SONGFABLE · 2024

Chihiro

BILLIE EILISH · 2024

TL;DR: Batizada em homenagem à heroína de "A Viagem de Chihiro", do Studio Ghibli, esta faixa não fala de fantasmas japoneses — ela usa a imagem de uma pessoa que esquece quem é para descrever o momento exato em que um amor começa a te olhar como se você fosse um estranho.
Listen elsewhere

We couldn't link a Spotify track for this story. Try searching the title on song.link to find it on your preferred service.

O nome engana, e é isso que o torna genial

A primeira coisa que quase todo mundo pergunta ao ouvir "Chihiro" é: por que uma cantora de Los Angeles daria a uma música o nome de uma menina de um filme de animação japonês? A resposta é o coração de tudo. Billie Eilish é fã confessa do Studio Ghibli há anos, e em "A Viagem de Chihiro" (2001), de Hayao Miyazaki, a protagonista atravessa um mundo espiritual onde as pessoas literalmente esquecem seus próprios nomes — e, ao esquecer o nome, esquecem quem são e ficam presas para sempre naquele lugar. Billie pega justamente essa ideia e a transporta para algo muito mais cotidiano e dolorido: a sensação de ver alguém que você ama começar a te esquecer aos poucos, como se a memória de vocês dois estivesse evaporando em tempo real.

Não é uma música sobre magia. É uma música sobre distância emocional disfarçada de conto de fadas. E é essa fusão — o encanto infantil do Ghibli com a angústia adulta de um relacionamento que esfria — que faz "Chihiro" ser uma das faixas mais comentadas do terceiro álbum de Billie.

O contexto: um álbum feito para ser ouvido inteiro

"Chihiro" é a quinta faixa de "Hit Me Hard and Soft", lançado em maio de 2024. Depois do estouro absurdo de "Happier Than Ever" (2021) e de ter vencido o Oscar duas vezes (por "No Time to Die" e depois por "What Was I Made For?", da trilha de "Barbie"), Billie chegou a esse disco numa posição rara: podia fazer exatamente o que quisesse. E o que ela e o irmão FINNEAS — coautor e coprodutor de praticamente tudo que ela grava desde o quarto da casa dos pais — quiseram foi um álbum sem singles óbvios, pensado para ser consumido do começo ao fim, na ordem, como se fosse um único organismo.

Reza a lenda que a dupla decidiu não lançar faixas antecipadas justamente para forçar essa escuta contínua, e "Chihiro" ganhou vida própria nesse contexto. Ela é construída em duas partes: começa quase sussurrada, com uma pulsação eletrônica hipnótica, e vai se transformando até desaguar num groove mais denso, com camadas de sintetizador e uma linha de baixo que parece te puxar para baixo, como quem afunda. Essa mutação sonora não é enfeite — ela imita o próprio tema da música, a sensação de que algo está mudando de forma bem debaixo dos seus pés.

Para quem acompanha Billie por aqui, vale lembrar que o Brasil tem um vínculo antigo com ela: a artista já passou pelo Lollapalooza Brasil e sempre é recebida por uma das plateias mais barulhentas do mundo. E há uma segunda ponte cultural que torna "Chihiro" quase feita sob medida para o público brasileiro — o Studio Ghibli é um fenômeno gigantesco no Brasil, com fãs que crescem revendo Miyazaki, colecionando pôsteres do Totoro e discutindo "A Viagem de Chihiro" como uma das obras mais importantes do cinema. Reconhecer a referência não é trivia de nerd: é ter a chave que abre a porta da letra.

O que a letra realmente diz

Sem citar nenhum verso, dá para reconstruir a história que Billie desenha. A narradora descreve um relacionamento no qual a outra pessoa parece estar se apagando — não fisicamente, mas emocionalmente. Ela fala de tentar segurar alguém que já está com um pé fora, de mandar mensagens que não são respondidas, de perceber que o olhar do outro mudou. Há uma imagem recorrente de portas: portas que se abrem, portas que se fecham, alguém saindo por uma delas. Quem viu o filme sabe que a passagem por um portal é o gatilho de toda a história de Chihiro, então essa escolha de linguagem não é acidente — é Billie amarrando a metáfora do começo ao fim.

O detalhe mais cortante é a inversão de memória. A narradora se pergunta se a pessoa realmente se lembra de quem elas eram juntas, ou se aquilo tudo já virou uma névoa. Existe até um momento em que ela menciona ter deixado comida do lado de fora para alguém — um gesto pequeno, doméstico, quase maternal — que ecoa diretamente uma cena do filme em que a comida tem peso simbólico e perigoso. É esse tipo de detalhe que revela o cuidado da composição: cada escolha aparentemente casual está costurada à mitologia do Ghibli.

No fundo, "Chihiro" descreve o instante em que você percebe que virou estranho para alguém que já foi íntimo. Não há briga, não há traição explícita, não há vilão. Há só a erosão silenciosa — a pessoa que te amava agora te olha com uma educação distante, e você fica ali tentando descobrir em que momento exato o nome de vocês dois foi esquecido.

O que ela representa dentro da carreira de Billie

Faz sentido pensar em "Chihiro" como um retrato de uma Billie mais madura como compositora. Nos primeiros trabalhos, ela construiu uma persona sombria, quase de filme de terror adolescente — sussurros, sarcasmo, aranhas na boca em clipe. Aqui, a escuridão continua, mas ficou mais adulta e mais psicológica. Em vez de assustar, ela desorienta. A produção com FINNEAS abandona qualquer refrão fácil de grudar e aposta numa estrutura que se recusa a se resolver, deixando o ouvinte na mesma incerteza que a narradora vive.

Isso conversa com uma tendência que fãs de rock e pop internacional vêm notando: artistas grandes se afastando da lógica do single de 15 segundos para o TikTok e voltando à ideia do álbum como obra. "Chihiro" é quase um manifesto disso. Ela não foi construída para tocar no rádio nem para ser cortada num vídeo de dança — ela foi construída para te prender por seis minutos, mudar de pele no meio do caminho e te deixar com uma sensação incômoda no peito. E, mesmo assim, virou uma das faixas mais amadas e viralizadas do disco, o que diz muito sobre a fome do público por música que exige atenção.

Também é interessante notar como Billie se apropria de uma referência da cultura japonesa sem exotizá-la de forma rasa. Ela não usa o Ghibli como enfeite estético; usa como estrutura narrativa. Para um país como o Brasil, onde o anime deixou de ser subcultura e virou linguagem popular — dos festivais de cultura pop lotados às maratonas de Miyazaki nas plataformas de streaming —, essa apropriação soa natural, quase familiar. A música pressupõe um público que já viveu com o cinema de Miyazaki, e boa parte da geração brasileira que ouve Billie viveu.

Por que ela ainda ressoa

O que mantém "Chihiro" viva não é a referência bonitinha ao Ghibli — é a precisão brutal com que ela nomeia uma dor que quase todo mundo já sentiu e para a qual poucos têm palavra. A dor de ser esquecido devagar. Não é o fim escandaloso de um relacionamento, com portas batendo e pratos voando. É o fim silencioso: o outro vai ficando ausente, as respostas vão ficando frias, e um dia você percebe que a pessoa que sabia tudo sobre você agora fala com você como se estivesse cumprindo protocolo.

Essa é uma experiência profundamente contemporânea. Vivemos numa era de vínculos que somem sem aviso — o famoso "ghosting", o contato que evapora, a intimidade que se dissolve em visualizações sem resposta. "Chihiro" dá forma sonora a esse fenômeno. E o faz sem apontar culpados, o que talvez seja o que mais machuca: às vezes ninguém é vilão, e mesmo assim o amor acaba esquecendo o próprio nome.

Há ainda a leitura de que a música fala do próprio processo de crescer e mudar — de como, ao virar outra pessoa, você inevitavelmente se torna estranho para quem te conheceu antes. Billie, que ficou famosa aos treze anos e cresceu sob o olhar do mundo inteiro, tem uma relação óbvia com essa ideia de identidade em transformação. Talvez "Chihiro" seja também sobre isso: sobre o custo de mudar, e sobre o quanto a gente perde de si mesmo no caminho de virar quem é.


Como mergulhar mais fundo

🎧 Mergulhe no som

📚 Acompanhe a história

🌍 Visite os lugares

🎸 Experimente você mesmo


🎵 Ouça esta música

🤖 Pergunte mais
Tags
20s