Kashmir
Kashmir - Led Zeppelin (1975)
TL;DR: "Kashmir", do Led Zeppelin, foi gravada em 1975 e nasceu de uma viagem de Robert Plant pelo deserto do sul do Marrocos — não da região da Caxemira, sabia? O riff hipnótico em compasso de 3 sobre 4 da bateria, as cordas e metais arranjados por John Paul Jones, e a letra que fala de uma travessia interior fazem desta faixa o que o próprio Jimmy Page chamou de "a definição do Led Zeppelin". Mais do que rock pesado, é uma peça de música mundial antes da palavra existir — algo que ressoa com quem já ouviu Caetano em "Araçá Azul" ou os Mutantes flertando com a psicodelia oriental. Quase cinquenta anos depois, ainda parece uma caravana atravessando uma duna que não termina.
Hook: aquela primeira vez no Galpão
Você lembra da primeira vez que ouviu "Kashmir"? Eu lembro como se fosse ontem. Foi numa loja de discos no centro, dessas com piso de madeira que rangia, e o dono colocou o lado dois de Physical Graffiti sem dizer nada. Aqueles primeiros acordes saíram do alto-falante, e parecia que o ar tinha ficado mais denso. Não era rock, não era exatamente. Era outra coisa — uma procissão, talvez, ou um cortejo lento atravessando um lugar que ninguém tinha visto ainda.
Tem gente que descobre "Kashmir" assim, na sorte. Outros chegam por School of Rock, pelo Puff Daddy do "Come With Me", ou por algum DJ no Circo Voador colocando a faixa às três da manhã quando o público já está num estado meio transcendental. Não importa por onde você entrou. Você entrou.
Eu acho que é por isso que ainda falamos dela. Quase meio século depois.
Background: o deserto que não era Caxemira
Vamos voltar a 1973. O Led Zeppelin tinha acabado de gravar Houses of the Holy e estava no auge — turnês monstruosas, jatinho próprio, aquela coisa toda. Robert Plant, o vocalista, decide tirar férias. Pega um carro alugado e vai com Jimmy Page para o Marrocos. Eles atravessam a região do Sahara, do sul, indo de Goulimine em direção a Tan-Tan, uma estrada reta, sem curvas, que parecia não terminar nunca.
Plant ficou possuído por aquela paisagem. Voltou para a Inglaterra com versos rabiscados num caderno. Mas a música — o riff — quem trouxe foi Jimmy Page. Ele e o baterista John Bonham vinham brincando com uma ideia maluca: tocar dois ritmos diferentes ao mesmo tempo. A guitarra subindo numa escala que soa árabe, em compasso de 3 sobre 4, e a bateria batendo direto em quatro tempos. Os dois nunca se encontram, e ao mesmo tempo se encaixam perfeitamente. Quem sabe um pouco de teoria musical sabe que isso é, tecnicamente, uma poliritmia. Mas no estúdio Headley Grange, naquela casa velha onde eles gravavam, ninguém estava pensando em termos técnicos. Estavam só sentindo.
A faixa entrou em Physical Graffiti, álbum duplo lançado em fevereiro de 1975. Era a sexta música, abrindo o lado dois do segundo LP. Tem oito minutos e meio. John Paul Jones, o baixista e tecladista — sabe, o membro mais discreto da banda, mas talvez o mais musicalmente sofisticado —, foi quem arranjou as cordas e os metais que entram a partir do segundo minuto. Ele contratou músicos da orquestra sinfônica para tocar mellotron, cordas reais, sopros. Aquilo não era convencional para uma banda de hard rock em 1975. Era quase exagero. Mas funcionou.
Curiosamente, nenhum dos quatro nunca pôs o pé na Caxemira de verdade. O nome veio depois, quase como um eco — uma palavra que soava certa para o que a música era, mesmo que geograficamente errada.
O verdadeiro significado: a travessia, não o destino
Tem uma coisa que sempre me incomoda quando leio análises de "Kashmir". As pessoas tentam transformar a letra num mapa, num diário de viagem literal. Não é isso. Plant não está descrevendo um lugar. Ele está descrevendo um estado.
A letra fala — e aqui vou parafrasear, porque reproduzir os versos literalmente não é o jeito — de um viajante que segue uma estrada sem fim, atravessando paisagens que parecem mais um sonho do que geografia. Há referências a anciãos, a vozes antigas chamando, a uma busca por algo que não tem nome. É a velha jornada do herói, sabe? Aquela coisa que Joseph Campbell descreveu: o sujeito sai de casa, atravessa o limiar, encontra forças estranhas, e talvez volte transformado, talvez não volte nunca.
Robert Plant era um leitor voraz de Tolkien, de literatura mística, de poesia sufi. Ele não estava cantando sobre dirigir um carro no Marrocos. Ele estava usando o deserto como metáfora para uma travessia espiritual — uma busca pelo que está além daquilo que a gente pode dizer com palavras.
Por isso a música tem aquela construção quase cíclica. Ela não tem um clímax tradicional, não tem aquela explosão de "agora vou soltar um solo gigante" como em "Stairway to Heaven". Ela só vai. Ela cresce, e cresce, e cresce, e quando você percebe estão oito minutos depois e você não consegue lembrar exatamente o que aconteceu. Igual a uma viagem longa. Você sabe que mudou, mas não sabe explicar onde foi.
Jimmy Page disse uma vez, numa entrevista que eu ouvi num documentário da BBC nos anos 90, que "Kashmir" era a essência do que o Led Zeppelin era. Não as canções mais famosas, não "Whole Lotta Love" ou "Black Dog". Era esta. Porque aqui a banda não estava imitando blues americano, não estava reciclando Willie Dixon. Aqui ela tinha encontrado uma voz própria, algo que misturava rock ocidental com escalas modais do norte da África, arranjos orquestrais e uma sensação de transe que tem mais a ver com música devocional do que com qualquer outra coisa.
Para o ouvido brasileiro: caravanas tropicais
Tem uma ponte interessante a se fazer aqui, e eu acho que quem cresceu ouvindo música brasileira pega de primeira.
Pense nos Mutantes em 1968, em A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado. Pense em Caetano abrindo Araçá Azul com aqueles experimentos vocais que ninguém entendeu na época. Pense em Tom Zé inventando sons com objetos achados no lixo. A Tropicália estava fazendo, do lado de cá, exatamente o que o Led Zeppelin fez com "Kashmir": pegar o rock como linguagem base e contaminá-lo com tudo o que não era rock. No caso deles, foi o forró, a bossa, a vanguarda europeia, o concretismo paulista. No caso do Zep, foi o Marrocos, a Índia imaginada, o mellotron, as cordas sinfônicas.
Tem também o lado do rock nacional que dialoga sem saber que dialoga. Quando o Renato Russo escreveu "Faroeste Caboclo" em 1987 — aquela narrativa épica de nove minutos, contada como uma odisseia —, ele estava fazendo, no português dele, algo da mesma natureza. Uma travessia. Uma jornada que não cabe num formato comercial de rádio. O Cazuza, no auge do Barão Vermelho, gostava desse tipo de canção que se permite respirar, que não tem pressa. "Maior abandonado" tem isso também.
E o Raul Seixas, claro. O Raul era um místico declarado. Quando ele canta "Tente Outra Vez" ou quando ele entra no lado mais esotérico de Krig-ha, Bandolo!, ele está mexendo na mesma gaveta de onde Plant tirou a letra de "Kashmir". A jornada interior, a busca, o "siga em frente sem saber para onde".
Sabe onde eu sinto que "Kashmir" funciona melhor no Brasil? Em festival ao vivo. Em Rock in Rio, quando Robert Plant veio em 2013 com a Sensational Space Shifters, ele tocou e o estádio inteiro virou um corpo só. Era uma coisa quase religiosa. E pensa também naqueles shows clássicos do Circo Voador no Rio, ou no Tom Brasil em São Paulo — espaços que têm acústica para esse tipo de música respirar. Não é faixa para fone barato no busão. É faixa para sistema decente, sala escura, e tempo.
Por que ainda ressoa hoje
A gente vive num tempo de música picotada. Spotify, TikTok, refrões em quinze segundos. A média de duração de um hit em 2024 é de uns três minutos e pouco, e diminuindo. Nesse contexto, "Kashmir" deveria ter sumido. Oito minutos e meio? Sem refrão pop? Letra que não fala de coração partido?
E no entanto. As estatísticas de streaming dela continuam altíssimas. Em 2022, segundo o Spotify, ela passou de um bilhão de plays. Por quê?
Eu acho — e isso é só palpite de quem ouve música há muito tempo —, eu acho que é porque a música oferece exatamente o que o resto do dia não oferece. Tempo. Espaço. Uma sensação de que algo está sendo construído com cuidado, sem pressa, e que se você der atenção, você vai ser pago de volta. É o oposto do scroll infinito.
Tem também uma camada nova que eu nem imaginava nos anos 80. A geração que cresceu com videogame conhece "Kashmir" pelo Rock Band, pelo Gran Turismo. Tem gente que entrou na faixa por causa do Kanye West samplear o Led Zeppelin em outras músicas, ou por causa do Puff Daddy fazer aquele "Come With Me" para o filme do Godzilla em 1998 — sample autorizado pelo Page, inclusive, que tocou guitarra na faixa. Cada geração reencontra a música por uma porta diferente.
E nos últimos anos, com a gente conversando mais sobre apropriação cultural, "Kashmir" voltou a ser discutida sob essa luz também. É justo um inglês branco fazer uma música chamada Caxemira sobre o Saara? Plant respondeu várias vezes em entrevistas que ele nunca pretendeu representar nenhum lugar — era estado de espírito, sonho, imaginação. Eu acho que ele tem razão, mas a conversa em si é saudável. Faz a gente ouvir com mais atenção.
Como mergulhar mais fundo
Se essa conversa abriu alguma porta para você, deixa eu sugerir alguns caminhos. Não tudo de uma vez. Vai com calma.
🎧 Para escutar
- Led Zeppelin – Physical Graffiti (1975). Não dá para ouvir "Kashmir" só na playlist. Tem que sentar com o disco inteiro. "In My Time of Dying" e "In the Light" são parentes próximos. Procurar na Amazon
- Led Zeppelin – How the West Was Us (versões ao vivo). Para entender como a faixa respira no palco. Procurar na Amazon
- Nusrat Fateh Ali Khan – Mustt Mustt. O Plant ouvia muito qawwali paquistanesa. Se "Kashmir" te pegou pela hipnose, isso aqui vai te derrubar. Procurar na Amazon
📚 Para ler
- Stephen Davis – Hammer of the Gods. A biografia clássica do Zeppelin, controversa, deliciosa, contém o causo da viagem ao Marrocos contado em detalhe. Procurar na Amazon
- Barney Hoskyns – Led Zeppelin: The Oral History. Mais sóbria, mais documentada, vale para cruzar com a anterior. Procurar na Amazon
- Joseph Campbell – O Herói de Mil Faces. Se você quer entender por que a estrutura narrativa de "Kashmir" funciona tanto, é aqui que mora a chave. Procurar na Amazon
🌍 Para visitar
- Galpão Sujinho e a rua Augusta, São Paulo. Não pelo nome, mas pelas lojas de vinil da região — gente como a Baratos Afins na galeria Nova Barão. Vai num sábado de tarde, pede para o atendente colocar o lado B de Physical Graffiti, e veja o que acontece.
- Circo Voador, Lapa, Rio de Janeiro. Não tem como prever quando alguém vai tocar Led Zeppelin lá, mas a vibração da casa, o teto aberto para a noite carioca, é o espaço certo para esse tipo de música existir.
- Rock in Rio. Quando voltar, fique de olho. O festival traz, vez ou outra, projetos ligados aos integrantes sobreviventes. Plant tem aparecido em formato menor, mais world music. Vale a peregrinação.
🎸 Para experimentar
- Pegar um violão e tentar o riff em DADGAD. O Jimmy Page usa afinação aberta. Não é difícil chegar perto. Você vai sentir na ponta dos dedos por que aquele riff soa daquele jeito.
- Ouvir a faixa com fone bom, em volume médio, no escuro, sem fazer mais nada. Parece bobagem. Não é. A música foi construída para esse tipo de atenção, e a gente quase nunca dá.
- Montar uma noite "Physical Graffiti" em casa. Convidar dois ou três amigos que gostam de música, colocar o disco do começo ao fim, sem celular, conversar nos intervalos. É o jeito mais antigo de ouvir, e ainda é o melhor.
Acho que era isso que eu queria dizer sobre "Kashmir". Não é a música mais famosa do Led Zeppelin. Mas talvez seja a mais essencial. A que mais carrega a alma daquilo que a banda foi, num momento em que eles ainda eram capazes de se surpreender com a própria criação.
Você já ouviu hoje?
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Três perguntas para continuar a conversa:
- Qual foi a música que, para você, redefiniu o que rock podia ser?
- Existe alguma faixa brasileira que te dá a mesma sensação de "travessia" que "Kashmir" dá?
- Se você fosse fazer uma viagem hoje só para encontrar uma canção do outro lado, para onde iria?