SONGFABLE · 1991

Jam

MICHAEL JACKSON · 1991

TL;DR: Por trás da batida mais musculosa que Michael Jackson já gravou, "Jam" é um desabafo sobre um mundo confuso e sobre a pressão de ser julgado o tempo todo, e a resposta que ele encontra não é fugir, mas olhar para dentro e chamar todo mundo para se mover junto.
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O vidro que se quebra antes de tudo

Muita gente lembra de "Jam" como a música do clipe em que Michael Jackson joga basquete com Michael Jordan. É uma memória justa, mas incompleta. Antes de qualquer imagem, antes de qualquer drible, existe um som: vidro se estilhaçando. É assim que começa "Dangerous", o álbum de 1991, e é assim que começa "Jam", a faixa de abertura. Não é um detalhe decorativo. É uma declaração.

Em 1991, Michael Jackson era o artista mais famoso do planeta e, ao mesmo tempo, um dos mais cercados por suspeitas, piadas e manchetes. Ele tinha passado a década de 1980 quebrando recordes com "Thriller" e "Bad". Agora precisava provar que ainda tinha algo a dizer num cenário musical que mudava rápido, com o hip-hop e o new jack swing tomando as rádios americanas. O vidro quebrando soa como alguém arrombando a porta de uma nova fase. E a surpresa é que, por baixo daquele groove irresistível, a letra não fala de festa. Fala de angústia, de confusão diante do mundo e da necessidade de se reconstruir por dentro.

"Jam" é, no fundo, uma canção de autoexame disfarçada de convite para dançar. E é justamente essa tensão que a torna tão interessante mais de três décadas depois.

Um novo parceiro, um novo som

Para entender "Jam", é preciso entender a virada que Michael fez ao se separar de Quincy Jones. Depois de três álbuns históricos juntos, "Off the Wall", "Thriller" e "Bad", ele decidiu seguir outro caminho em "Dangerous". O nome escolhido para ajudar nessa transição foi Teddy Riley, o jovem produtor nova-iorquino considerado o pai do new jack swing, o gênero que misturava R&B, batidas de hip-hop, swing e muita síncope.

Riley vinha de sucessos com o grupo Guy e com trabalhos para Bobby Brown e Keith Sweat. Ele trouxe para o estúdio uma bateria seca, estalada, com caixas que parecem estalar como chicote, e linhas de baixo sintetizado que empurram o corpo para frente. "Jam" é creditada a Michael Jackson, Teddy Riley, René Moore e Bruce Swedien, o engenheiro de som que acompanhava Michael havia anos e que, segundo relatos, ajudou a moldar aquela sonoridade densa e cheia de camadas.

Há ainda um ingrediente que diz muito sobre a época: o rapper Heavy D aparece com um verso na parte do meio da faixa. Colocar um rapper numa música de abertura de álbum de Michael Jackson, em 1991, era uma forma clara de dizer que ele estava prestando atenção na rua, no que a juventude negra americana estava ouvindo, e que não queria ser tratado como peça de museu.

Aqui cabe um gancho importante para o leitor brasileiro. "Dangerous" não foi só um disco; foi a turnê que trouxe Michael Jackson de volta ao Brasil. Em outubro de 1993, a Dangerous World Tour passou pelo Estádio do Morumbi, em São Paulo, com multidões enormes, e, segundo muitos relatos da época, "Jam" era a música que abria o show. Ou seja, para milhares de brasileiros, o primeiro som de Michael ao vivo foi justamente essa batida. E três anos depois, em 1996, ele voltaria ao país para gravar o clipe de "They Don't Care About Us" no Pelourinho, em Salvador, e no Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, com o Olodum. A relação de Michael com o Brasil nos anos 1990 passa, em boa medida, pela energia inaugurada em "Jam".

O que a música realmente diz

Se você só escutar o ritmo, "Jam" parece uma convocação para a pista. Mas, prestando atenção na letra, o que aparece é outra coisa. O narrador descreve um mundo que ele não consegue mais entender: as nações brigam, as pessoas se enfrentam, as notícias chegam carregadas de conflito e ninguém parece ter as respostas. Há uma sensação de sobrecarga, de viver num tempo em que tudo está desequilibrado.

Diante disso, a canção faz um movimento curioso. Em vez de apontar culpados lá fora, o narrador vira o espelho para si mesmo. Ele admite que precisa se examinar, entender o que está errado dentro dele antes de tentar consertar o mundo. Essa ideia de começar pela própria pessoa já tinha aparecido com força em "Man in the Mirror", do álbum "Bad", e o eco aqui é evidente: a ética de Michael no fim dos anos 1980 e início dos 1990 girava em torno da transformação pessoal como ponto de partida para a mudança coletiva. "Jam" leva esse tema para um terreno mais cru, menos solene e mais urgente.

Há também, nas entrelinhas, uma camada pessoal. O narrador fala de pressão, de gente que tenta derrubá-lo, de não deixar que o peso dos outros determine quem ele é. Numa época em que a imprensa sensacionalista inventava histórias sobre câmaras hiperbáricas e ossos comprados, é difícil não ouvir nisso um recado direto de Michael aos tabloides. Ele reconhece a confusão, reconhece o incômodo, mas se recusa a ser esmagado.

E então vem a palavra do título. "Jam", em inglês, pode significar uma sessão musical improvisada, um encontro para tocar junto, mas também um aperto, uma situação complicada. A canção brinca com os dois sentidos. O mundo está num aperto; a saída é se juntar e fazer um som coletivo. O refrão, em vez de oferecer uma solução intelectual, oferece uma solução física: movimento, ritmo, gente junta. É como se Michael dissesse que, quando a razão não dá conta, o corpo pode ensinar alguma coisa sobre união.

O verso de Heavy D, por sua vez, funciona como um contraponto mais leve e confiante, um respiro de celebração dentro de uma música tensa. É o momento em que a faixa quase vira uma festa de bairro, antes de Michael retomar o controle com seus soluços vocais, estalos e grunhidos característicos.

O clipe com Michael Jordan e a cultura dos anos 1990

Lançada como single em 1992, "Jam" não foi um dos maiores sucessos comerciais de "Dangerous" nas paradas americanas; ela chegou, segundo os registros, por volta da 26ª posição na Billboard Hot 100, bem atrás de "Black or White" e "Remember the Time". No Reino Unido e em outros mercados, teve desempenho mais forte. Mas o impacto cultural de "Jam" não se mede só pela parada.

O videoclipe, dirigido por David Kellogg, juntou os dois homens mais famosos da cultura pop americana naquele momento: Michael Jackson e Michael Jordan, então no auge com o Chicago Bulls. A premissa é simples e genial. Jordan tenta ensinar Michael a arremessar; Michael tenta ensinar Jordan a dançar. Nenhum dos dois é particularmente bom na arte do outro, e é aí que mora o charme. O clipe ainda conta com participações da dupla Kris Kross e de Heavy D, reforçando a ponte com o hip-hop.

Para uma geração inteira, inclusive no Brasil, onde a NBA começava a ganhar espaço na televisão aberta e o Dream Team de Barcelona 1992 virava febre, aquele encontro era a definição de cool. Tênis, bola laranja, dança em quadra: "Jam" virou um retrato da interseção entre esporte e música negra que definiria boa parte da estética dos anos 1990.

Outro momento marcante veio em janeiro de 1993, no intervalo do Super Bowl XXVII, em Pasadena. Michael surgiu do chão do palco, ficou imóvel por um tempo que pareceu interminável diante de uma multidão em êxtase, e então abriu a apresentação com "Jam". Essa performance é frequentemente apontada como o momento que transformou o show do intervalo do Super Bowl no espetáculo gigantesco que conhecemos hoje. Antes dela, o intervalo era um evento secundário; depois, virou vitrine para os maiores nomes do planeta.

Por que "Jam" envelheceu tão bem

Há canções de Michael Jackson que carregam o peso de serem hinos, como "Billie Jean" ou "Thriller". "Jam" tem outro papel na discografia dele. Ela é a prova de que, depois de ter conquistado tudo, Michael ainda estava disposto a se reinventar, a trabalhar com um produtor jovem, a incorporar um rapper, a abrir um disco com um som mais agressivo e menos polido do que o público esperava.

Ouvida hoje, a produção de Teddy Riley soa surpreendentemente atual. Aquela bateria dura e seca, os cortes abruptos, o uso de ruídos e samples, tudo isso antecipa uma estética que produtores de R&B e pop continuariam explorando por décadas. Não é por acaso que artistas contemporâneos citam "Dangerous" como um disco subestimado, às vezes até mais influente do que "Bad" entre músicos.

E o tema da canção, infelizmente, não perdeu atualidade. Viver num mundo que parece não fazer sentido, ser bombardeado por notícias de conflito, sentir que todo mundo está julgando você, sentir a pressão de uma exposição constante: tudo isso descreve com precisão a experiência de muita gente na era das redes sociais. Michael sentia isso de forma extrema, como alvo número um dos tabloides. Hoje, em escala menor, qualquer pessoa com um celular conhece a sensação.

A resposta que "Jam" oferece continua simples e poderosa. Olhe para dentro. Não deixe o barulho definir quem você é. E, quando as palavras não resolverem, junte-se a outras pessoas e se mova. Existe algo de profundamente humano nessa proposta, algo que conversa muito com a cultura brasileira, onde a música coletiva, a roda, o bloco e a batucada sempre foram maneiras de processar as dificuldades da vida. Não é coincidência que Michael tenha encontrado no Olodum, poucos anos depois, parceiros perfeitos para transformar indignação em ritmo.

Há também o fator afetivo. Para quem esteve no Morumbi em 1993, ou para quem assistiu às imagens da turnê em fitas VHS copiadas e recopiadas, "Jam" é o som do começo: o momento em que as luzes se apagam, o palco explode e Michael aparece. Poucas músicas carregam essa função de abertura com tanta naturalidade. Ela foi escrita para ser a primeira coisa que você ouve, e continua funcionando assim até hoje, seja numa playlist, numa festa ou numa aula de dança.

Por fim, "Jam" é um lembrete de que o Michael Jackson de "Dangerous" era um artista inquieto, curioso, atento ao que acontecia nas ruas. A imagem congelada do "Rei do Pop" às vezes esconde isso. Esta faixa desmancha a estátua e mostra alguém suando, experimentando, dividindo o microfone e a quadra com outros talentos. É um Michael mais vulnerável e, paradoxalmente, mais forte.


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