SONGFABLE · 1979

Another Brick in the Wall

PINK FLOYD · 1979

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Another Brick in the Wall - Pink Floyd (1979)

Um disco-funk britânico travestido de hino antiautoritário, "Another Brick in the Wall (Part 2)" transformou o ressentimento de Roger Waters contra a educação inglesa em uma marcha global de crianças. Lançada no fim de 1979, a canção condensou em poucos minutos o argumento central de The Wall: cada humilhação institucional é mais um tijolo no muro psíquico que separa o indivíduo do mundo. Quatro décadas depois, a faixa continua a ser ressuscitada toda vez que um sistema — escolar, político, algorítmico — parece tratar pessoas como matéria-prima.

Hook

Há uma estranheza fundadora em "Another Brick in the Wall (Part 2)". É uma canção sobre desumanização interpretada por um coro de crianças reais — alunos da Islington Green School, no norte de Londres, recrutados em segredo pelo produtor Bob Ezrin enquanto o diretor estava em viagem. É uma canção contra a uniformização cuja batida quatro-no-chão é, ela mesma, uma forma de uniformização: o pulso da discoteca, que naquele exato momento dominava as paradas anglo-americanas. E é uma canção de rock progressivo — gênero notoriamente alérgico ao single de três minutos — que se tornou o único número um do Pink Floyd nas paradas do Reino Unido e dos Estados Unidos.

Essas contradições não são acidentais. Elas são o motor estético da faixa. Roger Waters queria escrever um hino. Ezrin queria um hit. David Gilmour queria que o solo de guitarra — aquele lamento bluesy que sobe sobre a base sintética — não soasse como concessão. O resultado é uma das peças mais perfeitamente disfarçadas do cânone do rock: um cavalo de Troia melódico que entrega, embrulhado em groove dançante, uma das declarações mais ácidas já feitas sobre o que a escola faz a uma criança sensível.

Background

Para entender "Another Brick in the Wall", é preciso entender o estado mental de Roger Waters em 1977. Naquele ano, durante a turnê do álbum Animals, ele cuspiu na cara de um fã que se aproximou demais do palco no Estádio Olímpico de Montreal. O gesto o assombrou. Ao voltar para Londres, começou a esboçar uma ópera-rock sobre uma estrela do rock chamada Pink — parte autoficção, parte caricatura de Syd Barrett, o líder original da banda que havia sucumbido ao LSD e a uma esquizofrenia precoce — que constrói ao longo da vida um muro psicológico entre si e o público, entre si e o mundo.

Cada tijolo desse muro corresponde a um trauma: a morte do pai na Segunda Guerra Mundial, na batalha de Anzio, em 1944, quando Waters tinha cinco meses; a mãe superprotetora; os professores sádicos do internato britânico do pós-guerra; a infidelidade da esposa; o cinismo da indústria fonográfica. "Another Brick in the Wall" é, na verdade, três canções — Parte 1, 2 e 3 — espalhadas pelo álbum duplo The Wall, lançado em 30 de novembro de 1979. Cada uma marca uma etapa da construção do muro. A Parte 2 é a do professor.

A produção da faixa virou lenda da indústria. Bob Ezrin, produtor canadense que já havia trabalhado com Alice Cooper e Lou Reed, ouviu a maquete de Waters e disse algo como: precisa de um segundo verso, precisa de uma batida disco, precisa de crianças cantando. Waters, segundo várias entrevistas, achou a ideia da batida disco repugnante — mas Ezrin insistiu. Saiu de noite com um gravador portátil, foi até a escola pública do bairro do estúdio Britannia Row, em Islington, fechou um acordo com o professor de música Alun Renshaw e gravou os alunos em sessões discretas. O grupo cantou em uníssono primeiro, depois Ezrin multiplicou as vozes, dobrou, triplicou, fez parecer uma multidão. Quando o diretor da escola descobriu o que tinha acontecido — e que a Pink Floyd havia pago apenas uma pequena quantia simbólica em discos —, foi tarde demais: a faixa já estava no número um. Décadas depois, a Performing Right Society reabriria o caso, e os alunos, então adultos, receberiam royalties retroativos.

O videoclipe, dirigido por Gerald Scarfe, traduziu visualmente a alegoria: martelos marchando em formação, crianças sem rosto sendo despejadas em uma máquina de moer carne, um professor caricaturado como uma marionete monstruosa. A imagem da máquina virou uma das mais reconhecíveis da história do rock — e um dos exemplos mais citados em aulas de teoria crítica sobre indústria cultural.

O significado real

A leitura fácil de "Another Brick in the Wall (Part 2)" é a de uma canção anti-escola. Crianças exigem que pensamento e controle parem de ser impostos. Foi assim que ela foi lida em 1979, e foi por isso que o governo da África do Sul a baniu em 1980 — alunos negros estavam usando a faixa em protestos contra o sistema educacional segregado do apartheid.

Mas a leitura interna ao álbum é mais complicada. Waters não está dizendo que a educação é, em si, o problema. Está dizendo que uma certa forma de educação — a do internato britânico do imediato pós-guerra, com professores muitas vezes traumatizados pela guerra, autoritários, sádicos, ressentidos da própria existência — produz adultos incapazes de relacionamento. A canção não pede a abolição da escola. Pede que se pare de moldar crianças como tijolos intercambiáveis em uma parede que ninguém escolheu erguer.

Há uma camada ainda mais inquietante. O protagonista, Pink, também é cúmplice da construção do muro. Cada queixa, cada ressentimento legítimo, vira justificativa para o isolamento. No final do álbum, quando o muro está completo, Pink emerge como uma figura quase fascista — um líder de massas histérico, cuspindo discursos xenófobos para uma plateia que o adora. A genialidade sombria de Waters foi mostrar que a vítima de um sistema autoritário pode reproduzir, em escala ampliada, exatamente o autoritarismo que sofreu. O muro não é só uma defesa: é uma fábrica de tiranos menores.

Musicalmente, a faixa opera essa duplicidade. A linha de baixo de Waters é hipnótica, quase robótica. A guitarra de Gilmour, no segundo solo, é puro lirismo blues — o último resíduo humano antes que o muro feche. O coro de crianças, que deveria soar libertador, soa também levemente sinistro: vozes em massa pedindo liberdade da massa. É a contradição que Theodor Adorno teria reconhecido imediatamente: a forma da mercadoria pop devorando o conteúdo da crítica, e ainda assim deixando a crítica audível, justamente porque a forma é tão eficaz.

Contexto cultural para o leitor brasileiro

No Brasil, "Another Brick in the Wall" chegou em um momento culturalmente específico. 1979 é o ano da Lei da Anistia, do início do fim da ditadura militar, da volta de exilados como Caetano Veloso e Gilberto Gil, da abertura lenta — a "distensão" de Geisel virando a "abertura" de Figueiredo. Adolescentes de classe média urbana que ouviam Pink Floyd em fitas K7 piratas estavam, sem saber, sendo iniciados num vocabulário de contestação que iria florescer com toda força nos anos 1980.

A canção que mais dialoga diretamente com "Another Brick in the Wall" no cânone brasileiro talvez seja "Geração Coca-Cola", da Legião Urbana, lançada em 1985. Renato Russo, brasiliense, leitor obsessivo de literatura inglesa, ouvinte fanático de Pink Floyd e Joy Division, escreveu sobre uma juventude que cresceu vendo televisão demais e cuja revolta agora se voltaria contra os pais que se acomodaram durante a ditadura. A estrutura é a mesma de Waters: uma denúncia coletiva, em primeira pessoa do plural, contra um sistema que tentou padronizar uma geração. A diferença é que Renato troca o internato britânico pela escola pública brasiliense e pela publicidade norte-americana.

Cazuza, no Barão Vermelho e depois solo, fez do ressentimento autoritário um material lírico ainda mais sangrento. "O Tempo Não Para", de 1988, escrita já com o diagnóstico de HIV, opera com a mesma raiva alfabetizada de Waters — a raiva de quem leu, viu, entendeu como o sistema funciona, e mesmo assim está sendo esmagado por ele. Quando Cazuza canta sobre um país que enterra seus mortos e mata o que nasce, está, em outra chave, descrevendo a máquina de moer carne de Scarfe.

Mais para trás, é impossível não pensar nos Os Mutantes e na Tropicália. Em 1968, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa e os Mutantes haviam feito algo formalmente análogo ao que Waters faria onze anos depois: contrabandear crítica política dentro de uma forma pop deliberadamente sedutora. "Tropicália" de Caetano e "Panis et Circenses" cantada por Gal eram cavalos de Troia melódicos do mesmo tipo — música pop como vetor de subversão da censura. A diferença é que a Tropicália respondia a uma ditadura ativa, com tortura e exílio, enquanto Pink Floyd respondia a uma democracia liberal britânica em colapso material e moral, com Margaret Thatcher chegando ao poder em maio de 1979.

A apoteose dessa convivência cultural anglo-brasileira foi o Rock in Rio de 1985. O Brasil saía da ditadura, Tancredo Neves havia acabado de morrer, e mais de um milhão de pessoas passaram pelo evento em duas semanas. Lá estavam Queen, AC/DC, Iron Maiden — e Pink Floyd não tocou nessa primeira edição, mas estaria presente como referência inevitável em todo set de bandas brasileiras. O grupo de Roger Waters voltaria ao Brasil várias vezes nas décadas seguintes, e o próprio Waters, em turnês solo de The Wall na década de 2010 e 2020, projetaria os rostos de vítimas brasileiras da ditadura nos enormes telões do estádio — Vladimir Herzog, Carlos Marighella, Rubens Paiva. O muro de Pink, em São Paulo ou no Rio, virou também o muro de uma memória nacional.

Vale acrescentar uma camada brasileira mais difusa: a relação da MPB com a escola. Chico Buarque em "Construção" descreve um operário moído pela engrenagem urbana com a mesma frieza estrutural que Scarfe usou no clipe de Pink Floyd. Não é uma canção sobre educação, mas é a mesma observação central: que existe um sistema cuja função é converter pessoas em tijolos. Cada vez que um aluno brasileiro de hoje ouve "Another Brick in the Wall" pela primeira vez — provavelmente por um algoritmo do Spotify, e não por um pai com vinil — está entrando num diálogo que passa por Renato, Cazuza, Chico e Caetano antes de chegar a Waters.

Por que ressoa hoje

Há algo curioso em "Another Brick in the Wall" no contexto de 2026. A canção foi escrita contra a educação industrial — fileiras de carteiras, disciplina, memorização, exame. Esse sistema, ironicamente, está em colapso visível. A inteligência artificial generativa tornou obsoletas várias das tarefas que a escola disciplinar treinava: redação padronizada, resumo, repetição. As crianças que hoje ouvem a faixa numa playlist de "rock clássico" não estão dentro do muro que Waters atacou. Estão dentro de um outro tipo de muro.

Esse novo muro é algorítmico. Em vez do professor sádico, há o feed; em vez do uniforme, o nicho de recomendação; em vez da humilhação pública na lousa, o ranking invisível do engajamento. Cada like, cada parada de scroll, cada vídeo até o fim é mais um tijolo — não em torno do indivíduo, mas dentro dele. A diferença estrutural é importante: o muro de Waters era uma defesa erguida contra um trauma; o muro contemporâneo é uma arquitetura erguida sem que o sujeito perceba, para extração de atenção.

E ainda assim a canção segue cantável. Em manifestações estudantis no Chile em 2019, em protestos contra reformas educacionais na França, em ocupações de escolas secundárias paulistanas em 2015, "Another Brick in the Wall" reaparece. Funciona porque sua forma é genérica o suficiente — uma exigência coletiva de não-uniformização — para se acoplar a qualquer estrutura que esteja tratando alunos como insumo. O conteúdo se atualiza; a forma se mantém.

Talvez o aspecto mais duradouro da faixa seja o que ela ensina sobre a estética da contestação. Roger Waters provou, com aquele single, que uma crítica radical não precisa soar feia para ser radical. A batida disco — que ele detestava — foi exatamente o que carregou a mensagem para milhões de pessoas que jamais teriam comprado um álbum conceitual progressivo. Há uma lição aí, especialmente para artistas brasileiros contemporâneos lidando com um país polarizado: a música mais subversiva pode ser aquela que se infiltra na pista de dança antes de revelar do que está falando.

E talvez seja por isso que, ao final do solo de Gilmour, quando as crianças voltam e o coro se expande, ainda fica uma ambiguidade no ar. Não é claro se elas estão sendo libertadas ou se estão sendo recrutadas para o próximo muro. Pink Floyd nunca resolveu essa ambiguidade — e foi precisamente por não resolvê-la que a canção continua a respirar.

Como mergulhar mais fundo

🎧 Ouça

The Dark Side of the Moon (Pink Floyd) O álbum de 1973 que estabeleceu o vocabulário sonoro que reapareceria em The Wall — alienação, tempo, dinheiro, loucura — em sua forma mais conceitualmente coesa. Ouvir os dois discos em sequência é entender a evolução de Waters de observador a paciente. → Search

As Quatro Estações (Legião Urbana) O álbum de 1989 em que Renato Russo consolidou o diálogo brasileiro com Pink Floyd, transformando a alegoria do muro em uma reflexão sobre fé, AIDS e desencanto político no Brasil pós-ditadura. → Search

📚 Leia

Comfortably Numb: The Inside Story of Pink Floyd (Mark Blake) A biografia mais completa e checada da banda, com entrevistas detalhadas sobre a produção de The Wall, incluindo o caso da escola de Islington e a guerra interna entre Waters e Gilmour. → Search

Vigiar e Punir (Michel Foucault) O ensaio fundamental sobre como instituições disciplinares — escolas, prisões, fábricas, quartéis — produzem corpos dóceis. Lê-lo em paralelo a The Wall faz emergir o esqueleto teórico que Waters intuiu sem citar. → Search

🌍 Visite

Islington Green School (atual City of London Academy Islington), Londres O prédio onde os alunos foram gravados em segredo por Bob Ezrin em 1979 ainda funciona como escola pública, e o bairro de Islington preserva o ambiente urbano onde nasceu o disco — incluindo o antigo estúdio Britannia Row, a poucos quarteirões. → Search

Museu da Imagem e do Som, São Paulo A instituição preserva acervos sobre o Rock in Rio, a Tropicália e a recepção brasileira do rock progressivo dos anos 1970, com sessões audiovisuais que contextualizam como discos como The Wall circularam clandestinamente durante a ditadura. → Search

🎸 Experimente você mesmo

Aprenda o solo de Gilmour em "Comfortably Numb" Mais do que decorar notas, é um exercício de fraseado vocal aplicado à guitarra — bend, vibrato e silêncio. Um tablature confiável e um amplificador com um pouco de delay analógico bastam para começar. → Search

Faça seu próprio "muro" pessoal em um caderno Escreva, em uma página de caderno, dez "tijolos" — eventos, frases, instituições — que construíram sua relação atual com autoridade. O exercício, sugerido por terapeutas de orientação narrativa, materializa a alegoria de Waters como ferramenta de autoexame. → Search


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🤖 Perguntas para continuar:

  1. Como a recepção brasileira de Pink Floyd nos anos 1980 dialogou com o rock nacional emergente — Legião Urbana, Barão Vermelho, Titãs — e por que tantos letristas brasileiros adotaram o tom alegórico de Waters?
  2. Se Roger Waters escrevesse The Wall em 2026, o muro seria construído de tijolos institucionais ou de fragmentos algorítmicos — e como isso mudaria a forma musical do álbum?
  3. Em que medida a estratégia de Bob Ezrin — embrulhar crítica radical em batida pop dançante — ainda funciona em um cenário de streaming, onde o algoritmo segmenta audiências antes que a mensagem chegue ao ouvinte certo?
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