SONGFABLE · 1977

Heroes

DAVID BOWIE · 1977

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Heroes - David Bowie (1977)

Gravada em Berlim Ocidental a poucos metros do Muro, "Heroes" é uma canção sobre dois amantes que decidem ser heróis apenas por um dia, sob o olhar das sentinelas. O que parece um hino épico é, na verdade, uma miniatura — um instante de transcendência cotidiana arrancado de um continente partido ao meio. Quase cinquenta anos depois, ela continua sendo uma das declarações mais poderosas já feitas sobre a possibilidade do amor em meio ao colapso.

Hook

Há um momento, mais ou menos no terceiro minuto da canção, em que a voz de David Bowie começa a se quebrar. Não é um defeito técnico, nem um truque de estúdio: é o resultado deliberado de um sistema de microfones em cascata projetado pelo produtor Tony Visconti, no qual cada microfone só se abre quando o cantor levanta a voz acima de um determinado limiar. Quanto mais Bowie grita, mais distante ele soa, como se estivesse se afastando do ouvinte mesmo enquanto se aproxima da câmera. É a paradoxo perfeito da canção encapsulado em uma escolha de engenharia: quanto mais alto se proclama o heroísmo, mais ele se dissolve no ar de Berlim. Esta tensão — entre o grito e o sussurro, entre a grandiosidade e a fragilidade — é o que faz de "Heroes" uma das poucas canções pop que ainda conseguem soar como se fossem escritas hoje, mesmo depois de quase meio século de uso e desgaste.

Background

Em 1976, Bowie estava em frangalhos. A turnê de "Station to Station" o tinha deixado emaciado, paranoico, viciado em cocaína a um ponto em que ele próprio descreveria mais tarde como uma "psicose induzida quimicamente". Vivendo em Los Angeles, alimentando-se quase exclusivamente de leite, pimentões vermelhos e drogas, ele tinha desenvolvido obsessões esotéricas com magia negra, cabala e o ocultismo nazista. Era preciso fugir, e a fuga escolhida foi, paradoxalmente, o lugar mais sombrio do imaginário europeu: Berlim Ocidental, uma cidade-ilha cercada pelo bloco soviético, ainda em ruínas em muitos bairros, pintada em tons de cinza, fumaça e neon barato.

Bowie se instalou em um apartamento modesto no bairro de Schöneberg, na rua Hauptstrasse 155, junto com o amigo e colaborador Iggy Pop. Os dois passaram meses caminhando pelos parques, frequentando cafés turcos, indo a clubes gays como o Anderes Ufer, mergulhando em uma cultura urbana que nada tinha a ver com o glamour californiano. Foi nesse ambiente que Bowie começou a trabalhar com Brian Eno e Tony Visconti naquela que ficaria conhecida como a "Trilogia de Berlim" — três álbuns ("Low", "Heroes" e "Lodger") que reinventariam por completo a gramática do rock e abririam caminho para o pós-punk, o new wave, a música industrial e a eletrônica que dominariam a década seguinte.

"Heroes", o álbum, foi gravado entre julho e agosto de 1977 no Hansa Tonstudio 2, conhecido como "Hansa by the Wall" porque suas janelas davam literalmente para o Muro de Berlim. A faixa-título foi a última a ser composta. A música instrumental — com aquele riff hipnótico de Robert Fripp tocando a guitarra com um sistema de feedback controlado que ele apelidou de "Frippertronics" — já estava pronta, mas Bowie ainda não tinha letra. Segundo a lenda que ele mesmo cultivou por anos, a inspiração teria vindo ao olhar pela janela do estúdio e ver Visconti beijando uma corista alemã ao pé do Muro, sob a sombra das torres de vigilância da Alemanha Oriental. Décadas depois, Visconti — que na época era casado — finalmente confirmou a história.

O significado real

A canção descreve, em terceira pessoa e em segunda pessoa alternadas, um casal anônimo que se encontra sob o Muro. Não há nomes, não há rostos, não há nem mesmo certeza sobre quem está falando. O que existe é um pacto: por apenas um dia, eles serão heróis. Não para sempre, não para a história, não para os livros — apenas por aquelas vinte e quatro horas em que o amor consegue se impor sobre a geografia política do continente.

É crucial notar a presença das aspas no título original em inglês ("Heroes", entre aspas) que Bowie insistiu em manter em todas as capas e créditos. As aspas são uma forma de ironia distanciadora, uma espécie de aviso ao ouvinte: estes não são heróis no sentido épico, mitológico, nem no sentido do realismo socialista que decorava os murais do outro lado do muro. São heróis entre aspas, heróis improvisados, heróis de ocasião. O ato heróico aqui é minúsculo, quase invisível — beijar alguém ao lado de um muro armado. Mas é precisamente essa minúscula resistência que a canção propõe como única forma viável de heroísmo no século XX.

Há também uma camada de niilismo melancólico que muitas vezes passa despercebida nas execuções triunfalistas que a canção recebeu ao longo dos anos. As estrofes finais sugerem que nada disso vai durar, que os tiros vão continuar sendo disparados sobre as cabeças do casal, que a vergonha está do outro lado do muro. O heroísmo é declarado precisamente porque é insustentável. A música cresce em volume e intensidade, mas a letra vai ficando cada vez mais resignada. É uma canção de amor que sabe que vai perder, e que ainda assim insiste em ser cantada.

Eno e Bowie construíram a estrutura sonora como uma espécie de catedral em ruínas. A guitarra de Fripp gera um drone contínuo, quase litúrgico. O baixo de George Murray e a bateria de Dennis Davis estabelecem uma pulsação motorik herdada do krautrock — em especial das bandas Neu! e Kraftwerk, que Bowie ouvia obsessivamente naquele período. Sobre essa base, Visconti coloca a voz de Bowie em três níveis distintos, cada um capturado por um microfone diferente posicionado a distâncias crescentes — um a vinte centímetros, outro a seis metros, outro a quinze metros — criando aquele efeito de proximidade e distância simultâneas que ainda hoje continua sendo um dos achados mais elegantes da produção musical do século XX.

Contexto cultural para o leitor brasileiro

Para quem cresceu ouvindo rock brasileiro nos anos 80 e 90, "Heroes" oferece uma chave de leitura particular para entender o que a Legião Urbana tentava fazer em canções como "Que País É Este" ou "Geração Coca-Cola". Renato Russo era um leitor obsessivo de Bowie, e a ideia de cantar sobre uma juventude derrotada antes mesmo de começar a lutar — heróis entre aspas, heróis de um dia só — atravessa boa parte de sua obra. Quando Russo canta sobre futuros perdidos em Brasília, ele está em diálogo direto com aquele casal anônimo de Berlim. A diferença é que o muro brasileiro era menos visível, mais sociológico do que arquitetônico, mas igualmente intransponível.

Cazuza, que conhecia Bowie de cor e citava-o em entrevistas, fez algo parecido em "O Tempo Não Para" e "Brasil". Aquela mistura de cinismo elegante e melancolia política que caracteriza seus melhores momentos tem uma dívida clara com a estética berlinense de Bowie. O Cazuza dos últimos anos, já doente, cantando sobre um país que não funcionava enquanto seu próprio corpo desmoronava, é uma figura quase bowiana — um herói entre aspas que insiste em performar mesmo sabendo que o tempo está acabando.

Os Mutantes e Caetano Veloso, na sua geração anterior, tinham aberto o caminho para que essa conversa fosse possível. A Tropicália, com sua antropofagia deliberada do rock anglo-saxão, criou o vocabulário pelo qual Bowie pôde ser incorporado à imaginação brasileira sem soar como pastiche. Caetano, em especial, cantou "Heroes" várias vezes ao vivo ao longo de sua carreira, sempre carregando a canção de uma melancolia tropical que muda completamente o seu sentido — sob o sol equatorial, o muro vira metáfora de outra coisa, talvez da própria desigualdade brasileira, talvez do exílio em Londres durante a ditadura.

Quando Bowie finalmente veio ao Brasil para o Rock in Rio em 1990, ele já havia abandonado o personagem do Thin White Duke e se transformado em algo mais próximo de um estadista do rock. A apresentação no Maracanã, diante de centenas de milhares de pessoas, teve "Heroes" como um dos pontos altos. Para uma geração brasileira que vivia os primeiros anos da redemocratização, ouvir aquela canção sobre amantes do outro lado de um muro tinha um significado particular — o nosso próprio muro tinha acabado de cair, e a euforia do início dos anos 90 era exatamente o tipo de heroísmo de um dia só que a canção descrevia.

Por que ela ressoa hoje

A canção atravessou as décadas porque conseguiu fazer algo que poucas músicas pop conseguem: ela é simultaneamente histórica e atemporal. Está completamente ancorada em Berlim em 1977, mas funciona em qualquer cidade dividida, em qualquer relação ameaçada, em qualquer momento em que o amor parece insuficiente diante da política. Foi tocada na queda do Muro em 1989, em comícios anti-guerra em Londres, em vigílias para vítimas de atentados terroristas em Paris, em desfiles de orgulho LGBTQIA+ em cidades onde essa orgulho ainda é um ato de resistência. Cada uso a recontextualiza sem nunca esgotá-la.

Há também o fato de que, em 2026, vivemos sob uma proliferação de muros que Bowie talvez não pudesse ter imaginado — muros físicos entre Estados Unidos e México, entre Israel e Palestina, entre Hungria e Sérvia, mas também muros algorítmicos, bolhas informacionais, fronteiras invisíveis que separam comunidades inteiras dentro da mesma cidade. A canção, que parecia uma peça de museu nos anos 90, voltou a soar urgente. O gesto que ela descreve — beijar alguém apesar das sentinelas, ser herói por um dia só — talvez seja a forma mais honesta de heroísmo que ainda nos resta.

E há, por fim, a questão da morte de Bowie em janeiro de 2016, dois dias depois do lançamento de "Blackstar". A reinterpretação póstuma de toda a sua obra projeta uma luz nova sobre "Heroes": a canção sempre foi sobre a finitude, sobre o caráter precário do gesto, sobre a consciência de que o herói só é herói por um dia. Bowie morreu sabendo. A canção sabia desde 1977.

Como mergulhar mais fundo

🎧 Ouça

Low (David Bowie) O primeiro álbum da Trilogia de Berlim, lançado em janeiro de 1977. Mais experimental e introspectivo que "Heroes", com um lado B inteiramente instrumental que prefigura toda a ambient music dos anos 80. → Search

Que País É Este (Legião Urbana) O álbum de 1987 da Legião Urbana é a tradução mais direta possível da estética bowiana para o português brasileiro, com Renato Russo no auge de sua capacidade de transformar desencanto político em hinos geracionais. → Search

📚 Leia

Bowie: Uma Biografia (Wendy Leigh) Uma biografia detalhada que cobre desde a infância em Brixton até os anos finais, com atenção especial ao período berlinense e ao colapso que o precedeu. → Search

O Muro de Berlim: Um Mundo Dividido (Frederick Taylor) A história completa do Muro de Berlim, desde sua construção em 1961 até sua queda em 1989, com o contexto político e humano que dá sentido à canção de Bowie. → Search

🌍 Visite

Hansa Tonstudio, Berlim O estúdio onde a canção foi gravada ainda funciona e oferece tours guiados pela Meistersaal, a sala de gravação histórica cujas janelas davam para o Muro. Endereço: Köthener Strasse 38, Berlim. → Search

East Side Gallery, Berlim O maior trecho remanescente do Muro de Berlim, transformado em galeria de arte a céu aberto com mais de cem murais. Caminhar por ali é a forma mais direta de entender a geografia emocional da canção. → Search

🎸 Experimente você mesmo

Sistema de microfones em cascata Tente recriar em casa o efeito Visconti: grave sua voz com três microfones a distâncias diferentes (perto, médio, longe) e mixe os três sinais em proporções variáveis. O resultado revela por que "Heroes" soa simultaneamente íntima e épica. → Search

Frippertronics e looping de guitarra Robert Fripp construiu o riff de "Heroes" com um sistema de feedback baseado em dois gravadores de fita Revox. Hoje qualquer pedal de loop digital permite experimentar a técnica e entender como guitarras podem se tornar drones quase orquestrais. → Search


🎵 Listen on all platforms

🤖

  1. Como a estética berlinense de Bowie influenciou outros artistas brasileiros além de Cazuza e Renato Russo — pensando em nomes como Arnaldo Antunes, Marina Lima ou Lobão?
  2. Se "Heroes" foi gravada hoje, em 2026, qual muro contemporâneo (físico, digital, sociológico) Bowie escolheria como cenário?
  3. Por que a canção funciona tão bem em contextos de luto coletivo, mesmo tendo sido escrita originalmente como uma canção de amor privado?
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