaria sobre a transformação do conceito de "estrela pop"?
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