SONGFABLE · 1979

Babylon's Burning

THE RUTS · 1979 · SOUTHALL, LONDON, UK

TL;DR: Debaixo de um riff furioso de punk que qualquer um pode gritar no chuveiro, "Babylon's Burning" fala sobre algo bem menos festivo: a ansiedade coletiva de viver numa sociedade prestes a explodir. "Babylon" não é uma cidade da Bíblia, é a própria Inglaterra apodrecendo por dentro, com o racismo, o desemprego e o medo pegando fogo nas ruas de Londres em 1979.
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O grito que parecia festa mas era pânico

Tem uma armadilha deliciosa em "Babylon's Burning". A música entra com uma energia tão contagiante, tão pronta para o pogo e para o pulo coletivo, que é fácil sair cantando o refrão sem perceber o que ela está de fato dizendo. E o que ela diz não é nada alegre. A palavra que a banda repete como um alarme, "anxiety" (ansiedade), é a chave secreta da coisa toda. The Ruts pegaram o formato mais explosivo e dançante do punk e o encheram com uma sensação de pavor social, o tipo de tensão que você sente no ar antes de uma tempestade que ninguém sabe se vai passar.

Para o fã brasileiro que gosta de rock internacional, a jogada aqui vai soar familiar. É o mesmo truque que bandas boas fazem o tempo todo: embrulhar uma mensagem dura numa embalagem irresistível. Só que The Ruts fizeram isso com uma precisão quase cirúrgica em 1979, transformando o clima de uma Inglaterra em crise numa faísca de dois minutos e meio. "Babylon" não está queimando de festa. Está queimando de febre.

Southall, o reggae e uma banda que escolheu um lado

Para entender "Babylon's Burning", vale conhecer de onde The Ruts vieram. A banda se formou por volta de 1977 na região oeste de Londres, e cresceu num ambiente muito específico: uma Inglaterra dividida, com tensão racial crescente, desemprego alto e a extrema-direita ganhando espaço nas ruas. O vocalista Malcolm Owen, o guitarrista Paul Fox, o baixista John "Segs" Jennings e o baterista Dave Ruffy não eram apenas mais uma banda de punk raivoso. Eles tinham um vínculo real e público com a comunidade negra britânica e com o movimento Rock Against Racism, que juntava punks e amantes de reggae contra o racismo organizado.

Esse detalhe muda tudo. The Ruts trabalharam de perto com a banda de reggae Misty in Roots, e essa amizade não foi decoração: o reggae e o dub entraram no DNA da banda. Se você ouvir o disco deles com atenção, percebe que o punk deles respira num groove que muita banda inglesa da época não tinha. A escolha da palavra "Babylon" no título não é acidente nenhum. No vocabulário rastafári e no reggae jamaicano, "Babylon" é o nome dado ao sistema opressor, à polícia, ao Estado, à máquina que esmaga o povo. The Ruts, sendo brancos e ingleses, pegaram esse conceito emprestado da cultura negra com a qual conviviam e apontaram o dedo para a própria Inglaterra. Era como dizer: o sistema que oprime vocês está pegando fogo, e nós vemos isso também.

Reza a lenda que a região de Southall, palco de um confronto brutal em abril de 1979 entre manifestantes antifascistas e a polícia (episódio em que o professor Blair Peach morreu, reportadamente após ser atingido por policiais), estava fresca na cabeça de todo mundo quando a música saiu. "Babylon's Burning" foi lançada como single em 1979 e chegou impressionantemente ao Top 10 das paradas britânicas, algo raríssimo para uma banda de punk com uma mensagem tão áspera. Um grito de pânico social vendendo como pão quente: é a contradição perfeita que só o final dos anos 70 conseguia produzir.

O que a música realmente está dizendo

Sem citar nenhum verso, dá para desenhar o quadro que a letra pinta. A ideia central é a de uma cidade, uma sociedade inteira, sendo consumida pelas chamas de dentro para fora. Não é fogo de bombardeio nem de guerra estrangeira. É uma combustão interna, alimentada por sentimentos que a música lista quase como sintomas de uma doença coletiva: ansiedade, ambição frustrada, o medo que não vai embora. Malcolm Owen canta como quem repete um diagnóstico, martelando a mesma palavra de alerta até ela virar quase um mantra de pavor.

O que torna a letra tão afiada é justamente essa recusa a explicar demais. A música não faz um discurso político detalhado nem entrega um manifesto com propostas. Ela captura uma temperatura emocional. Aquela sensação de que tudo pode desmoronar a qualquer momento, de que a estrutura em que você vive está rangendo e você não pode fazer nada além de assistir. Owen não está descrevendo um incêndio de fora. Ele está descrevendo como é estar dentro do prédio em chamas, sentindo o calor subir, sabendo que a saída está bloqueada.

Há também uma dimensão quase paranoica, e ela é proposital. A repetição obsessiva funciona como o pensamento de alguém que não consegue parar de pensar no pior. É a ansiedade transformada em música, com a batida acelerada imitando o coração disparado de quem vive num estado permanente de alerta. Por isso a canção soa tão urgente: ela não fala sobre o pânico de forma distante, ela reproduz o pânico na sua própria estrutura sonora.

Um instantâneo de 1979 que virou clássico

O ano de 1979 foi um divisor de águas na Inglaterra. Margaret Thatcher chegava ao poder, o chamado "Inverno do Descontentamento" tinha deixado o país com greves, lixo acumulado nas ruas e uma sensação generalizada de colapso. A primeira onda do punk, com os Sex Pistols já dissolvidos, estava dando lugar a algo mais politizado e musicalmente mais aberto. The Ruts pertencem a essa segunda geração, ao lado de bandas como The Clash, que também misturavam punk com reggae e falavam abertamente de racismo e classe social.

"Babylon's Burning" se tornou um dos hinos definidores desse momento. O sucesso comercial da música é notável porque ela não suavizou nada para agradar às rádios. Era punk de verdade, com mensagem de verdade, e mesmo assim conquistou o grande público. Isso diz muito sobre o clima da época: as pessoas reconheciam a ansiedade que a música descrevia porque estavam vivendo ela. A canção não precisava convencer ninguém de que Babylon estava pegando fogo. Bastava olhar pela janela.

A história de The Ruts, infelizmente, tem um capítulo trágico que amplifica o peso de tudo isso. Malcolm Owen lutava contra o vício em heroína, e morreu de overdose em julho de 1980, aos 26 anos, pouco depois do primeiro álbum completo da banda, "The Crack", ter saído. A banda estava em ascensão total, e de repente perdeu sua voz. Os outros membros seguiram por um tempo sob o nome Ruts D.C., mas o The Ruts como o mundo conheceu terminou ali. Isso deu a "Babylon's Burning" uma camada extra de melancolia retrospectiva: a voz que gritava sobre uma sociedade em chamas se apagou cedo demais, e a canção ficou como um dos poucos e brilhantes registros do que aquela banda poderia ter sido.

Um gancho para o ouvinte brasileiro

Aqui tem uma ponte interessante para quem escuta rock no Brasil. A ideia de pegar um formato importado, o punk vindo de Londres, e usá-lo para falar da sua própria realidade urbana em crise é exatamente o que a cena punk e pós-punk brasileira dos anos 80 fez com maestria. Bandas de São Paulo e Brasília que surgiram na esteira desse movimento entenderam o mesmo espírito: usar a energia crua do punk para descrever cidades tensas, desigualdade e a sensação de que o sistema estava contra você. "Babylon's Burning" é, de certa forma, prima distante de tudo que essa geração brasileira criou.

E tem a conexão do reggae, que no Brasil tem raízes profundas, especialmente no Maranhão e em toda a cultura que abraçou a Jamaica. O conceito de "Babylon" como o sistema opressor, que The Ruts pegaram do rastafári, é o mesmo que ecoa em incontáveis músicas de reggae brasileiro. Quem cresceu ouvindo reggae no Brasil entende a palavra "Babylon" instintivamente, sem precisar de tradução. The Ruts fizeram a ponte entre o punk branco de Londres e essa cosmologia negra jamaicana antes de muita gente, e essa fusão é algo que um ouvido brasileiro treinado em ritmos afro-diaspóricos capta de imediato.

Por que ela ainda ressoa hoje

Passadas mais de quatro décadas, "Babylon's Burning" continua batendo com força, e não é só por nostalgia. A ansiedade que a música descreve virou, se é que dá para dizer isso, a emoção definidora do nosso tempo. Vivemos numa era em que o pânico coletivo é constante: crises econômicas, polarização política, catástrofes climáticas, notícias que chegam sem parar num fluxo que nunca desliga. A sensação de estar dentro de um prédio em chamas sem enxergar a saída é, talvez, mais universal agora do que era em 1979.

Musicalmente, a canção também envelheceu com uma graça surpreendente. Aquela mistura de urgência punk com groove de reggae soa fresca porque nunca foi datada demais. Ela não depende de um som específico de estúdio dos anos 70; depende de energia, de convicção e de um refrão que gruda. Por isso ela aparece em trilhas, em compilações e na memória de gente que nem sabe muito bem quem foi The Ruts, mas reconhece aquele grito. É uma música que sobreviveu ao seu próprio contexto.

E há a dimensão humana. Saber que Malcolm Owen morreu tão jovem, logo depois de gravar isso, transforma cada audição num pequeno ato de resgate. A gente ouve "Babylon's Burning" e escuta uma banda no auge do talento, cheia de raiva justa e de coração aberto, prestes a perder tudo. Poucas canções conseguem ser ao mesmo tempo tão dançantes e tão carregadas de significado. Essa é a mágica improvável de The Ruts, e é por isso que Babylon continua queimando toda vez que alguém aperta o play.


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